Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

O VAMPIRO
Jan Neruda
tradução: T. G. Novais
ilustração: Nico Rosso



O vapor de excursões trouxe-nos de Constantinopla às praias de Prinkipo, onde desembarcamos. O número de passageiros não era grande. Havia uma família polonesa – o pai, a mãe, a filha, o namorado desta – e nós dois, meu amigo e eu. Ah, sim, não posso deixar de mencionar que em Constantinopla, na ponte de madeira que atravessa o Chifre de Ouro, um grego, ainda jovem, juntara-se a nós. A julgar pela pasta que carregava sob o braço, era um artista. Longos cabelos escuros flutuavam-lhe sobre os ombros. Seu rosto era pálido; e os olhos, cravados no fundo das órbitas. Num primeiro momento, interessou-me, sobretudo por sua cortesia e seu conhecimento acerca dos lugares pelos quais passávamos. Mas falava demais; e, então, separei-me dele.
Muito mais agradável era a família polonesa. Os pais, gente simples e boa, possuíam um temperamento alegre; o namorado era um rapaz elegante, de maneiras polidas e francas. Vieram a Prinkipo passar os meses de verão, por causa da filha, que estava meio adoentada. A bela moça, muito pálida, estava em convalescença de grave enfermidade... ou então uma doença grave começava a dominá-la. Quando andava, apoiava-se no namorado; sentava-se com freqüência; e, a todo momento, uma ligeira tosse seca interrompia seus cochichos com o rapaz. Sempre que ela tossia, seu companheiro parava gentilmente de falar e dirigia-lhe um olhar de compreensiva piedade. Ela retribuía-lhe o olhar, como se quisesse dizer: “Isto não é nada. Sinto-me bem!” Eles acreditavam na vida e na felicidade.
Por recomendação do grego, que se separaria de nós logo no cais, a família reservou quartos no hotelzinho no alto da colina. O hoteleiro era francês, e todo o edifício estava artisticamente arranjado à moda francesa.
Almoçamos juntos e, quando o calor do meio-dia diminuiu um pouco, subimos ao cume, até o bosque de pinheiros, onde poderíamos admirar a vista. Mal encontramos lugar conveniente para descanso, o grego apareceu de novo. Cumprimentou-nos ligeiramente, olhou à sua volta e sentou-se a alguns passos de nós. Abriu a pasta e pôs-se a desenhar.
– Creio que foi de propósito que se sentou dessa forma, com as costas voltadas para as rochas. Não quer que vejamos o que desenha – observei.
– Nem precisamos – disse o jovem polonês. – Temos muitas coisas à nossa frente para olhar.
Depois de um instante, acrescentou:
– Parece que nos está incluindo no desenho. Bem... não tem importância!
Tínhamos, de fato, muito que olhar. Não há no mundo inteiro lugar mais belo e mais feliz que Prinkipo! Irene, a mártir política na época de Carlos Magno, viveu ali algum tempo no exílio. Se eu pudesse passar alguns meses de minha vida em Prinkipo, essa recordação me faria feliz para o resto de meus dias. Esse único dia que ali passei já me é inesquecível.
A atmosfera – clara como um brilhante – era tão suave, tão deliciosa, que a alma inteira se deixava embalar por ela. À direita, do outro lado do mar, erguiam-se as escuras montanhas da Ásia; à esquerda, ao longe, divisava-se a escarpada costa azul da Europa. Bem perto, erguia-se Chalki, uma das nove ilhas do Arquipélago do Príncipe, com seus bosques de ciprestes nos pacíficos montes, coroada por uma grande construção, um asilo para aqueles cujos espíritos estão enfermos.
A água do Mar de Mármara achava-se apenas ligeiramente encrespada e refletia todas as cores, como uma opala fulgurante, À distância, a água era branca como o leite; depois, rósea; entre duas ilhas, alaranjada; e, abaixo de nós, de um verde maravilhosamente azulado, como uma safira transparente. Resplandecia como a sua própria beleza. Em parte alguma havia grandes navios – apenas dois pequenos barcos de bandeira inglesa deslizavam junto à costa. Um deles era um vapor tão grande quanto uma guarita; o outro tinha cerca de doze remadores. Dir-se-ia gotejar prata líquida dos remos, cada vez que os homens os erguiam simultaneamente. Golfinhos, bem pouco ariscos, brincavam entre os barcos, saltando livremente em semicírculos acima da água. Através do céu azul, vez por outra, enormes águias sacudiam as asas, num vôo calmo entre os dois continentes.
Toda a encosta abaixo de nós estava coberta de rosas desabrochadas, cujo perfume enchia o ar. Abafada pela distância, chegava até nós a música do café próximo ao mar.
O efeito era encantador. Estávamos todos sentados em silêncio e deixávamos que nossas almas se impregnassem completamente da paisagem paradisíaca. A jovem polonesa estava deitada na relva, com a cabeça pousada no peito do namorado. Seu rosto – oval, pálido e delicado – tinha adquirido uma cor suave; e, de repente, os olhos azuis encheram-se de lágrimas. Compreensivo, o namorado curvou-se e beijou lágrima por lágrima. A mãe também se pôs a chorar. E eu... até mesmo eu... Senti uma estranha opressão.
– O espírito e o corpo devem sentir-se bem aqui – murmurou a jovem. – Que lugar maravilhoso!
– Deus sabe que não tenho inimigos; mas, se os tivesse, aqui eu os perdoaria – disse o pai com voz trêmula.
E de novo ficamos em silêncio. Estávamos todos num estado de espírito tão maravilhoso... Cada um sentia em si um mundo de felicidade, e cada um teria partilhado sua felicidade com o mundo inteiro. Todos sentiam a mesma coisa; e, por isso, nenhum perturbava o outro. Quase nem reparamos que, cerca de uma hora depois, o grego levantou-se, fechou a pasta e, com um leve aceno, partiu. Nós ficamos.
Finalmente, após muitas horas, quando ao longe tudo já começava a adquirir esse tom violeta escuro que só vê nas regiões meridionais, a mãe lembrou que era hora de irmos. Levantamo-nos e começamos a caminhar em direção ao hotel, com passos leves e flexíveis, como crianças contentes.
Sentamo-nos na elegante varanda do hotel. Mal havíamos sentado, ouvimos uma discussão. Era nosso grego a brigar com o hoteleiro, o que nos fez rir.
Mas o divertimento não durou muito.
– Se eu não tivesse outros hóspedes... – resmungou o dono do hotel, subindo os degraus da varanda.
– Diga-me, por favor, quem é esse senhor? – Perguntou o jovem polonês, quando o hoteleiro já estava próximo de nossa mesa. – Como se chama?
– Oh! Só Deus sabe o nome desse sujeito – respondeu o dono do hotel, olhando para baixo com rancor. – Nós apenas o chamamos de Vampiro.
– É pintor, não?
– Bela arte a dele: só desenha cadáveres. Assim que morre alguém em Constantinopla ou aqui nos arredores, no mesmo dia ele tem pronto um retrato do morto. Esse camarada desenha-os com antecedência. E nunca se engana! Exatamente como um abutre!
A senhora polonesa estremeceu horrorizada. Em seus braços jazia a filha, desmaiada e branca como a cal.
De um salto, o namorado atingiu a escada e desceu rapidamente os degraus. Agarrou com uma mão o grego e com a outra apanhou a pasta.
Corremos atrás dele. Os dois homens estavam rolando para a areia. O conteúdo da pasta espalhara-se pelo chão. Numa das folhas, desenhada a lápis, aparecia a cabeça da jovem polonesa – os olhos fechados, e uma coroa de mirto ornando-lhe a fronte.