Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

DE OLHOS BEM FECHADOS
Lúcio Agra



“E eu era feliz; quanto mais chafurdava na obscenidade e na infâmia, mais a minha imaginação ardia em luxúria.”
Marquês de Sade


De Olhos Bem Fechados reavivou em mim uma lembrança que talvez tenha sido a que mais ficou de uma disciplina que cursei no Mestrado de Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Nessa disciplina, o prof. Arthur Nestrovsky apresentou o trecho inicial de uma certa “Sonata para Piano” (de Beethoven), no qual uma nota se repetia até a exaustão. A despeito de minha crassa ignorância musical, não pude deixar de associar essa passagem àquela que, na trilha de De Olhos Bem Fechados, um piano marca os momentos de maior tensão do filme.
Neste que o acaso decidiu ser o réquiem cinematográfico de Stanley Kubrick (1928-1999), a função da nota solitária é bem outra, no entanto. Está longe da magnitude de Beethoven, embora seja de outra ordem de ousadia. Parece destinada a criar um estado de exasperação no público. Não consigo imaginar outro cineasta que tenha feito isso com tanta personalidade como Kubrick, o que faz com que saibamos de cara se tratar do dedo de um gigante. Talvez isso seja um lugar-comum: ele fazia filmes que usavam a música com rara estratégia dramática. E De Olhos Bem Fechados começa otimamente nesse sentido, trazendo de volta a Valsa, gênero musical que causou tanta surpresa ao espectador de 2001, Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968). As surpresas prosseguiram nesse caminho, com Walter Carlos na trilha (com sintetizador) de Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971).
Porém, nada daquela grandiosidade. Essa valsa de agora é sem nobreza, um tanto anacrônica, com um indisfarçável sabor de classe média e, portanto, desde já perfeita para a seqüência que se inicia com Alice (Nicole Kidman) despindo-se “a caráter” para depois ressurgir na prosaica cena doméstica na qual acaba de fazer xixi enquanto seu marido, Bill (Tom Cruise), procura a carteira. Estamos diante de Mr. e Mrs. América: ele, um médico de clientela chique; ela, meio desempregada, meio ensaiando para “locomotiva” da sociedade. Os dois vão a uma festa de Natal em que não conhecem ninguém. Não é para menos: são convidados de um dos clientes bilionários de Bill, Victor Ziegler (interpretado por Sydney Pollack); e ninguém recusa uma boca rica dessas, sobretudo um casal emergente, bem-sucedido, morador de Central Park West, em Nova York. Ciosos da clientela do cabeça do casal (Bill, é claro), garantem o leitinho e os sucrilhos da filhinha, que escreve cartas ao Papai Noel. E, como reza o ditado: nos Estados Unidos assunto tabu é sexo, não dinheiro (na Europa é o contrário). O personagem vivido por Pollack organiza sua tradicional festa natalina, convidando os tradicionais amigos de Wall Street, empresários, políticos, militares etc.; dá seu tradicional espetáculo de cafonice e sua tradicional trepada no banheiro com mais uma modelo viciada em drogas. É claro que a modelo toma algo além da conta; e quem a socorre é o velho Bill, que está ali para isso, ou seja, resolver os problemas do chefão, quando necessário. E só. Mas acontece que o tabu vira totem, depois de algumas doses (afinal, como é que Alice agüentaria aquela chatice sem tomar alguma coisa?). E aí começa: um finório húngaro arrasta Alice para dançar e tenta uma escapadela até a coleção particular de esculturas do anfitrião. E Bill só não é arrastado também por uma dupla de garotas porque é chamado às pressas para socorrer a tal modelo que tomou uma overdose.
No dia seguinte, esses inocentes flertes viram assunto de um bate-papo casual, enquanto o casal feliz (afinal, nem ela e nem ele “pularam a cerca”) fuma um baseado antes de dormir. Mas – oh! – a droga da classe média abre os corações; e Alice declara que quase esteve para trocar o estafermo do Bill por um oficial da Marinha (ou da Aeronáutica? Bem, pouco importa). Decididamente, Bill não tem muita classe, já que, sentindo-se corno, sai à caça de “vingança”, com a mente povoada por imagens em preto-e-branco de sua esposa dando para o marinheiro.
Quem está a imaginar que ironizo o filme... engana-se: o monólogo de Alice faz a cabeça de qualquer audiência, tanto quanto o de Molly Bloom no romance Ulisses (Ulysses, 1922), de James Joyce (1882-1941). Faz a cabeça até mesmo da classe média média de qualquer cinema de shopping center (assisti ao filme num cinema de shopping), pois é tão bem concatenado, sentindo-se, como eu disse antes, o dedo do gigante.
Vai começar o terror. Vai começar a luta de um tolo contra as forças – suaves, sutis, cruéis ao extremo – do Mal. As mesmas forças que programaram o computador Hal para matar toda a tripulação da nave espacial (2001, Uma Odisséia no Espaço), que capturaram o rapaz e o reeducaram (Laranja Mecânica), que compuseram a aristocracia fantasma e sanguinária do hotel (O Iluminado/The Shining, 1980).
Tudo é óbvio em De Olhos Bem Fechados, menos o fato de que – e por isso o filme é genial – se deve ler “entre” os diálogos. As pausas milimetricamente estudadas, os big closes dos personagens (é como se a câmara quisesse invadir seus cérebros de minhoca), tudo, enfim, é uma orquestração de efeitos, a fim de que estejamos sobrevoando a ação “à flor da pele”.
Levado pela curiosidade infantil de saber como a alta burguesia se diverte, Bill imagina que, comprando uma fantasia numa lojinha do Village, não será notado numa festa de zilionários, orgia barra-pesada (não pela orgia em si, mas pelo clima de maçonaria kitsch, pastiche de ritual satânico, no qual os convivas posam de Marquês de Sade de cacaracá, embuçados em ridículas máscaras do carnaval veneziano). Quando, de tanto “dar bandeira”, Bill é descoberto e levado à presença do Mestre, um ridículo Cardeal Richelieu, que faz o que quer com a vida das putas contratadas para a festinha, não lhe ocorre ter a coragem de lançar-se sobre o homem e arrancar-lhe a máscara, mesmo sob o risco de levar um tiro. Não. Ele prefere aceitar a ordem do Mestre daquela grotesca missa negra que se desenrola sob o som de seu amigo, um pianista de botequim. Ele sabe que a moça que se oferece em seu lugar, em sacrifício, irá morrer para preservar aquela iniqüidade toda.
Tirei a epígrafe deste texto do capítulo XV do livro Antes do Dilúvio: Um Retrato de Berlim nos Anos 20 (Rio de Janeiro, Record, 1997) de Otto Friedrich. O capítulo se chama “Não Posso me Controlar” e se refere ao crime no período que aborda, tomando para título um trecho da fala do personagem principal do filme M, O Vampiro de Dusseldorf (M, 1931), de Fritz Lang (1890-1976). Também nesse capítulo Friedrich menciona rapidamente Arthur Schnitzler (1862-1931), autor de Traumnovelle (Sonhonovela, numa tradução literal), que, como sabemos, é a base do filme de Kubrick. Não li o livro (escrito em 1926), que foi publicado no Brasil com o título de Breve Romance de Sonho; mas o crítico Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em seu excelente A Literatura Alemã (Nova Alexandria, 1994), refere-se ao austríaco Schnitzler à página 197, dizendo ter sido ele médico [como Alfred Döblin (1878-1957), autor de Berlin Alexanderplatz e provavelmente um escritor superior], ligado ao Simbolismo, narrador da atmosfera decadente da aristocracia austro-húngara, interessado na psicologia da sexualidade.

“Estava decidido a, tão logo quanto possível e assumindo todos os riscos, esclarecer por completo aquela aventura. Sua existência, assim lhe parecia, não tinha mais o menor sentido, se (...) não conseguisse reencontrar a incompreensível mulher que, naquele mesmo instante, estava pagando o preço por sua salvação. Que preço? Não era difícil adivinhar. Mas que motivo tinha ela para sacrificar-se por ele? Sacrificar-se? Significaria, para ela, afinal, aquilo que naquele momento suportava, um sacrifício? Se tomava parte numa reunião daquele gênero – e decerto não o fazia hoje pela primeira vez, pois mostrava conhecer bem as regras –, que importância podia ter para ela submeter-se à vontade de um daqueles cavalheiros ou de todos? Ora, era possível que fosse outra coisa que não uma prostituta? Podiam aquelas mulheres ser outra coisa? Eram prostitutas, sem dúvida. Mesmo que cada uma delas tivesse também uma outra vida, uma vida burguesa, por assim dizer, paralelamente àquela, que nada mais era do que uma vida de prostituta.”
Breve Romance de Sonho (tradução de Sérgio Tellaroli, São Paulo, Folha de S. Paulo, 2003, pp. 54-55), de Arthur Schnitzler


Percebe-se no filme de Kubrick a compaixão para com as prostitutas pobres e o asco para com os ricaços que compram e vendem seres humanos. Bill, novo-rico tedioso, arranca, com a maior naturaliodade, notas de cem dólares da carteira (a mesma que procura na cena doméstica, no início do filme). Na verdade, ele não passa de um médico pé-de-chinelo, que resolve os problemas do chefão mas é incapaz de evitar a morte de pessoas (mortes essas que ocorrem por sua causa) e que paga, sem chiar, 150 dólares para a prostituta com quem não transou (os dois não transaram porque ele recebeu um telefonema da esposa).
Para ser sincero, Bill não serve à profissão, mas àqueles que mandam (ele nada mais é do que um capacho). Não entende a lógica dos que estão acima dele, mas sabe de cor as fórmulas verbais para lidar com eles. “Eles” são o que Otto Friedrich, em outro contexto, assim qualifica: “Os criminosos governariam, e os inocentes seriam punidos” (Um Retrato de Berlim nos Anos 20, p. 343). Friedrich se refere (fala de 1931) à ascensão dos nazistas. Será que, diante do filme de Kubrick, não podemos trocar os verbos da frase para o Presente do Indicativo? Quando Bill, depois de ver no necrotério, a modelo que morreu por sua causa, é chamado à casa do chefão, lá fica sabendo que – claro! – o chefão também estava na orgia. Em uma sala de jogos enorme, diante de uma mesa de bilhar (sinuca?) cujo pano verde dá lugar a um vermelho-claro de sangue, Bill é massacrado. Como eles o descobriram? A resposta é simples: um pé-de-chinelo que chega de táxi, atrasado, esquece a nota da loja de fantasias no sobretudo, fala a senha correta para entrar e acredita que há outra para ir embora (hilário!), comporta-se como um verdadeiro imbecil...
Bill, o perfeito palerma, no fim das contas, morrendo de medo da esposa, não consegue resistir e, esquecendo-se de que quase foi corno, conta a Alice tudo o que aconteceu. Ela, bem mais viva que ele (grande Kubrick, no trato com as personagens femininas) acaba, no final do filme, dizendo o que realmente seria possível dizer. Em uma loja de brinquedos, comprando o papai-noel da filhinha, como toda classe média consumidora, Alice faz a conta. “Vão-se os anéis, ficam os dedos.” Ela diz para o marido, alto e bom som, qual é sua função: “Fuck.” É como se Kubrick dissesse isso a todos nós que assistimos diariamente ao espetáculo degradante do escrotismo social.
O filme não podia ser menos exasperante. Ele tem a medida certa, magnífico na precisão. Sem dar um tiro, sem uma gota de sangue, Kubrick fez um dos mais violentos protestos contra a lama existente nesta nossa época. E o que é melhor: sendo, até o fim, o exímio cineasta que sempre foi. Tenho certeza de que Schnitzler, meio esquecido por todos como notou Carpeaux, agradeceria penhoradamente.

 

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999, 158')
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Frederic Raphael & Stanley Kubrick, baseando-se em romance de Arthur Schnitzler
Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sydney Pollack, Marie Richardson, Todd Field, Lisa Leone, Thomas Gibson, Vinessa Shaw, Rade Sherbedgia, Leelee Sobieski, Alan Cumming, Fay Masterson
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Warner

 

Lúcio Agra é professor universitário