Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

NOSFERATU
Matheus Moraes



Nosferatu é uma palavra moderna derivada da palavra em eslavo antigo nosufur-atu, extraída do grego nosophoros, ‘portador de pragas’.”
J. Gordon Melton

 

Quando o escritor irlandês Bram Stoker (1847-1912) escreveu o romance Drácula (1897), no qual criou o horripilante Conde Drácula – ele é um ser maligno que, ao cair as “trevas no céu pesadamente” (como dizia Antero de Quental), se levanta de seu insalubre sepulcro, para alimentar-se de sangue humano; e que, ao ouvir cantar o galo (um indício de que o dia está nascendo), retorna para seu esquife –, talvez não pudesse imaginar o sucesso que seu livro iria adquirir no futuro, principalmente ao ser adaptado para as telas cinematográficas.
Já foram feitos mais de cem filmes com o mais cruel vampiro de que se tem notícia. E, dentre essas fitas, Nosferatu (Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens, 1922) é a melhor delas, destacando-se das demais por suas arrepiantes cenas em preto-e-branco, o que dá à obra um clima de profunda fantasmagoria e pesadelo.
Conde Orlok, o vampiro do filme, surge do meio da escuridão, com um visual bizarro, que lembra uma medonha figura que traz a morte dentro de si. Pestilento e doentio, ele não possui um só fio de cabelo na cabeça e tem unhas pontiagudas e dentes semelhantes aos de um roedor. Usa um casaco preto como um gótico moderno de vida noturna. É alto e magro. Sua figura, enfim, assusta até o mais cético dos mortais.
Mas quem for assistir a Nosferatu na esperança de ver cenas fortes de violência e sangue, tão comuns nas recentes e ridículas fitas norte-americanas de Horror/Terror, certamente irá se decepcionar. Porém, devemos lembrar que Nosferatu é uma obra do Cinema Expressionista Alemão. Assim, o horror é alcançado por meio de uma atmosfera gótica e nevoenta, na qual é o inconsciente que será despertado para uma realidade mais subjetiva que objetiva.
O enredo do filme é simples, inteiramente baseado em Drácula, apenas com algumas modificações de nomes e locais (essas modificações foram necessárias por não terem sido pagos à viúva de Bram Stoker os direitos autorais). E, na pitoresca Alemanha, o diretor F. W. Murnau encontrou todos os ingredientes básicos que evocam o vampirismo: montanhas, bosques sinistros, riachos, pontes, capelas, castelos em ruínas, aldeões supersticiosos, lobos, carruagens... e, é claro, encontrou também Max Schreck, o ator que, de maneira soberba, interpretou o Conde Orlok.
Orlok é o não-morto, o morto-vivo, o nosferatu. Ele penetra na civilização do Homem como uma maldição, vindo de longe, trazido por uma escuna, onde todos os marinheiros (inclusive o capitão) são mortos (o vampiro suga-lhes o sangue e transmite-lhes a peste).
No decorrer da fita, o amor entra em cena; e Orlok é atingido em pleno coração: apaixona-se pela mulher jovem e bela, cujo retrato viu nas mãos do corretor de imóveis que aprisionou em seu castelo. E, na seqüência final, ele deixa-se prender nos braços macios da jovem, desfrutando os “beijos de fogo” da volúpia e do sangue. E o dia está clareando, canta o galo, despontam os primeiros raios de sol... e Nosferatu, embriagado com o doce sabor do sangue daquela que o seduziu e o enfeitiçou, não lembra que tem de voltar para seu sepulcro. Então, no fim, ele é destruído pela luz do sol, convertendo-se num monte de poeira. A Bela destrói a Fera!
Vale a pena ver e rever Nosferatu, para mergulhar em um dos mais medonhos pesadelos criados pelo Cinema.

 

Nosferatu (81')
Direção: F. W. Murnau
Roteiro: Henrik Galeen, baseando-se no romance Drácula, de Bram Stoker
Elenco: Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schröder, Alexander Granach
Sinopse: Hutter, um corretor imobiliário, deixa sua jovem esposa, Ellen, em Bremen, na Alemanha, e viaja aos Cárpatos, para vender uma propriedade ao recluso e estranho Conde Orlok, que é, na realidade, um vampiro. Depois, já de posse do contrato de compra da propriedade, o Conde Orlok parte – num navio – para Bremen, levando seu caixão. E, quando o vampiro chega a essa cidade, chega também a morte.
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Continental

 

Matheus Moraes é ator, cineasta e pesquisador do Cinema Expressionista Alemão