Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

MINHAS RECORDAÇÕES DO PRÍNCIPE VALENTE - PARTE 2
Marco Aurélio Lucchetti



“Seguir as aventuras do Príncipe Valente é participar de uma lenta epopéia, que desenvolve suntuosamente os seus meandros. Seu autor, Hal Foster, gosta de se atrasar no caminho; mais descritivo do que ativo, ele compõe minuciosamente as cenas que contemplamos como quadros.”
Jacques Marny


“(...) foi em 1974 que o leitor brasileiro pôde realmente abrir a boca para dizer que tinha uma edição caprichada das aventuras do Príncipe Valente. Nesse ano, a EBAL (...) se lançou na nobre missão de publicar, na íntegra, todo o trabalho de Foster com sua criação máxima.”
Heitor Pitombo


Na manhã de 19 de setembro de 1974, fui, junto com minha mãe, Teresa, até a Editora Brasil-América (EBAL), localizada na Rua General Almério de Moura, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, para comprar um exemplar do álbum Príncipe Valente nos Tempos do Rei Arthur, que fora lançado em agosto daquele ano.
Cem cruzeiros foi o que paguei por esse exemplar (ele é o número 1.101 de uma tiragem limitada de três mil exemplares) – sei disso porque guardo até hoje a nota fiscal, na qual, ao invés de escrever “Marco Aurélio Lucchetti”, a funcionária que nos atendeu, Marlene A. Ferreira, escreveu “Marcos Aurelio Lucceti”. Na época, cem cruzeiros era um valor alto para uma publicação de histórias em quadrinhos (um gibi comum, publicado pela mesma EBAL, custava, então, dois cruzeiros). Entretanto, o exemplar vale cada centavo desses cem cruzeiros. Pois, como tudo o que o fundador e diretor presidente da EBAL, o saudoso sr. Adolfo Aizen (1907-1991)...
Ao citar o nome Adolfo Aizen, não posso deixar de dizer algumas palavras a respeito daquele senhor calvo, de óculos e ar afável que encantou milhões de crianças, jovens e adultos por meio do Suplemento Juvenil e um sem-número de revistas de quadrinhos que lançou ao longo de seus quase sessenta anos como editor.
Adolfo Aizen foi muito mais que um editor. Foi alguém que nos deixava magnetizados por sua simpatia e por sua condição de homem poderoso – um homem que, além de lançar entre nós Flash Gordon, Jim das Selvas, Agente Secreto X-9, Mandrake o Mágico, Príncipe Valente, Tarzan, Dick Tracy, Terry e os Piratas e outros clássicos das histórias em quadrinhos norte-americanas, revelou alguns notáveis desenhistas brasileiros (Alcebíades Monteiro Filho; Antônio Euzébio; Carlos Thiré; Gutemberg Monteiro; Sálvio Corrêa de Lima Negreiros; e, entre outros, Fernando Dias da Silva, discípulo confesso de Alex Raymond e autor de uma obra-prima dos quadrinhos, O Enigma das Pedras Vermelhas, publicada em 1938 no Suplemento Juvenil) tinha de ser muito poderoso – que abandonava sua sala e vinha palestrar conosco (nessas ocasiões, contava fatos de sua vida, revelava parte de seus planos para o futuro e tinha orgulho de mostrar seu fabuloso Museu das Histórias em Quadrinhos, onde havia publicações raríssimas e tudo que ele editara), simples leitores, fazendo-nos sentir importantes e queridos. Como editor de quadrinhos, aqui no Brasil, ninguém lhe fez (e dificilmente fará) sombra. E, com sua morte, ocorrida devido a um infarto agudo do miocárdio, foi-se um pioneiro, um idealista, um lutador (e como ele teve de lutar, principalmente com outro editor, que, em 1939, lhe tirou os personagens de maior sucesso do Suplemento Juvenil), um nome de ouro dos quadrinhos de nosso país.
Mas como eu estava dizendo... Príncipe Valente nos Tempos do Rei Arthur, como tudo que o sr. Adolfo Aizen lançou, é uma publicação que mostra ter sido feita com muito carinho. É uma publicação que revela todo o amor que o sr. Aizen e seus funcionários tinham pelas histórias em quadrinhos (para eles, os quadrinhos não eram uma reles mercadoria). É uma publicação que pode ser comparada com os melhores álbuns de quadrinhos editados no exterior.
É uma publicação que torna evidente porque a História em Quadrinhos é uma arte (ela é considerada a Nona Arte). É uma publicação que evidencia a beleza das histórias em quadrinhos produzidas na década de 1930. É uma publicação que deve figurar na biblioteca de todo aquele que tem bom gosto. É uma publicação que só enaltece o trabalho de Hal Foster.
Assim que minha mãe e eu chegamos à nossa casa na Rua Bariri, em Olaria, onde morávamos desde que nos mudáramos em fevereiro de 1972 para o Rio de Janeiro, pus-me a examinar atentamente Príncipe Valente nos Tempos do Rei Arthur. Durante aquela tarde toda, examinei cada quadrinho de suas oitenta e cinco páginas. Não li o texto, visto que já conhecia a história (ela havia sido publicada nos livros da Editora Paladino). Fiz apenas uma coisa: fiquei admirando os grandiosos desenhos de Hal Foster. E essa era a única coisa lógica a fazer, já que era a primeira vez que via esses desenhos, que apresentam uma quantidade incontável de detalhes, impressos num papel de excelente qualidade e numa publicação em capa dura e em grande formato (27x37 cm).
A Príncipe Valente nos Tempos do Rei Arthur seguiram-se outros quatorze títulos, todos da Coleção Nostalgia e todos com o mesmo excepcional padrão de qualidade:


   

Companheiros de Aventuras (páginas 86 a 181) – lançado em janeiro de 1984;
Aventuras no Mar Interior (páginas182 a 263) – lançado em outubro de1985;
De Volta à Corte do Rei Arthur (páginas 264 a 330) – lançado em agosto de 1986;
Viagem Perigosa (páginas 331 a 407) – lançado em maio de 1987;
A Rainha Cativa (páginas 408 a 481) – lançado em abril de 1988;
Chegada ao Novo Mundo (páginas 482 a 567) – lançado em 1989;
Os Dois Desafios (páginas 568 a 647) – lançado em novembro de 1989;
Perigos em Terra e Mar (páginas 648 a 727) – lançado em junho de 1990;
Proezas no Mar do Norte (páginas 728 a 808) – lançado em abril de 1991;
Traição! (páginas 809 a 889) – lançado em novembro de 1991;
Travessia Arriscada (páginas 890 a 972) – lançado em julho de 1992;
Conspiração na Cornualha (páginas 973 a 1062) – lançado em maio de 1993;
Adeus, Espada Cantante! (páginas 1063 a 1142) – lançado em dezembro de 1993;
Em Busca do Santo Graal (páginas 1143 a 1223) – lançado em maio de 1995.

Hal Foster escreveu e desenhou as histórias do Príncipe Valente durante quase 35 anos.
Ao todo foram 1788 páginas de Príncipe Valente realizadas por Hal Foster e distribuídas aos jornais norte-americanos pela King Features Syndicate. E, em cada uma dessas páginas, há “uma média de oito desenhos. Para ilustradores comuns, não seria um trabalho muito difícil. Para Foster, entretanto, cada quadrinho era um desafio, porque Príncipe Valente é uma história em quadrinhos medieval, representando dias estafantes de pesquisa de vestuário, armas, modo de vida, castelos, regras de conduta e organização da Cavalaria Andante. Além disso, Foster sempre dispensou o balloon, para tornar suas narrativas mais limpas, com cuidados nos cenários, anatomia e, com o passar dos anos, na cronologia quase exata dos personagens. (...) para cada página (...), gastava de 45/50 horas de trabalho semanal” (Goida, Enciclopédia dos Quadrinhos, Porto Alegre, L&PM, primavera de 1990, p. 129).
E a EBAL tencionava publicar todas essas 1788 páginas. Porém, não completou seu intento, uma vez que encerrou suas atividades nos meados da década de 1990.