Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

AS CARTAS DE CALAMITY JANE PARA SUA FILHA
Marco Aurélio Lucchetti



Calamity Jane foi também mãe. Teve uma filha, Janey, nascida (segundo a própria Calamity Jane), de seu relacionamento com Wild Bill Hickok e depois confiada a um casal de ingleses, Jim e Helen O’Neil, que a levaram para além-mar.
Entre 1877 e 1902, Jane escreveu um diário, que Jim O’Neil deveria entregar a Janey depois de sua morte.
Na verdade, esse diário são vinte e sete cartas que a aventureira redigiu, – quase sempre em tom melancólico – para a filha. E ele foi publicado – com o título de Calamity Jane’s Letters to Her Daughter –, em 1976, por uma editora da Califórnia, a Shameless Hussy Press.
A seguir, apresentamos, traduzida (por nós) para o Português, a primeira dessas cartas.

 

Deadwood, Território de Dakota, 25 de setembro de 1877

Minha Querida:
Este não pretende ser um diário e pode ser que nunca lhe seja remetido; mas me agrada pensar que, nos anos que se seguirem à minha partida deste mundo, você o lerá página por página.
Neste momento, em que gostaria de vê-la sorrindo, estou sozinha nesta barraca e sinto-me cansada. Ontem, percorri cerca de sessenta milhas a cavalo, a fim de ir até a agência dos Correios; e retornei para casa esta noite. É seu aniversário... está completando quatro anos. Papai Jim me prometeu que receberei uma carta a cada aniversário seu. Se fiquei feliz de ter notícias suas? Ele me enviou uma pequena foto sua –, vejo que é o retrato perfeito de mim na sua idade –, que, agora, beijo. Só peço, enquanto começo a chorar, que um dia Deus possa, de algum modo, fazer com que você e seu pai me perdoem.
Fui esta manhã a Ingleside e visitei o túmulo de seu pai. Dizem que vão mudar a sepultura dele para o Cemitério de Mount Moriah, que fica em Deadwood. Apenas pouco mais de um ano se passou desde que o mataram; porém, para mim, é como se já tivesse passado um século. Sem vocês dois... os anos que virão me parecem um caminho solitário.
Amanhã, só por aventura, irei a Yellowstone Valley.
Os O’Neil mudaram o seu nome para Jane Irene, mas eu sempre a tratarei por Janey.