Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

DE OLHOS BEM FECHADOS
Marta Chagas




Já no título parece encontrar-se a proposta do último filme de Stanley Kubrick: devemos estar com os olhos bem fechados para podermos percorrer os caminhos sinuosos de nossas fantasias, de nossa imaginação, de nossos sonhos.
O clima do filme é bastante onírico: há vários acontecimentos, várias situações, envolvimentos; mas sem uma “finalização ou resolução, sempre como se estivéssemos acordando antes do término deles. Não há plena realização de desejos! Eles são enunciados; porém, nunca são apaziguados...
O filme, que é baseado no romance Breve Romance de Sonho (Traumnovelle, 1926), do escritor austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931), começa com o casal William (ele é médico) e Alice Harford (cabe notar a escolha de Kubrick para interpretá-los: Tom Cruise e Nicole Kidman, que, na época em que o filme foi realizado, eram casados na vida real) se preparando para ir a uma festa: a mulher tira os óculos, o marido reclama do atraso, há a combinação do horário com a babá da filha...
Na festa, o casal não conhece praticamente nenhum dos presentes, fora o anfitrião, o milionário Victor Ziegler, um cliente do dr. William; no entanto, isso não tem muita importância (afinal de contas, é uma festa, um acontecimento social). A partir daí, começa a alteração do estado de consciência e já começam a se delinear fantasias: em determinado momento, por estar sem o marido, Alice dança com um homem sedutor; e William, por encontrar-se também desacompanhado, é convidado por duas mulheres a ir para um lugar mais interessante...
Entretanto, essas “traições” não chegam a se concretizar: surgem outros “chamados” da realidade – William é chamado para ver uma mulher com problema de overdose, e Alice opta por não aceitar o convite do homem sedutor para conhecer determinada coleção de Ziegler –, o que acaba obstruindo a realização dessas fantasias.
No retorno ao lar, o casal, já despido das roupas da festa, pode então satisfazer seu impulso sexual: no reflexo de um espelho aparecem os dois abraçados, sendo que o marido fecha bem os olhos, enquanto a esposa olha com atenção para a imagem refletida. Assim começa o filme, que tem quase três horas de duração!
Na noie do dia seguinte, continuando no mesmo clima de alteração do estado de consciência, Alice acende um baseado e fuma-o com William. Os dois conversam sobre a festa. Comentam a respeito das pessoas que chegaram perto de cada um (o homem com quem Alice dançou e as duas mulheres que conversaram com William). A conversa tem um tom malicioso, como se ambos esperassem por “confissões” das “traições”; mas, ao mesmo tempo, tem o sentido de confirmar que nada havia se passado concretamente. Alice pergunta, então, o que ele havia feito durante todo o tempo que tinha sumido. William conta que tinha ido atender a uma mulher que estava com Victor Ziegler, em um banheiro. Alice quer saber mais. Como que surpreso pela dúvida que a esposa parece ter quanto à sua fidelidade, William fala que a viu dançando com um estranho e que não ficou enciumado. Indignada com essas palavras, Alice comenta que ele deve ter muita confiança em si mesmo. Ele replica que, na verdade, tem confiança nela.
A partir desse instante, o clima muda; e Alice tem uma crise de risos, até quase perder o fôlego. A princípio, William ri também; depois, entretanto, começa a ficar chateado com as insinuações que a mulher começa a fazer sobre a confiança depositada nela. Ele diz que tal ataque de riso pode ser devido à maconha, explicando assim a alteração de consciência de sua esposa, como que justificando aquela situação embaraçosa. Mas Alice explica: certa vez, quando viajaram, ela viu um homem no hotel em que estavam hospedados e ficou totalmente perturbada com sua presença. Revela ainda que teria largado tudo, o casamento, a filha, sua vida confortável... para ficar com aquele homem, caso ele a quisesse. E isso só não aconteceu porque o homem foi embora no dia em que ela resolvera se aproximar dele. A seguir, Alice dá ao marido as indicações de quem era o homem; e, então, William se lembra dele.
Após essa “confissão”, tudo parece ter se modificado: a fantasia de William sobre seu casamento feliz, sobre ter confiança em sua mulher parece ter se rompido. Nesse momento, instala-se a dúvida: ele teria, até então, estado sonhando, de olhos bem fechados, para não ter visto (ou por não ter podido ver) as coisas ao seu redor? Ou teria, agora, fechado os olhos e entrado num verdadeiro pesadelo, dando-se conta de sua cegueira, de sua total inconsciência até então?
Um chamado telefônico interrompe essa situação. É a filha de um dos clientes de William, informando que o pai dela tinha acabado de morrer em casa e pedindo que ele vá para lá. William sai, para atender ao chamado; no trajeto. dentro de um táxi, começa a fantasiar a relação sexual de sua esposa com aquele outro homem.
Ao chegar à casa de seu cliente, William recebe uma inesperada declaração de amor da filha do mesmo, pois, ainda que estando para se casar em breve, a moça não consegue mais calar o profundo sentimento que nutre pelo médico.
Novamente, os dois temas se repetem: sedução e traição... William, mais uma vez, não teria enxergado e reconhecido o desejo de uma mulher. Entretanto, alega para a filha do cliente que isso só está acontecendo por ela estar profundamente abalada pela morte do pai, daí não estar agindo com lucidez. A mulher retruca; porém, a situação tem de ser modificada, de novo, com a chegada do noivo à casa. William vai embora, então, ainda confuso (ele está confuso com os desejos de Alice e com os dessa outra mulher).
Andando a pé, William continua fantasiando a “transa” de Alice com o outro homem. De repente, surge uma prostituta e convida-o para ir a seu apartamento, ali perto. William a segue e parece querer conversar com ela. Quando está prestes a acontecer uma “transa” entre William e a prostituta, o telefone celular dele toca. É Alice, querendo saber a que horas ele irá voltar e avisando-o de que já vai dormir. Mais uma vez, nada se concretiza; e William sai do apartamento da prostituta. Ele anda sem rumo pela noite, acompanhado por suas fantasias cada vez mais voluptuosas. Por acaso, entra num bar onde um antigo amigo de faculdade, que havia largado a Medicina para se dedicar à Música, está tocando piano. Tal amigo, Nick Nightingale, William havia reencontrado na festa de Victor Ziegler. Logo depois, Nick termina sua apresentação e vai se sentar à mesa de William. Então, conta sobre uma festa muito importante, na qual é pago para tocar piano, só que de olhos vendados. Informa que, pelo pouco que percebeu, a festa é uma fantástica orgia sexual.
William fica muito excitado com o que acaba de ouvir e quer, de todo jeito, ir a esse lugar. No entanto, a festa é à fantasia e estritamente fechada. Há, inclusive, uma senha para entrar. William descobre a senha (“Fidélio”) e resolve arriscar tudo para ir a tal lugar. E, apesar de ser muito tarde – aí o filme joga com a dilatação do tempo concreto (talvez tudo seja um efeito do baseado), pois muito foi vivido intensamente e falta ainda bastante tempo para a noite acabar –, William consegue uma fantasia (máscara e capa) e vai à festa, que acontece numa mansão.
Num clima de mistério e expectativa, William assiste a uma cena interessantíssima: numa sala enorme, ao som de mantras, um grupo de mulheres mascaradas (elas formam um grande círculo) tira suas capas, ficando apenas de sapatos, calcinhas e máscaras. Em seguida, as mulheres “escolhem” homens que estão na sala. Para deleite e medo de William, ele é um dos escolhidos. O médico acompanha a mulher que o escolheu, passando por salas onde orgias estão acontecendo (essa cena foi muito chocante para alguns norte-americanos; porém, não mostra, em nenhum momento, sexo explícito). A seguir, a mulher pede-lhe que vá embora enquanto pode, pois todos sabem que ele é um “penetra” e isso não é tolerado. Mas William não vai embora e termina sendo desmascarado na frente do líder da festa. Então, é alertado para não comentar com ninguém o que viu ali. Do contrário, estará colocando em risco sua vida.
Muito assustado, William volta para casa, onde encontra Alice e sua filha dormindo tranqüilamente. O alívio que sente parece indicar que tudo havia sido apenas um enorme pesadelo. Nesse instante, William vê Alice rindo (ela ri, enquanto dorme) e resolve acordá-la, a fim de saber a razão do riso. Assim que desperta, Alice conta que estava sonhando e que, no sonho, estava nua e “transava” com o tal homem que tanto a impressionara. Conta também que a “transa” acontecia à vista de William e com o propósito de magoá-lo.
William não revela a Alice o que havia acontecido com ele naquela noite. E, no dia seguinte, tentando convencer-se de que tudo não havia passado de um sonho, procura – agora sob a luz do sol – explicações sobre o que teria realmente acontecido. Vai até a mansão; mas não obtém nenhuma informação, apenas recebe um bilhete ameaçador (o bilhete fala claramente que sua vida corre perigo, caso continue a procurar por respostas). A seguir, no hotel em que seu amigo estava hospedado, fica sabendo que ele voltou para casa, em outro estado. Depois, por meio de uma notícia de jornal, William toma conhecimento de que uma mulher foi encontrada morta por overdose. Essa mulher é a mesma que o “salvou” na noite anterior – mais uma vez parece que tudo não passa de um sonho, em que todos sabem o que está acontecendo, menos o sonhador, totalmente inconsciente e despreparado para as situações que acontecem. Então, William é chamado à casa de Victor Ziegler. Ao chegar lá, o próprio Victor informa-o de que, na noite anterior, também estava na tal festa. Mas Victor não responde a nenhuma pergunta de William com relação aos demais participantes da festa e diz que a morte da mulher e o sumiço do pianista foram apenas “coincidências” e que não tinham relevância alguma. Por fim, fala que a festa devia ser esquecida, pois havia gente muito poderosa envolvida, gente que poderia colocar em risco a carreira de William.
À noite, William avisa a Alice de que vai sair. E, antes de sair de casa, ele a vê ajudando a filha a fazer os deveres da escola. Nessa cena, Alice está de óculos e parece a perfeita mãe e esposa.
Na rua, William liga para a filha do paciente que havia morrido. Quem atende ao telefone é o noivo. William desliga e vai até o apartamento da prostituta que conheceu na noite anterior. Quando chega ao apartamento, é recebido por uma amiga da prostituta. Então, William toma conhecimento, por intermédio dessa mulher, de que a prostituta descobriu que estava com AIDS e foi embora. William fica assustado e, ao mesmo tempo, aliviado, já que não se envolveu sexualmente com a prostituta.
Sem ter mais a possibilidade de trair concretamente Alice e, portanto, sem ter mais nada para fazer na rua, William volta para casa. Assim que entra em seu quarto, encontra Alice dormindo e a máscara que usou na festa ao lado dela... Essa imagem é muito forte para ele, que, chorando, acorda a mulher e conta a ela tudo o que aconteceu na noite anterior.
No dia seguinte, o casal e a filha vão a uma loja de brinquedos. Alice está chocada com a confissão feita pelo marido. Por sua vez, William está arrasado, uma vez que havia “estremecido” a segurança de seu casamento, que poderia até ser desfeito. Mas o clima natalino e a compra de brinquedos para a filha não permitem que uma decisão tão importante como essa seja tomada. A sugestão é continuarem casados. William se justifica, dizendo que tudo não passou de um sonho que não teve importância alguma. Contrariamente, Alice afirma que os sonhos são muito importantes e significativos. Porém, como que tentando resolver de forma concreta os desejos enunciados por eles, propõe que “transem” realmente. E, assim, termina o filme.

“—Que vamos fazer?
Ela sorriu e, após breve hesitação, respondeu:
– Agradecer ao destino, penso eu, por termos escapado incólumes de todas as aventuras... as reais e as sonhadas.
– Tem certeza de que é o que você quer também?
– Estou tão certa quanto suspeito que a realidade de uma noite ou mesmo de toda uma vida não significa sua verdade mais íntima.
– Nem sonho algum – suspirou ele baixinho – é totalmente sonho.”
Breve Romance de Sonho (Traumnovelle, tradução de Sérgio Tellaroli, São Paulo, Folha de S. Paulo, 2003, pp. 94-95), de Arthur Schnitzler


Numa primeira instância, poderíamos pensar que, devido à maneira como termina, De Olhos Bem Fechados deseja passar uma mensagem moralista com relação à instituição do casamento, ou seja, que este deve ser mantido ainda que não dê conta de satisfazer todos os sonhos individuais, sendo que os mesmos devem ser censurados para não abalar a estabilidade da relação. No entanto, acredito que o filme revela o contrário: ele ressalta a importância do sonhar, a importância daquilo que desconhecemos em nós, nossas fantasias, nossas máscaras. Censuráveis seriam as tentativas confusas da consciência em colocar ordem e dar explicações para aquilo que ela própria desconhece, tentando controlar as situações, mas sempre de forma equivocada, sempre se perdendo nos caminhos que ela acredita conhecer.
Todas as situações do filme parecem acontecer em estados alterados de consciência. Inclusive o final, cuja resolução parece coincidir com o modelo exemplar de família, mas que também poderia ser um outro “sonho”: o de tranqüilidade e estabilidade. Talvez fosse a grande “viagem” de normalidade do casal: a fantasia de poderem viver aquele momento único em que as coisas parecem voltar a se encaixar, parecem entrar nos eixos novamente, mas agora de forma alterada – nunca como uma recuperação exata do passado –, trazendo um apagamento da história vivida, como se eles tivessem tendo um outro momento de encontro, estando outra vez entregues ao destino, outra vez sonhando (talvez novamente partilhando de um mesmo sonho), de olhos bem fechados...

 

Marta Chagas é psicóloga clínica

 

NOTA (escrita por Marco Aurélio Lucchetti):

Há uns dois anos encontrei este artigo na internet. Em janeiro deste ano, mandei um e-mail para a autora, perguntando se poderia publicá-lo no Jornal do Cinema. Infelizmente, não obtive nenhuma resposta. Em setembro passado, enviei novo e-mail, que ficou igualmente sem resposta. Assim, estou publicando-o sem a devida autorização da autora, pois ele completa o que disse o prof. Lúcio Agra em seu artigo, publicado também neste número do Jornal do Cinema.