Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

A RENOVAÇÃO DO WESTERN



Falou-se muitas vezes que No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939) representa a transição renovadora entre o faroeste “primitivo”, interessado sobretudo em contar uma história divertida e de uma forma esquemática e eficaz, e o faroeste “moderno”, que, na sua exploração dos mitos, as histórias e os personagens que povoaram o Wild Far-West americano, faz uma reflexão sobre a condição humana e elabora uma antropologia aproximativa do Oeste. O paradigma desta transformação é, precisamente, No Tempo das Diligências.
Aparentemente não existe nenhuma diferença entre este filme e seus predecessores: os personagens representam padrões característicos do gênero, a situação vivida por eles faz parte das convenções do Western e, inclusive, a paisagem já tinha sido utilizada anteriormente. Porém, uma análise mais minuciosa ajuda a perceber as mudanças sutis introduzidas por John Ford neste filme. Mudanças essas que representam o desvio do Faroeste para terrenos de maior densidade moral. Com efeito, em No Tempo das Diligências os estereótipos que representam os personagens transformam-se em arquétipos, em padrões de comportamento e atitudes, em vetores que suportam um determinado ideal do universo humano que habita na fronteira. Por sua vez, Ford introduz elementos que, apesar de não serem novos no gênero, oferecem um novo tratamento: a história de amor entre a prostituta Dallas (Claire Trevor) e o pistoleiro Ringo Kid (John Wayne), repetida posteriormente até a saciedade em todas as suas variações, e o nascimento de uma criança – filho da esposa de um oficial da Cavalaria – quebravam os esquemas de um mundo centralizado em referentes masculinos e, por conseguinte, dirigido fundamentalmente aos homens. De fato, a grande novidade de No Tempo das Diligências é a fusão feita por John Ford e o escritor e roteirista Dudley Nichols entre o Melodrama e o Faroeste, que significaria o nascimento do Western psicológico”, um rótulo ambíguo demais, mas que serve para ilustrar a mudança substancial que se operou com este filme no tratamento dos personagens e nas descrições dos conflitos.

 

Este texto foi transcrito de Os Clássicos do Cinema volume 1 (Barcelona, Altaya, 1997, p. 43)