Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

PRÍNCIPE VALENTE E A HISTÓRIA
Franco de Rosa



Príncipe Valente sempre foi fonte de inspiração para um sem-número de artistas, mesmo que o objetivo principal da obra fosse o de divertir famílias e encantar jovens leitores dos suplementos dominicais coloridos em que suas pranchas surgiam extraordinárias, ocupando toda a dimensão da página, aproximadamente 37x70 cm.
Tal impacto só era admirado assim em séries como Flash Gordon, Terry e os Piratas, Tarzan, Brick Bradford e Mandrake o Mágico. Porém, nenhuma delas manteve-se em alto nível como  Príncipe Valente. A maioria se esvaziou a partir dos meados da década de 1940, após a Segunda Guerra Mundial.
Príncipe Valente se distinguiu das demais séries de sua era ao permitir que seus personagens envelhecessem. Isso não ocorreu em clássicos como Flash Gordon ou O Fantasma, por exemplo. O Príncipe Valente é hoje um cinqüentão. Quando a série foi lançada, ele era um adolescente. Com o tempo, muitos outros personagens foram entrando na série; e os filhos de Valente passaram a ser os protagonistas em muitos momentos.

 

O CRIADOR

Hal Foster, que criou Príncipe Valente em 1936, quando ainda realizava as páginas dominicais de Tarzan, é o único artista dos Quadrinhos que realizou centenas de quadros de total amplitude natural. São verdadeiras pinturas em bico-de-pena, mostrando florestas densas, mares revoltos, colinas distantes, penhascos esplêndidos, castelos engalanados. Ninguém foi tão bucólico e ao mesmo tempo tão dinâmico. Foram válidos os mais de dez anos de estudos de paisagens, quando vivia dependurado em uma árvore ou sentado num rochedo, no leste do Canadá, observando a natureza e realizando esboços. Foster se profissionalizou tardiamente na arte do Desenho, perto dos trinta anos de idade. Antes, fora caçador, guia e guarda florestal em Manitoba e Ontário, no Canadá.

 

A INFIDELIDADE HISTÓRICA

“É verdade que Foster, no início, cometeu crassos erros históricos, tais como dinossauros sobreviventes até os tempos medievais.”
Coulton Waugh

Apesar de parecer que tudo que Hal Foster realizou foi de total autenticidade histórica, os historiadores há muito dizem que não. Foster forjou um período histórico repleto de contradições e situações que maculam a verdade em favor do bom resultado em sua obra. Podemos citar, aqui, a histórica frase do cineasta norte-americano John Ford, no filme O Homem Que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962): “Quando a lenda se torna fato, publica-se a lenda.” Assim, acredite, a Idade Média de Príncipe Valente não é fiel ao período histórico real; é uma ficção idealizada, que, de tão bem-feita e esmeradamente executada, convence e deslumbra.
Muitos dos elementos, trajes, objetos, paisagens, adereços, cenários, embarcações, veículos, indumentárias, armas... são de total cuidado e precisão quanto à sua documentação; porém, de maneira individual. Em Príncipe Valente é comum uma carroça estar ao lado de um cantil de couro, coisas que jamais conviveram juntas no mesmo período histórico. Armaduras do século 12 com adereços do século VI, e vice-versa. Ou cabanas do século V dentro de castelos do século 17.
Também se misturam na obra personagens históricos que existiram, mas pertencentes a períodos separados por oito ou dez séculos. Tal paradoxo temporal, no entanto, não diminui o brilho de Foster e de Príncipe Valente. Ao contrário, instiga, pois assim gera debates e interesse quanto à história verdadeira.

 

A VERDADE

O livro espanhol La Historia en los Comics (1997), de Sergi Vich, apresenta uma série de exemplos das inverdades históricas que ocorrem em Príncipe Valente, no capítulo “Edad Media o Antigüedad Tardia: El Príncipe Valente”, do qual destacamos as seguintes anotações:

“Harold Foster situa o começo das aventuras de seu personagem no início do século V de nossa era, quando acabava a Antiguidade e dava-se o início da Alta Idade Média. Val, o protagonista, é feito cavaleiro no ano 433, como é visto na página dominical de 9 de abril de 1939. E, para dar maior veracidade histórica, traz personagens reais, como o general romano Aécio, o imperador Valentiniano III e o líder huno Átila, junto de personagens fictícios do Ciclo Arthuriano, como Sir Lancelot do Lago, o mago Merlin e a bruxa Morgana (...). Esse é um recurso muito usado nos romances e nos filmes históricos e, em todo caso, perdoável dentro de uma obra de ficção (...).”

A crítica do estudioso Vich torna-se mais compreensível nos parágrafos seguintes, quando ele informa que o Príncipe Valente e os demais cavaleiros que participam da série são apresentados de forma absolutamente inverossímil, em relação ao período histórico real do século V. São mostrados de forma luxuosa, à maneira da mais fina nobreza da Alta Idade Média; e, da mesma forma como outros cavaleiros medievais foram descritos por trovadores e poetas, são apresentados como homens que, para encantar as damas, renunciam ao mundo material e carnal, defendem os humildes e a Cruz dos cristãos e enfrentam os infiéis, os bárbaros e os sarracenos. Tudo de acordo com o estilo dos romances de cavalaria, escritos em versos. Vich aponta como o máximo do paradoxo o fato do Papa Urbano II programar a Primeira Cruzada no ano 1095 (*), isto é, 600 anos depois da saga do Príncipe Valente.
E Vich prossegue, informando que os guerreiros da série são equipados para combate com armamentos militares e indumentárias dos séculos 14 e 15, lembrando que no século V os guerreiros não usavam aquelas grandes lanças de torneio nem cotas de malha. E tampouco seus cavalos usavam proteção nas cabeças. Além disso, quando os cavaleiros estão na tranqüilidade do castelo, como civis, eles se portam como burgueses renascentistas, com roupas de seda supercoloridas.

 

ENTRETENIMENTO DE LUXO

“(...) nos anos 1960 os europeus elegiam os clássicos quadrinhos americanos feitos para jornais nas décadas de 1930 e 1940 como as ‘obras de arte a serem descobertas e estudadas’. Obras que tinham deixado de ser produzidas com todo o seu esplendor e brilho, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, todas menos Príncipe Valente, que era um clássico vivo e assim permaneceu durante toda a década dos Beatles e Rolling Stones, da minissaia, da Guerra do Vietnã e das guerrilhas na América Latina.”
Anônimo


O estilo hollywoodiano de Hal Foster incomoda ainda mais os europeus quando aparecem cidadãos egípcios em trajes dos tempos dos faraós, moças gregas em trajes típicos, assim como romanos dentro de togas, orientais com turbantes “qualquer coisa” e vikings com capacetes típicos das óperas wagnerianas – são personagens e trajes com a disparidade de três mil anos de diferença. No entanto, Sergi Vich faz questão de frisar que, apesar de todo o anacronismo e incongruência existentes em Príncipe Valente, a obra resplandece em brilho devido à beleza e opulência de seus desenhos.
Para nós, Príncipe Valente é uma dádiva. Não temos, no Brasil, a tradição da assiduidade, como ocorre na Europa, de obras em quadrinhos de respeito, como Les Compagnons du Crépuscule, do ex-vitralista François Bourgeon, que se passa durante a Guerra dos Cem Anos. Ou Les Tours de Bois-Maury, de Hermann, que valoriza o período do romantismo gótico, nem mesmo a absolutamente excepcional obra documental que é Les Aventures d’Alix, de Jacques Martin, que transcorre no Mediterrâneo no auge do Império Romano. E, se compararmos Príncipe Valente com todas as outras séries de aventuras históricas, incluindo aquelas que têm desenhos lindos, melhores até que o destas três citadas, teremos a certeza de que, para a obra-prima de Hal Foster, não encontramos paralelos. Basta passear com os olhos por uma de suas páginas para se perder em um detalhe hipnótico; basta ler uma seqüência de poucos quadros para ser transportado para um mundo puro e inquieto; basta virar uma página para viver uma emoção que nunca mais será esquecida.

 

NOTA:

(*) Em 1095, o Papa Urbano II criou a Primeira Cruzada (1096-1099), chamada de Cruzada dos Nobres, dos Cavaleiros ou dos Barões, porque nenhum rei dela participou. O Papa prometia a salvação a todos os que morressem em combate contra os muçulmanos. A Cruzada foi provocada pela ascensão dos turcos ao poder, o que interferiu na tradicional peregrinação a Jerusalém. O apelo foi feito a todos sem distinção, ricos ou pobres. Os exércitos da nobreza e o povo procedente da França, do sul da Itália e das regiões de Lorena, Borgonha e Flandres participaram dessa empreitada; mas ricos e pobres rapidamente formaram Cruzadas separadas.

 

Franco de Rosa é jornalista, editor e pesquisador de Quadrinhos