Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

WINSOR McCAY E LITTLE NEMO
Fábio Santoro



“A razão principal de meu sucesso foi meu desejo de desenhar constantemente. Nunca quis ser um artista. Simplesmente, não podia deixar de desenhar. Desenhava por meu próprio prazer. Nunca quis saber se as pessoas gostavam ou não de meus desenhos. Nunca guardei nenhum deles. Desenhava nos muros, nas lousas das escolas, em velhos pedaços de papel, nas paredes dos estábulos. Hoje em dia, continuo tão apaixonado pelo Desenho como quando eu era um menino (e já faz muito tempo que deixei de ser um menino).”
Winsor McCay

 

Mundos fantásticos, com natureza luxuriante, todos os tipos de animais, desde os mamíferos mais evoluídos até os mais estranhos insetos, sem esquecer os bichos mitológicos, do imaginário geral e do inconsciente coletivo. Os mais insólitos personagens, civilizados e selvagens, incluindo deuses, semideuses, gnomos, duendes, anões, gigantes, fadas, entes simbólicos. Palácios, templos e jardins suntuosíssimos, os grandes edifícios Art Nouveau, Fin-du-siécle e de estilo Liberty, da época; monumentalidade arquitetural em todas as formas e sem limitações, antecipando em duas décadas o desenho de produção da clássica fita expressionista de Fritz Lang, Metrópolis (Metropolis, Alemanha, 1926). Cenários das terras, dos mares e do Espaço-Tempo. Objetos inanimados adquirentes de vida e movimento, pessoas que encolhem ou crescem, nas mais inacreditáveis situações. E tudo aquilo que a mais fecunda imaginação e a mais facunda pena podem conceber e desenhar.
Assim Winsor McCay combinou os elementos, da pura, livre e delirante Fantasia, emprestando-lhes os frutos de sua própria dionisíaca e entusiasmada criatividade, para produzir a obra-prima, ou peça-mestra, da História em Quadrinhos da Belle Époque, ou talvez, sem qualquer exaspero, de todos os tempos. Little Nemo in Slumberland: as viagens de um menino ao Reino do Sono e dos Sonhos, abrangente de todos os demais e onde qualquer coisa pode acontecer.
Nasceu W. McCay em 1869 ou, conforme algumas fontes, em 1867 ou mesmo em 1871, na cidade de Spring Lake, do estado norte-americano de Michigan, senão no Canadá, há controvérsias sobre os dados. Desde cedo revelou um incontrastável pendor para o Desenho; garafunhava papéis, madeiras, paredes, tudo que lhe passavam à frente. Declarou mesmo, mais tarde, que sempre sentiu verdadeira compulsão pelo traço, entendida a expressão no seu sentido patológico. Ensinamentos teóricos, conquanto não muito longos, fizeram também parte dessa formação, em que o exercício constante e a notável capacidade de memorização se tornaram as pilastras principais.
Já trabalhando como ilustrador no Enquirer, de Cincinnati City (Ohio), lançou a sua primeira história em quadrinhos em 1903, A Tale of the Jungle Imps by Felix Fiddle, ainda de consistência razoável, ao que parece, e vigorou por dez meses. Mas, muitas outras séries viriam e gradualmente se aprimorou, até a perfeição. Entre estas rotuladas de perfeitas, Poor Jake, para o Evening Telegram, de Nova York, sob o pseudônimo “Silas” (que tomou de um faxineiro) por questões contratuais; correu de 1909 a 1911 e adquiriu larga admiração ao cuidar de temática social. Entretanto, ainda em 1904 e até o final de 1906, desenhou para o New York Herald, Little Sammy Sneeze, as trágicas conseqüências das esternutações de um garoto,

levadas ao exagero máximo, e que chegaram a sair no Brasil, como Os Espirros do Menino Sammy, nas páginas da revista de contos infantis O Gafanhoto (Rio, Livraria Francisco Alves, circa 1910), consoante nos leciona o pesquisador de paleo-quadrinhos Armando Sgarbi. De novo eclipsado por “Silas”, de 1904 a 1911 e por sete meses de 1913, alimentou os Sonhos de um Comilão (título dado no Almanaque do Gibi Nostalgia nº 3, RGE, 1976)/Dream of the Rarebit Fiend, no referido Telegram.
Precursor de Little Nemo, o Comilão mostrava, em estórias de uma página e personagens avulsos, com elaboração em menos riqueza visual, os pesadelos que acometem aqueles que ingerem comidas pesadas antes de dormir, como torta de queijo e, então usual, carne de coelho. Dream of the Rarebit Fiend se verteu para o Cinema em 1906, através de um curta-metragem da Edison Film Company, comandado por Edwin S. Porter (!), o mesmo do lendário O Grande Roubo do Trem (The Great Train Robbery, 1903), primeiro filme de Western e marco inicial da indústria cinematográfica. Em seguida, no Herald, McCay formulou as peripécias de Hungry Henrietta, pouco antes da estréia de Little Nemo, dada, esta, a 15 de outubro de 1905 no mesmo periódico. A partir de 1909, o autor faria, ainda, diversas experiências muito bem sucedidas nos desenhos animados, começando com uma versão curta de Little Nemo, lançada pela Vitagraph em 1911; no ano seguinte, How a Mosquito Operates; em 1914, o célebre Gertie the Trained Dinosaur e por aí afora, longe. Sua carreira se ornamentou também de muitas ilustrações, charges e cartazes publicitários. Pela fertilidade geral e pelo alto gabarito nos reporta, por comparação, à luzidia e opulenta trajetória do brasuca J. Carlos – o patrono sidéreo das histórias em quadrinhos brasileiras e seus incunábulos.
Em Little Nemo as histórias, sempre em pranchas dominicais coloridas, obedeciam a esquema fixo: o pequeno Nemo, de aproximados nove anos de idade – visualmente inspirado no filho Robert McCay, o qual, anos mais tarde se tornaria assistente do pai –, sonhava as mais exóticas aventuras, cercado de pessoas, coisas ou cenários também singulares. Algo de incomum acontecia e, no quadrinho terminal, o menino acordava, às vezes caído do leito ou chamado pelos pais. Tudo se passava em Slumberland, os mágicos domínios do Rei Morpheus, com a sua Princesa. Constantes, acompanhavam Nemo o anão verde Flip, o canibal Impy, o Dr. Pill e, vez ou outra, seus pais e o cãozinho Slivers também lhe coadjuvavam a atividade no dormir.
Os sonhos, em verdade viagens/viagens de Nemo, que extravagava alucinadamente pelos confins do Espaço-Tempo, da Fantasia ou da Mente, vias de regra formaram seqüências, às quais, interligadas, compuseram esta autêntica saga onírica. Somente de meados de 1908 à latitude equivalente de 1909 ocorreu uma certa quebra seqüencial, com páginas mais autônomas entre si, mas não produziu, nem um pouco, a diluição da natureza monolítica desta obra ultrapessoal de McCay, a sua mais respeitada.
Senhor, em plenitude, das tradições acadêmicas do Desenho, Winsor McCay acentuou o fator perspectiva na cenografia, atingindo, inclusive, níveis superiores, como a perspectiva esférica ou curvilínea, muitos anos antes de o Cinema se utilizar das lentes grande angular. O detalhismo da ambientação poucas vezes se viu nas histórias em quadrinhos com tamanha exuberância. Sintetizou quase todas as tendências das Artes Plásticas, o Clássico, o Neoclássico, o Barroco, o Gótico, o Bizantino, o Futurismo, o Expressionismo e outras escolas. Mestre do estilo Art Nouveau, ao mesmo tempo com supedâneo em Bosch e em Brueghel, influenciado pelas pesquisas de Lewis Carroll resultadas em Alice, deu corpo a uma opera surrealista oficiosa, antevendo em muito o Manifesto Surrealista de Guilhaume Apollinaire, expedido na França dos anos 1910, ditador de que a Arte em sua acepção maior provém da aliança do sonho com a vigília, num estado de percepção exacerbada da Realidade.
O supra-realismo patente, que se anuncia até nas mudanças abruptas ou vagarosas de roupas ou cenários, presentes nos sonhos de todos nós, foi efetuado em grau de catarse ou depuração espiritual do autor. Ao expulsar, assim, os seus desejos, temores e angústias no desenrolar de Little Nemo, McCay revelou o nítido retrato de sua personalidade revolteada, nesse trabalho hoje eternizado. Além do mais, nada nos leva a acreditar que conhecia as teorias de seu contemporâneo Sigmund Freud sobre o desvendamento do inconsciente. Por isso, a conclusão, talvez um pouco precipitada, de que, mais por intuição do que por ciência, o pequeno Nemo veio devanear junto aos leitores com tanta categoria. Arte, de fato.
Aproveitamos a deixa para consignar a nossa rejeição cabal ao informe de que Winsor McCay era consumidor de ópio, hábito que lhe inspiraria as viagens de Little Nemo pelos mais mirabolantes lugares, a exemplo do notável contista e poeta Edgar Allan Poe, renomado alcoólatra, opiômano e grande e indiscutível criador literário. Ora, em primeiro lugar, McCay há muito não se acha mais entre nós para se defender da acusação. Em segundo, o só fato de possuir a alma atormentada, como descrevem seus biógrafos, não implica necessariamente em auto-entrega a drogas pesadas. Além disso, eventualmente, não se trataria de mera e isolada experimentação, confundida com contumácia, por observador pouco atento? Por fim, sob a opiomania, teria ele vivido até os 65 anos? O Poe não ultrapassou os quarenta.

 

continua no número 11

 

Fábio Santoro é advogado e pesquisador de Quadrinhos e Cinema