Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

NOSFERATU ESTÁ DE VOLTA
Mike Bygrave & Joan Goodman



Werner Herzog faz parte do grupo de diretores alemães favoritos da crítica mundial. Na realidade, ele sempre se interessou por jogados fora, marginais sociais como o conquistador obsessivo de Aguirre, A Cólera dos Deuses (1972) ou o animalesco personagem de O Enigma de Kaspar Hauser (1975). Nesse sentido, Nosferatu, O Vampiro da Noite (Nosferatu, Phantom der Nacht, 1979) é um desenvolvimento lógico – embora extremo – de seu trabalho anterior. Na verdade, é uma refilmagem do primeiro filme sobre Drácula já feito: Nosferatu, dirigido pelo diretor alemão F. W. Murnau, em 1922.
“Sinto-me muito ligado a Murnau”, disse Herzog. “Seu Nosferatu é o mais visionário dos filmes germânicos. Profetizou a ascensão do nazismo, ao mostrar a invasão da Alemanha pelo Conde Orlok e seus ratos disseminadores da peste. O filme de Murnau deu uma legitimidade ao cinema alemão, legitimidade essa que se perdeu na era de Hitler. Além disso, o vampirismo não foi tratado com o devido respeito pelos realizadores durante quase cinqüenta anos. No entanto, é um dos melhores solos em que o Cinema pode possivelmente crescer, pois se relaciona com sonhos e pesadelos, visões e temores.”
Belas palavras, nem sempre refletidas no produto final. Magnificamente fotografado, Nosferatu, O Vampiro da Noite é mais uma série de tableaux e de imagens contundentes do que uma narrativa envolvente. Não há efeitos especiais nem muito sangue. A atmosfera de medo e terror é construída por meio da própria fotografia, freqüentemente paisagens em que o céu e o solo são takes separados, reunidos de uma forma que dá a impressão de que ar e terra correm para encontrar-se. As performances de Klaus Kinski e Isabelle Adjani, como vampiro e vítima, são estranhamente estilizadas. É quase como assistir a um filme silencioso. E, de fato, como os diálogos em Inglês são nebulosos – as versões em Inglês e Alemão foram feitas simultaneamente –, o filme poderia ter sido até melhor sem palavras.
O Drácula de Klaus Kinski é o epítome do sofrimento. Trata-se de um vampiro do qual devemos nos apiedar, apesar de sua aparência grotesca. Seu calvário é atravessar a existência com todas as emoções e anseios do homem comum... sem jamais conseguir satisfazê-los.
(...)
Os roteiros de Murnau e de Herzog seguiram a história de Bram Stoker com razoável fidelidade. Mas Herzog acha que se trata de uma história ruim. Para ele, não passa de uma acumulação, uma mistura de todas as histórias de vampiros que existiam na época.

 

Este texto foi transcrito do artigo “Aqueles Olhos Rubros Estão de Volta” (Revista do Domingo nº 169, Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 15 de julho de 1979, pp. 21-22), de Mike Bygrave & Joan Goodman