Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

NOSFERATU
UMA SINFONIA DE HORROR

(uma adaptação para teatro do romance Drácula, de Bram Stoker)
Marco Aurélio Lucchetti



PRÓLOGO

Surge homem elegantemente vestido. Ele faz um cumprimento, com o corpo, antes de começar a falar.
HOMEM (em tom monocórdio): Boa-noite. Sejam bem-vindos. Meu nome é Abraham Van Helsing. Sou médico e doutor em Filosofia. Durante muitos anos, busquei as causas da peste que assolou, em 1897, a cidade de Whitby, na costa leste da Inglaterra. E achei a sua origem e o seu clímax nas figuras inocentes de Jonathan Harker e sua jovem esposa, Mina...



CENA 1 – QUARTO DO CASAL HARKER

São as primeiras horas da manhã.
Jonathan Harker e sua esposa, Mina (os dois são jovens, têm aproximadamente 25 anos de idade), conversam. Ela está sentada numa banqueta, de frente a uma penteadeira de vidro oval, e segura uma escova de cabelo. Ele está de pé, de costas para a mulher, terminando de ajeitar a roupa.

MINA (passando a escova pelos cabelos): Querido, uma mulher não pode esconder nada de seu marido, não é?
JONATHAN (virando-se para ela): Como?
MINA (colocando a escova em cima da penteadeira): Acha que uma mulher tem de contar tudo para o marido? Acha que ela não pode esconder nada dele?
JONATHAN (aproximando-se da banqueta): Não entendo por que pergunta isso, Mina...
MINA (virando-se na banqueta): Nem eu mesma sei, Jonathan. Penso que é insegurança de recém-casada. Ou talvez...
JONATHAN: Ou talvez o quê?
MINA: Eu não queria lhe contar, mas julgo ser o dever de uma esposa não esconder nada do marido. Nem mesmo seus temores...
JONATHAN: De que tem medo? E que é que você não queria me contar, Mina?
MINA: Temo por sua vida. Temo por nossa segurança...
JONATHAN (sorrindo): Ora, Mina...
MINA (virando o rosto para o lado): Tive um pesadelo...
JONATHAN (ampliando o sorriso): Ah, é isso!
MINA: Por favor, não ria!
JONATHAN (deixando de sorrir): Eu...
MINA (levantando-se): Você deve me achar uma boba...
JONATHAN: Eu nunca pensaria uma coisa dessas, minha querida.
MINA: Em meu sonho, você morria e aconteciam coisas terríveis em nossa cidade. Milhares de ratos...
JONATHAN (voltando a sorrir): Foi apenas um sonho ruim, Mina. Nada de mal acontecerá a nós.
MINA (aproximando-se de Jonathan): Você tem mesmo de fazer essa viagem?
JONATHAN (abraçando Mina): Tenho.
MINA: Como é mesmo o nome do local para onde você vai?
JONATHAN (alisando os cabelos de Mina): Transilvânia.
MINA (encarando Jonathan): Dizem que é um lugar estranho, um lugar de muitas lendas... e fantasmas.
JONATHAN (quase dando uma gargalhada): Você acredita em fantasmas, Mina?
MINA (desgrudando-se de Jonathan): Às vezes me sinto uma ignorante.
JONATHAN (alisando a roupa): Não diga isso. Você ficou sugestionada com o pesadelo que teve.
MINA (em tom muito grave): Mas tudo me pareceu muito real.
JONATHAN: É normal estar preocupada, Mina. Estamos casados há pouco tempo, e tenho de fazer essa viagem a um local longínquo. Vamos ficar várias semanas sem nos ver...
MINA (sentando na banqueta): Você me ama, Jonathan?
JONATHAN : Que pergunta mais sem sentido. Você sabe que a amo, Mina!
MINA: Então, não faça essa viagem! Não vá!
JONATHAN: Agora, você está sendo uma boba...
MINA: Não vá, eu lhe peço.
JONATHAN: E por que eu não iria? Só por que você teve um pesadelo?
MINA: Escute o que vou lhe dizer, Jonathan. Mesmo que ache uma tolice. Pressinto o mal. Sinto uma estranha força obscura... E tudo tem relação com sua viagem...
JONATHAN: Tente acalmar-se, querida...
MINA: Que você sabe a respeito desse conde...?
JONATHAN: Ora, não muito... Sei que pertence a uma família muito antiga. E está interessado em comprar algumas propriedades aqui na Inglaterra.
MINA (dando um passo em direção a Jonathan): Propriedades muito antigas e repletas de fantasmas.
JONATHAN (assumindo um ar grave): Lá vem você novamente com os fantasmas!
MINA: Fantasmas, sim! Falam que a Transilvânia é a terra do loup-garou...
JONATHAN (com ar surpreso): Quê?!
MINA (falando com imposição): Loup-garou... lobisomem! Nunca ouviu falar em lobisomens? São homens que se transformam em lobos.
JONATHAN (com um sorriso): Eu não acredito...
MINA: Lá também é a terra dos mortos-vivos...
JONATHAN: Quanta tolice!
MINA: Não vá!
JONATHAN: Tenho de ir! O sr. Hutter me confiou essa missão.
MINA (com ar apreensivo): Não vê o que aconteceu com o pobre do Renfield?
JONATHAN: Ele perdeu o juízo. E daí?
MINA: Ficou maluco depois que voltou desse lugar maldito. Agora, está internado no hospício!
JONATHAN: Não percebe que essa viagem será boa para nós?
MINA (levantando-se): Boa?! Boa em quê?! Só vai nos separar, e faz apenas um mês que nos casamos...
JONATHAN (balançando negativamente a cabeça): Acho que está com ciúmes, Mina!
MINA: Ciúmes?!
JONATHAN (voltando a sorrir): Asseguro-lhe que não olharei para nenhuma mulher, durante a viagem.
MINA (fazendo um gesto com a mão): Eu não tenho ciúmes de você, Jonathan. Só não quero que fique como o coitado do Renfield!
JONATHAN: Esqueça isso. Esqueça também os fantasmas, lobisomens, mortos-vivos... Lembre-se apenas da boa comissão que irei receber.
MINA: Irá receber uma boa comissão, desde que consiga vender essas propriedades ao conde...
JONATHAN: E venderei, pode apostar! Sou um bom vendedor. O sr. Hutter disse isso. O Conde Orlok ficará com as propriedades!
MINA: Que têm fantasmas!
JONATHAN (começando a perder a paciência): Esqueça os fantasmas! São apenas casas muito antigas, e o Conde Orlok quer justamente casas antigas!
MINA: Esse conde deve ser mais um maluco.
JONATHAN (olhando-se no espelho e ajeitando a roupa): Pelo que o sr. Hutter me disse, ele não é nenhum maluco.
MINA: Mas tem um nome esquisito...
JONATHAN (ainda olhando-se no espelho): Sei lá! Não entendo de nomes estrangeiros.
MINA (pegando a escova e voltando a passá-la nos cabelos): Tudo bem... Já que você tem mesmo de ir...
JONATHAN : Vamos, alegre-se, Mina! Com a comissão que irei receber, poderemos comprar uma casa. Nossa casa! Já pensou, Mina?
MINA (procurando sorrir): Se você está dizendo...
JONATHAN: Quero que me prometa uma coisa...
Mina encara Jonathan.
JONATHAN (segurando o queixo de Mina): Quero que você esqueça o pesadelo que teve. Esqueça também essas histórias de fantasmas, lobisomens e mortos-vivos. Em minha ausência, procure se divertir, ao lado de sua amiga Lucy.
MINA (com ar mais alegre): Eu contei pra você que ela foi pedida em casamento? Aliás, recebeu três pedidos... e num mesmo dia. Um dos pretendentes é um sujeito do Texas. Outro é o dr. John Seward. Você o conhece. Ele é o diretor do hospício onde está internado o Renfield...
JONATHAN: Sim, eu já o vi umas duas vezes. Mas não sei se é o tipo certo para Lucy. Ele me parece muito sério, e Lucy é tão expansiva.
MINA: Tem razão. Eu tenho quase certeza de que ela irá escolher o Arthur.
JONATHAN: Quem?
MINA: Arthur Holmwood. Esse você não conhece. Eu mesma só o vi uma vez, mas logo percebi que é o homem ideal para Lucy. Os dois formam um lindo par.
JONATHAN (caminhando em direção a Mina): Bem, agora, tenho de ir.
MINA: Não vejo a hora de sua volta.
JONATHAN (olhando com ternura para Mina): Prometo que escreverei todas as semanas.
MINA (com ar terno): Ficarei aguardando com ansiedade cada uma de suas cartas.
Os dois se abraçam fortemente e, depois, beijam-se.



CENA 2 – CELA DO HOSPÍCIO

É madrugada.
Renfield é um homem de aproximadamente trinta anos de idade. Com uma expressão alucinada no rosto, ele caminha de um lado para o outro na cela em que está aprisionado. Seus cabelos estão grandes e desalinhados.

RENFIELD (arregalando os olhos): Não quero conversar com ninguém! Ninguém me entende! Todos pensam que sou louco, mas não sou louco!
Pausa.
RENFIELD (fixando um ponto no horizonte, como se estivesse vendo algo que só ele pudesse ver): Sou o único que sabe das coisas! Sou o único que sabe que o Mestre está chegando! Sim, ele está vindo! E, em breve, estará aqui, em busca de sangue novo!
Pausa.
RENFIELD (dando alguns passos para frente): Sangue! Sangue! Sangue é vida! Toda vida é um enigma!
Pausa.
RENFIELD: Antes, eu não estava em meu juízo perfeito. Contentava-me apenas com moscas! Mas que nutriente pode ter uma mosca? Aranhas também são pouco nutritivas! Hoje, alimento-me de ratos!
Pausa.
RENFIELD (abaixando o olhar): O que não falta nesta cela imunda em que me jogaram são ratos! Uns são bem gordinhos...
Pausa.
RENFIELD (elevando, pouco a pouco, o olhar): Já pedi para o dr. Seward alguns gatos. Eles me ajudarão a dar um jeito nesses ratos. Humm... Pensando bem, um gato deve ser melhor alimento que um rato... Tem mais sangue...
Ouve-se o cantar de um galo.



CENA 3 – QUARTO DA HOSPEDARIA

É final de tarde.
Jonathan Harker aproxima-se de uma cômoda, sobre a qual há um livro encadernado e muito antigo. Uma cadeira e uma mala de viagem estão próximas da cômoda.

JONATHAN (pegando o livro): Algum hóspede deve ter esquecido este livro aqui. (ele examina a capa do livro) Que título mais curioso: O Livro dos Vampiros. Vamos ver do que se trata.
Jonathan, segurando o livro, caminha devagar até a cadeira. Ele se senta e começa a ler o livro.
JONATHAN (lendo): A lenda dos vampiros se situa entre os medos mais antigos dos homens, ecoando através dos séculos. O seu nascimento remonta à época em que o homem compreendeu o papel do sangue, ou seja, remonta à época em que o homem percebeu que o sangue é o próprio símbolo da vida. (virando a página) O vampiro é um nosferatu, um ser que não está nem morto, nem vivo; na verdade, vive na MORTE. É um sugador de sangue humano. Alimenta-se do sangue das pessoas, das pessoas vivas. Ele bebe o sangue de suas vítimas e transforma-as em vampiros e vampiresas. (virando a página) Pode-se reconhecer a marca do vampiro pelo vestígio que suas presas deixam na garganta da vítima. (virando a página) Como uma sombra, um vampiro não tem reflexo. Durante a noite, ele atravessa paredes e portas fechadas, transformando-se em fumaça. Como um morcego, voa para dentro dos quartos. Na pele de um lobo negro, caça suas vítimas. Durante o dia, dorme num caixão com terra de cemitérios malditos. (virando muitas páginas) A hóstia consagrada e o crucifixo imobilizam o vampiro. A luz do sol o fere. Mas apenas uma mulher pode destruí-lo e, portanto, livrar o mundo desse flagelo: uma mulher pura de coração. Ela oferecerá seu sangue para o vampiro, que ficará a seu lado, até o galo anunciar o amanhecer. Então, a luz da aurora destruirá o vampiro, reduzindo-o a pó.
Jonathan fecha o livro e faz um ar de mofa.
JONATHAN (levantando-se): Se a Mina ler esse livro...

 

continua no próximo número