Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

TRINTA ANOS DE APOCALYPSE NOW
Aurélio P. Cardoso



“A guerra em si mesma nunca é gloriosa.”
Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos da América, ao receber o Prêmio Nobel da Paz de 2009. Enquanto isso, no Afeganistão e no Iraque...

 

Final de 1979. Estreava em Ribeirão Preto o filme Apocalypse Now (Apocalypse Now, 1979), dirigido por Francis Ford Coppola. Fui vê-lo no Cine Bristol, que, na época, era o melhor cinema da cidade. Tela grande e projeção de excelente qualidade, como um filme dessa grandeza merece ser visto. A distribuidora era a independente Condor Filmes, e Apocalypse Now era um de seus últimos trunfos [poucos anos depois, a Condor seria devorada pela crise cinematográfica dos anos 1980 (crise essa intensificada pela disseminação do videocassete) e desapareceria do mapa].
Apocalypse Now chegava ao Brasil com a consagração da Palma de Ouro ganha no Festival de Cannes, onde foi exibido após ter sido montado às pressas por Coppola e Walter Murch.
A sensação que o filme causou foi fenomenal. A Guerra do Vietnã (1961-1975) era um assunto tabu e veneno de bilheteria, apesar do sucesso de O Franco-Atirador (The Deer Hunter, 1978) – vista hoje, a fita de Michael Cimino mais parece um espetáculo rasteiro e um pretenso novelão fascistóide –, que ganhou cinco Oscar [filme, direção, ator coadjuvante (Christopher Walken), montagem (Peter Zinner) e som (Richard Portman, William McCaughey, Aaron Rochin e Darin Knight)].
Coppola veio com toda a força em Apocalypse Now, depois dos bem-sucedidos O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972) e O Poderoso Chefão 2 (The Godfather 2, 1974), e detonou a insana participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. O roteiro foi escrito por John Milius, a partir de um livro de Joseph Conrad, O Coração das Trevas (Heart of Darkness), ambientado no Congo Belga.
As filmagens, realizadas em sua maioria nas Filipinas, tinham sido uma epopéia; e, durante cerca de três anos, a equipe sofreu na selva, como se fosse um exército em combate.
Por diversas vezes, Coppola parou as filmagens e quase desistiu do projeto. Com o apoio do montador Walter Murch, conseguiu levar o filme, com a versão reduzida para 153 minutos, semipronto para Cannes; e, aí, a História lhe fez justiça.
O sucesso em Cannes criou a expectativa para seu lançamento mundial, ocorrido em agosto de 1979. E a fita causou polêmica em todos os lugares onde foi exibida. Também não era para menos: mais de duas horas e meia de filme, com segmentos estanques e cenas formidáveis (as seqüências antológicas de Apocalypse Now são várias: a da leitura do dossiê sobre o Coronel Kurtz; a do ataque de helicópteros, ao som de “A Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner; a do Coronel Kilgore dizendo “adoro o cheiro de napalm pela manhã”...); e um elenco simplesmente exemplar. Suas primeiras imagens já dão uma idéia do que virá, com napalm explodindo, helicópteros voando, o personagem de Martin Sheen balbuciando “Ainda estou em Saigon...” e o som do The Doors, na voz do falecido Jim Morrison. Talvez o começo de filme mais cortante da História do Cinema.
Apocalypse Now causou tanta celeuma na época que não ganhou o Oscar de Melhor Filme, perdendo para o choroso Kramer vs. Kramer (Kramer vs. Kramer, 1979). Ganhou apenas os prêmios de Fotografia (Vittorio Storaro) e som (Walter Murch, Mark Berger, Richard Beggs e Nat Boxer). Os americanos queriam esquecer a Guerra do Vietnã, cuja barbárie Coppola conseguiu desmascarar de maneira extraordinária em seu filme.
Como sempre acontece com os grandes clássicos do Cinema que estão à frente de seu tempo, os anos tornaram Apocalypse Now cada vez mais imprescindível e arrebatador. Tanto que, em 2001, Coppola o relançou nos cinemas e em DVD numa versão mais completa, chamada de Apocalypse Now Redux, com 197 minutos (44 minutos a mais do que o original). Entretanto, o diretor tem outra carta na manga: uma versão de 289 minutos, que ainda quer lançar. Os fãs do Cinema como expressão de arte aguardam ansiosos essa versão.
Deve ser destacado que o cinema norte-americano nunca mais conseguiu ter tamanha ousadia, após Apocalypse Now, cedendo à pressão da era Reagan nos anos 1980, que deu origem a Rambo – Programado para Matar (First Blood, 1982) e seus “filhotes”. Depois, a partir da década de 1990, com a ditadura dos efeitos especiais, a infantilização das produções tornou tudo mais plástico e comercial possível. Talvez as únicas exceções sejam os filmes de Quentin Tarantino.
Hoje, os filmes são analisados pela dimensão de seu orçamento e por sua bilheteria. Mas será que, daqui a uns trinta anos, alguém se lembrará dos mastodônticos e barulhentos Transformers, 2012 e Avatar? Como diria o Coronel Kurtz (interpretado por Marlon Brando), é “o horror... o horror...”

 

Apocalypse Now (Apocalypse Now, 1979)
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: John Milius & Francis Ford Coppola, com a colaboração de Michael Herr, baseando-se em livro de Joseph Conrad
Fotografia: Vittorio Storaro
Elenco: Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen, Frederic Forrest, Albert Hall, Sam Bottoms, Larry Fishburne, Dennis Hopper, G. D. Spradlin, Harrison Ford, Scott Glenn, Tom Mason, Cynthia Wood, Colleen Camp, Linda Carpenter, Christian Marquand, Aurore Clément
Disponível no Brasil em DVD (versão Redux, de 2001, com 197')
Distribuidora: Buena Vista
Observação: O filme se chamou, originalmente, em nossos cinemas Apocalypse, às vezes grafado com i, às vezes grafado com y.

 

Aurélio P. Cardoso é pesquisador, historiador, crítico e ativista da área de Cinema e membro fundador do Cineclube Cauim