Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

JULIANNE MOORE
UMA ATRIZ INCANSÁVEL E GARANTIA DE INTENSIDADE EM CENA - PARTE 3

João Rodolfo Franzoni



2002 foi o ano que, definitivamente, consagrou Julianne Moore como uma das atrizes mais interessantes em atividade na cinematografia mundial. E isso aconteceu em razão de ela ter atuado com tamanha intensidade e emoção (é aquele tipo de interpretação impossível de se dissipar da mente de qualquer verdadeiro cinéfilo) em dois filmes. Coincidentemente, em ambos os filmes, Julianne Moore interpretou donas-de-casa típicas de subúrbio americano dos anos 1940 e 1950: mulheres educadas, dedicadas à família e respeitadas em seu círculo social.
O primeiro desses filmes a estrear – e que lhe renderia o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza – foi sua segunda colaboração com o diretor Todd Haynes: Longe do Paraíso (Far From Heaven), em que ela descobre a faceta cruel do sonho americano, ao reagir com serenidade diante da descoberta de que o marido (Dennis Quaid) é homossexual e ao aproximar-se de um cortês jardineiro negro (Dennis Haysbert). Magnífica como sempre, Julianne Moore honra essa homenagem ao cinema do cineasta Douglas Sirk (Tudo o Que o Céu Permite/All That Heaven Allows, 1955; Palavras ao Vento/Written on the Wind, 1956) com um arsenal de reações e olhares que traduzem de forma precisa a determinação de um ser humano íntegro ao tentar sustentar um princípio moral, mesmo que isso lhe custe todo tipo de rejeição. Indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel, ela perdeu para Nicole Kidman em As Horas (The Hours), do qual também participou e ofereceu aquela que talvez seja a melhor interpretação de sua carreira.
Adaptado do romance (ganhador do prêmio Pulitzer) de Michael Cunningham e dirigido por Stephen Daldry, As Horas acompanha três mulheres que vivem em épocas distintas e se defrontam com situações similares. Julianne Moore é Laura Brown, mulher casada com um sujeito enfadonho e mãe de uma criança. Ela mora em Los Angeles e está insatisfeita com sua vida. E procura disfarçar sua insatisfação com um semblante sorridente. Testemunhar atrizes com uma capacidade intuitiva para delinear suas personagens é um desses milagres que o Cinema vez ou outra oferece; e a forma dilacerante com que Julianne estampa tanto desespero como atordoamento num rosto de sorriso forjado pelas convenções sociais da época garantiria a ela uma espécie de canonização do ofício. E tal desempenho poderia ter sido reconhecido com o Oscar de Atriz Coadjuvante, ao qual merecidamente foi indicada; mas, numa injustiça constrangedora, optaram por laurear as belas pernas e as “habilidades” para cantar e dançar de Catherine Zeta-Jones no musical Chicago (Chicago, 2002). De qualquer modo, a ausência de uma premiação não diminui a importância de um desempenho tão admirável e que atravessará décadas causando reverência.
Demorou até 2004 para que Julianne Moore retornasse às telas, em filmes pouco recomendáveis. Em Marie & Bruce, adaptado de uma peça de Wallace Shawn (o roteiro da fita foi escrito pelo próprio Shawn e Tom Cairns), sua personagem atravessa uma crise conjugal com o marido (Matthew Broderick). Em Os Esquecidos (The Forgotten), uma imprestável mistura de ficção científica e suspense, sua personagem, uma mulher determinada, é o único atrativo. Já na comédia romântica Leis de Atração (Laws of Attraction), sua parceria com o galante Pierce Brosnan só serviu para expor a canastrice do mesmo, num material nada inspirado. E Totalmente Apaixonados (Trust the Man, 2006) é uma tentativa de discutir relacionamentos modernos em clima de cinema independente; porém, não ofereceu muito espaço para a atriz se destacar.

 

“Não tenho dificuldade em me separar das minhas personagens: aquela história de as levar para casa não tem nada a ver comigo (...).”
Julianne Moore

 

João Rodolfo Franzoni é jornalista