Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

APRESENTANDO BRET HARTE
Marco Aurélio Lucchetti



“Bret Harte (...) escreveu sobre o Oeste, principalmente sobre a Corrida do Ouro. Encontra-se em sua obra uma grande simplicidade, ousadia, muita força e humor. (...) escreveu sobre acontecimentos brutais decorridos em cidades mineiras, sobre jogadores, prostitutas e mortes violentas. Como Henry Adams apontou (...), foi um dos raros escritores de seu tempo com coragem suficiente para tratar do sexo sem sentimentalismo (...).”
Danforth Ross


Francis Bret Harte, que escreveria algumas das mais belas histórias da Califórnia pioneira e ficaria marcado como um especialista em histórias da fronteira, nasceu em 25 de agosto de 1836, em Albany, no estado de Nova York.
Criança franzina, delicada e sempre às voltas com os livros, perdeu o pai – homem culto e educado, mas instável e aventureiro – quando tinha apenas oito anos de idade.
Por volta de 1854, mudou-se com a mãe para a Califórnia. Ali, foi mineiro,  professor e empregado de uma farmácia; trabalhou como mensageiro da Wells Fargo Express; e, por fim, tornou-se linotipista.
Ainda em 1854, quando estava morando em San Francisco, começou a escrever histórias que eram publicadas num jornal que ajudava a editar. Logo o estilo e a graça de seus escritos chamaram a atenção do público e também dos críticos. Então, escreveram a seu respeito: “Acaba de nascer um maravilhoso contador de histórias.”
Em 1862, Bret Harte casou-se. Dois anos mais tarde, arrumou um emprego público, o que lhe possibilitou ter mais tempo para escrever. E, em 1868, o segundo número de Overland Monthly (ele era o editor dessa revista) publicou seu conto “A Fortuna do Campo Trovejante” (“The Luck of Roaring Camp”), que alcançou extraordinário êxito, sobretudo na Costa Leste norte-americana, onde os leitores estavam ávidos para ler histórias tendo como cenário o Oeste selvagem.

“No meio de um debate agitadíssimo, ouviu-se uma exclamação dos que estavam mais perto da porta; e tudo parou à escuta. Acima do sussurrar e do soluçar dos pinheirais, do murmúrio da água correndo no rio e do estalar da madeira no lume, ecoou um grito agudo, doloroso, um grito como nunca se ouvira no acampamento. O pinheiral cessou de suspirar, o rio deixou de murmurar, o fogo parou de crepitar. O campo levantou-se como um só homem; houve proposta para se acender um barril de pólvora, mas, tendo em vista a situação da mãe, prevaleceu melhor conselho: o de só descarregarem alguns revólveres, em homenagem ao cirurgião ou a outra coisa qualquer.”
Trecho de “A Fortuna do Campo Trovejante”


Os contos que se seguiram a “A Fortuna do Campo Trovejante” – dentre esses contos destaca-se: “Os Exilados de Poker Flat” (“The Outcasts of Poker Flat”, 1869) – aumentaram ainda mais a popularidade de Bret Harte. Com isso, começaram as inevitáveis comparações. Diziam que ele estava distante de Edgar Allan Poe (1809-1849) e até mesmo de Washington Irving (1783-1859). Mas Bret Harte nunca ligou para esses comentários, pois desejava apenas descrever o mundo que o rodeava. E foi o primeiro escritor a colocar no papel toda a brutalidade, as ironias, as superstições e os preconceitos que imperavam no Oeste. E, num de seus contos, “Uma Ingênua do Oeste” (“An Ingenue of the Sierras”), em que os elementos se ligam de forma a proporcionar surpresa atrás de surpresa, ele praticamente parodiou as histórias de Western; e fez isso numa época em que não eram admitidas “brincadeiras” do gênero.

“Quando mr. John Oakhurst, jogador de profissão, pôs o pé na rua principal de Poker Flat, na manhã de 23 de setembro de 1850, pressentiu que, desde a noite anterior, tinha se operado uma mudança na atmosfera moral do povoado. Dois ou três homens que conversavam juntos, gravemente, calaram-se quando ele se aproximou e trocaram olhares significativos. Reinava no ar um silêncio trágico; silêncio que, num acampamento pouco acostumado a influências maléficas, parecia de mau agouro.”
Trecho de “Os Exilados de Poker Flat”


Para a maioria dos críticos, a obra de Bret Harte sofreu, a partir de 1871 (nessa data, o escritor partiu para o Leste, levando no bolso um vantajoso contrato oferecido por uma das mais importantes revistas dos Estados Unidos, a Atlantic Monthly, editada em Boston), uma perda de qualidade – de acordo com esses mesmos críticos, com exceção de alguns poucos contos e poemas, os escritos de Bret Harte começaram a tornar-se repetitivos e, afinal, nada mais que reedições de uma fórmula já gasta.
Para finalizar, resta dizer que Bret Harte foi nomeado, em 1878, para um cargo diplomático na Alemanha. E de 1885 (segundo outras fontes, 1888) até o dia de sua morte, 5 de maio de 1902, viveu na Inglaterra.