Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011
 

O CORAÇÃO DAS TREVAS
Roberto Muggiati



O Coração das Trevas (The Heart of Darkness) resultou de uma viagem que Conrad fez ao Congo em 1889. (...) Publicada no Blackwood’s Magazine em 1899, esta novela de umas 120 páginas se tornaria central não só na obra de Conrad, como na literatura do século XX.
(...) E, em 1939, pouco depois de colocar em pânico a América com sua versão radiofônica de A Guerra dos Mundos, Orson Welles chegava a Hollywood com um projeto de O Coração das Trevas debaixo do braço. Não deu certo, infelizmente. Nos anos 60, John Milius escreveu um roteiro “baseado livremente” na novela de Conrad. Mas só em 1975 Francis Ford Coppola resolveu comprar essa briga. E pagou caro: vendeu ou hipotecou tudo o que tinha para investir num filme que, orçado inicialmente em doze milhões, acabou custando trinta milhões de dólares, mais um infarto do ator Martin Sheen e um colapso nervoso do próprio Coppola. A viagem de Marlow rio acima em busca do lendário Kurtz permite, no livro de Conrad, múltiplas leituras: a religiosa, a política, a psicológica etc. Coppola, no seu Apocalypse Now, transplantou a ação do Congo para o Mekong (o poeta T. S. Eliot gostaria do trocadilho), para um Vietnã corroído pela guerra; transformou Marlow no capitão Willard dos serviços especiais, encarregado de encontrar e matar Kurtz; e Kurtz – papel feito sob medida para Marlon Brando brilhar – se torna um misto de louco e líder que reuniu no coração da selva um exército selvagem de desertores e nativos. O clima de Apocalypse Now reflete toda a insânia que gerou a destruição do Sudeste Asiático, com os homens entregues a missões assassinas cujo sentido não conseguiam perceber, mergulhados num pesadelo de álcool e drogas. É mais ou menos essa atmosfera que Conrad evoca em O Coração das Trevas, mostrando homens e fatos nebulosos que espalham dor e morte pelos quatro cantos da Terra. Um tema atual, pois a opressão e a injustiça encontraram novos agentes e assumiram novas formas, algumas até bem mais sutis e disfarçadas do que as do colonialismo. É como se, várias décadas depois da morte de Conrad, seu fantasma vagasse por aí, sussurrando: “O horror! O horror!”

 

Este texto foi transcrito do Prefácio que Roberto Muggiati escreveu para o livro O Coração das Trevas (The Heart of Darkness, São Paulo, Brasiliense, 1984, pp. 8-9), de Joseph Conrad