Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

ESTÓRIAS ADULTAS
UMA REVOLUÇÃO NOS QUADRINHOS BRASILEIROS

Marco Aurélio Lucchetti



Entre 1959 e 1973, quando algumas pequenas e médias editoras – Taika (ex-Continental e ex-Outubro), Gráfica e Editora Penteado (GEP), Edrel, Graúna, Jotaesse, Prelúdio, Saber, Edições “O Livreiro”, Indústria Gráfica Bentivegna Editora, Minami-Cunha Editores (M&C), entre outras – de São Paulo publicaram um grande número de gibis produzidos inteiramente em nosso país, os quadrinhos brasileiros tiveram uma de suas melhores e mais prolíficas fases. Então, quadrinhistas nascidos ou radicados no Brasil puderam mostrar todo o seu talento, realizando histórias em quadrinhos dos mais diversos gêneros.
No segundo semestre de 1969, esse período de glória do quadrinho brasileiro passava por uma séria crise: inúmeros títulos tinham sido cancelados e vários desenhistas estavam deixando de fazer histórias em quadrinhos para se dedicarem a atividades mais lucrativas (por exemplo: publicidade e ilustrações de livros didáticos). E foi justamente nessa época que a Editora Edrel, sob a direção de Minami Keizi (diretor editor), Marcílio Valenciano (diretor administrativo) e Jinki Yamamoto (diretor responsável), lançou um gibi que estava muito à frente de seu tempo: Estórias Adultas.

 

ESTÓRIAS ADULTAS, UM GIBI MODERNO

“A História em Quadrinhos nacional não (...) evoluiu muito nestes últimos 25 anos. Os mesmos gibis de outrora saem, talvez até com regressão. Isso porque são os mesmos editores, as mesmas idéias e conceitos, que editam o gibi nacional.
Muitos preferem editar gibis com materiais importados. Em conseqüência disso há a falta de trabalhos para os desenhistas nacionais, desistência de grandes artistas do pincel e muitas outras coisas.
– Não há bons desenhistas nacionais... – diriam alguns.
Bem, leitores, a nossa única prova é esta: o gibi que vocês estão folheando. É produzido inteiramente pelas equipes Edrel. Não é uma prova suficiente?
As nossas revistas são diferentes porque mantemos diversas equipes com exclusividade, isto é, somos uma família unida na concretização de um ideal. O nosso pessoal entende de gibi
(...). E nós estamos trabalhando para que vocês, leitores, tenham sempre as melhores revistas e retomem o otimismo pelo gibi nacional.”

As palavras acima foram extraídas de “Quadrinhos ou Rodinhas?”, o editorial do primeiro número de Estórias Adultas. E elas podem ser complementadas pelo seguinte trecho de “A Hora da Decisão”, o editorial do segundo número da revista:

“Não criticamos ninguém e nem tampouco desprestigiamos aqueles que produzem e editam o gibi nacional. No entanto, as coisas estavam tomando um ritmo crítico e acima de tudo negativo; era preciso tomar uma decisão nua e crua para salvarmos o que é nosso, mesmo que isto viesse magoar ou ironizar alguns editores, que se julgam os pais das histórias em quadrinhos nacionais e que na realidade são os que menos entendem de quadrinização de histórias (...). Ninguém se importava em renovar, oferecendo melhor qualidade aos leitores; pelo contrário, continuavam a fazer aquilo que vinham fazendo (...) dezenas de anos atrás, um emaranhado de revistas fúteis e grotescas, uma concorrendo com a outra sem resultado positivo (...). O gibi nacional atingia o clímax do caos, pois distanciava-se dia a dia dos materiais importados (...). Os leitores já estavam perdendo a confiança nos destinos do nosso gibi nacional, não o prestigiando mais e se desinteressando pelos ditos cujos, tudo isso pela falta de equipe, compreensão mútua entre o produtor e editor. Era então chegada a hora de iniciarmos uma guerra em que o grande beneficiado seria o leitor, porque teria menos revistas e mais qualidade (...).
As revistas da ‘EDREL’ levam o boneco do ‘TUPÃZINHO’, como logotipo em suas capas
(...). Comprando as revistas da ‘EDREL’, você estará não só prestigiando os artistas e editores nacionais, como também estará comprando as melhores revistas do gênero existentes na praça.”

Pelo que está dito nesses dois editoriais, percebe-se que a principal intenção da Edrel, ao lançar Estórias Adultas, era a de editar um gibi totalmente diferente daqueles que estavam sendo publicados na época. E esse objetivo foi, sem dúvida alguma, alcançado, porque:
1 – os primeiros números de Estórias Adultas foram publicados com 132 páginas (até então, a maioria dos gibis com material nacional tinha apenas 36 páginas);
2 – ao contrário dos demais gibis que só publicavam histórias em quadrinhos de um único gênero, Estórias Adultas apresentava histórias em quadrinhos de diversos gêneros;
3 – diferentemente da maioria dos outros gibis, que se destinava às crianças ou aos adolescentes, Estórias Adultas destinava-se a um público adulto, inteligente e sofisticado (seu público alvo era o mesmo que lia a francesa Charlie e a italiana Linus);
4 – fortemente influenciadas pelos quadrinhos japoneses e pelos trabalhos de alguns quadrinhistas estrangeiros de vanguarda (Enric Sió, Esteban Maroto, Guy Peellaert, Jean-Claude Forest, entre outros), as histórias em quadrinhos publicadas em Estórias Adultas têm uma originalidade, uma ousadia e uma modernidade que não existe na maior parte da produção quadrinhística brasileira do mesmo período.
Enfim, Estórias Adultas era um gibi moderno – portanto, não é à toa que teve estampado na capa de diversos de seus números o subtítulo de “gibi moderno”. E era um gibi que dava total liberdade a seus autores.

 

OS AUTORES DE ESTÓRIAS ADULTAS

Os principais roteiristas e desenhistas de Estórias Adultas foram:

FERNANDO IKOMA
Nasceu em Martinópolis, estado de São Paulo, em 22 de janeiro de 1945 e educou-se em Presidente Prudente.
Com quinze anos de idade, fixou-se em Curitiba, no Paraná, onde deu seus primeiros passos na carreira de desenhista.
No final de 1968, começou a fazer histórias em quadrinhos, tornando-se logo um argumentista (de imaginação fértil, sempre procurou temas que fugissem do lugar-comum) e desenhista de grande talento e versatilidade.
Além de Estórias Adultas, colaborou em diversas revistas da Edrel – A Espiã de Vênus, Estórias Avançadas, Fikom, O Paquera, Playcomic, Young Comic, Revista de Terror, Terror Especial, Tip Top, entre outras –, criando os personagens Sibele a Espiã de Vênus, Fikom, Play-Boy, Satã a Alma Penada, O Paquera, Zé Experimentadinha e Maria Esperançosa, protagonistas de inúmeras histórias.
Realizou, ainda para a Edrel, um grande número de histórias em quadrinhos avulsas.
Ilustrador talentoso e dono de um traço bastante original, dedicou-se também à publicidade, tendo sido diretor de arte de várias agências de propaganda.
É o autor de um dos primeiros livros brasileiros a ensinar as técnicas de como fazer quadrinhos: A Técnica Universal das Histórias em Quadrinhos, publicado pela Edrel por volta de 1972.

CLAUDIO SETO (Claudio Alberto Chuji Seto Takeguma)
Nascido em 1944, cresceu vendo a família chorar pelos parentes mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Com isso, soube desde cedo a encarar a vida e a morte com realismo e naturalidade.
Aprendeu a desenhar, vendo os desenhos dos maiores nomes dos quadrinhos japoneses. Porém, após ingressar no mercado profissional, foi sofrendo aos poucos a influência de quadrinhistas ocidentais. Daí, unindo as duas escolas, criou seu próprio estilo, que, como disse Fernando Ikoma em A Técnica Universal das Histórias em Quadrinhos, pode ser chamado de “um estilo MISCIGENADO”.
Para a Edrel, além de colaborar em Estórias Adultas, produziu diversas histórias em quadrinhos, protagonizadas pelos personagens Beto Sonhador, Maria Erótica e Mata-Sete; e realizou algumas fotonovelas.
Na época em que colaborou nas revistas da Edrel, residia na pequena cidade de Guaiçara (SP), onde era vereador, e estudava na Faculdade de Filosofia de Lins.

PAULO I. FUKUE
Da mesma maneira que Fernando Ikoma e Claudio Seto, é descendente de japoneses.
Percebeu que tinha talento para ser desenhista de histórias em quadrinhos mais ou menos em 1960, quando, por acaso, copiou de forma quase idêntica uma cena de um gibi. Então, matriculou-se num curso de desenho por correspondência, a fim de aprimorar o traço.
Em 1962, deixou sua cidade natal, Inúbia Paulista, e rumou para São Paulo, sonhando em tornar-se quadrinhista. Entretanto, foi somente em junho de 1967 que conseguiu realizar esse sonho, criando Tarun, cujas histórias eram publicadas no gibi Magia Verde, da Edrel.
Na mesma época em que realizava as aventuras de Tarun, produziu as histórias de Super Heros, um super-herói criado pelos diretores da Edrel.
Para a Edrel, também desenhou as histórias de outro super-herói: Pabeyma, uma criação do escritor Nelson Ciabattari (Nelson C.) y Cunha.
Tornou-se coordenador geral das revistas da Edrel em 1971. E, ato contínuo, por falta de tempo, deixou de escrever e desenhar histórias em quadrinhos.
Seu irmão, ROBERTO, também se dedicou aos quadrinhos, realizando principalmente histórias humorísticas (ele assinava-as com o pseudônimo de Rof).

LIESENFELD (Marco Araújo Liesenfeld)
Quadinhista de grande talento, realizava histórias em quadrinhos mais artísticas e menos comerciais.
Residia no Rio Grande do Sul e trabalhava em publicidade, na época em que colaborou na revista Estórias Adultas.
Nota-se em seus trabalhos uma forte influência da arte pop.

R. F. LUCCHETTI (Rubens Francisco Lucchetti) & NICO ROSSO
Os dois formaram parceria no ano em que Lucchetti se mudou para São Paulo: 1966.
Criaram as revistas A Cripta (Editora Taika, 1968-1970), O Estranho Mundo de Zé do Caixão (Editora Prelúdio, 1969), Zé do Caixão no Reino do Terror (Editora Prelúdio, 1970), e Fantastykon Panorama do Irreal (Editora Edrel, 1972), que inovaram os quadrinhos brasileiros de Horror/Terror.
Realizaram em 1969 o primeiro graphic novel de que se tem notícia: O Filho de Satã, que foi publicado pela Taika no ano seguinte.
Colaboraram em diversas revistas da Edrel, realizando principalmente histórias em quadinhos de Horror e Suspense.

FABIANO (Fabiano Júlio Dias)
Iniciou sua carreira de quadinhista em 1966, na Minami Keizi Produções.
Seu melhor e mais conhecido trabalho como desenhista de quadrinhos são as histórias de Tupãzinho.
Criou o personagem Fab, protagonista de uma série de histórias em quadrinhos cômicas.
A seu respeito, Fernando Ikoma afirmou, em A Técnica Universal das Histórias em Quadrinhos: “Como desenhista, zela pela limpeza e pelo capricho dos originais, mas não é bom argumentista. Tanto é que geralmente faz as histórias em dupla. Entra com os desenhos enquanto o parceiro entra com as idéias”.
Era diretor de arte da Edrel, quando colaborou em Estórias Adultas.