Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

O TERCEIRO TIRO
Sérgio Augusto



O Terceiro Tiro é uma homenagem a Josef von Sternberg até nos mínimos detalhes, e qualquer tentativa de análise sobre essa lúdica ronda de implausibilidades e farsantes burgueses requer uma constante investida no universo sternbergiano. Em O Terceiro Tiro, o diretor Curtis Harrington (crítico especializado na obra de Sternberg, ele colabora nas revistas Film Culture, Film Quaterly e Cahiers du Cinèma. Seu primeiro longa-metragem, The Night Tide, não foi exibido nos cinemas brasileiros) usa a fórmula do suspense e da farsa. Em princípio, não para competir com Hitchcock ou com o William Castle de Plano para Matar (Let’s Kill Uncle, 1966); mas para exercitar conscientemente suas lições sternbergianas. Claro que o exercício resta incompleto e deficiente. A exemplo de seu mestre – que não gostava de ver o sol e preferia trancar-se nos estúdios “para melhor controlar a luz e a textura” de seus filmes –, Harrington não abandona a sua mansão de surpresas barrocas e horrores, salvo para mostrar a entrada e a saída de Lisa (Simone Signoret). Ilusão e desilusão, homens enganados por mulheres, homens e mulheres enganados por aparências – eis a essência da arte de Sternberg que Harrington dilui num pesadelo de sustos hitchcockianos e conseqüências clouzotianas (a presença de Simone Signoret, uma das atrizes de As Diabólicas/Les Diaboliques é uma coincidência?). Ele homenageia Alain Resnais (na festa, um grupo de convidados joga palitinhos como os personagens de O Ano Passado em Marienbad/L’Année Dernière a Marienbad) e faz uma crítica sutil e irônica ao vanguardismo blasé de Andy Warhol, ao prazer da inversão de papéis no jogo e no sexo (a mulher tira o bigode postiço do homem e coloca-o sobre seus lábios), à cultura camp representada pela pop art e suas máquinas de feira de amostra, que excitam a disputa, o blefe e profeciam a morte. Tudo isso é muito curioso, senão extravagante, para passar em branco.

 

O Terceiro Tiro (Games, 1967, 100')
Direção: Curtis Harrington
Roteiro: Gene Kearney, a partir de um argumento de Curtis Harrington e George Edwards
Elenco: Simone Signoret (Lisa), James Caan (Paul), Katharine Ross (Jennifer), Don Stroud (Norman), Estelle Winwood (srta. Beattie), Marjorie Bennett (Nora), Ian Wolfe (dr. Edwards), Kent Smith, George Furth
Sinopse: A misteriosa Lisa, que é uma vendedora, chega à casa de Jennifer Montgomery, uma jovem milionária. Faz amizade com a moça e instala-se na casa. A partir de então, começa a animar os jogos perigosos que Jennifer e seu marido, Paul, fazem para se divertir. Certo dia, Lisa e Jennifer pregam uma peça em Paul, falando de um hipotético adultério da mulher com Norman, um entregador de armazém. Posteriormente, em um novo jogo, Paul mata acidentalmente o pseudo-amante, cujo fantasma começa a assombrar Jennifer. Esta, desesperada, atira no fantasma e mata realmente Norman. Paul denuncia o crime e, quando se prepara para partir com Lisa, já de posse da fortuna da esposa, acontece uma reviravolta.

 

Esta crítica foi transcrita do número 13 da revista Guia de Filmes (Rio de Janeiro, INC, janeiro/fevereiro de 1968, p. 9)