Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

CAVALGADAS SILENCIOSAS
Divino Rodrigues da Silva



A existência curta mas feliz do gênero de filme popularmente conhecido como Western “B” norte-americano assemelha-se em muito à vida de um ser humano: ele nasceu, sofreu dores crescentes, amadureceu, atingiu picos de inegável sucesso, afundou nas profundezas do fracasso total, caducou e, finalmente, morreu prematuramente, após pouco mais de cinqüenta anos de existência.
O nascimento do gênero ocorreu em 1903, quando a Edison Film Company, de propriedade do inventor Thomas Edison (1847-1931), produziu O Grande Roubo do Trem (The Great Train Robbery).
Rodado nas “terras selvagens” de New Jersey, O Grande Roubo do Trem tem cerca de dez minutos de duração e conta a história de um roubo de trem (no final, repleto de ação, os bandidos são perseguidos pelos agentes da Lei); e seu sucesso originou uma série de imitações (a Edison Film Company chegaria até a realizar uma paródia: The Little Train Robbery).
Em 1908, foi lançado um western baseado numa história de Peter Kyne: Broncho Billy and the Baby, que mostra Gilbert M. Anderson (ele fizera diversos pequenos papéis em O Grande Roubo do Trem) interpretando um bandido “bonzinho” que se sacrifica para salvar uma criança.
Depois de Broncho Billy and the Baby, o nome Broncho (pronuncia-se Bronco) Billy popularizou-se; e Gilbert M. Anderson participou de centenas de outros westerns de um ou dois rolos, sempre interpretando o mesmo personagem, que se tornaria o primeiro herói dos filmes de Faroeste.
O Western teve um grande desenvolvimento no período de 1908 a 1913, quando os cineastas D. W. Griffith e Thomas Harper Ince produziram filmes de um ou dois rolos com algumas atrizes notáveis (Blanche Sweet, Lillian Gish, entre outras) nos principais papéis femininos. Então, fitas com títulos sugestivos como The Last Drop of Water (1911), Custer’s Last Fight (1912), The Goddess of Sagebrush Gulch (1912) e The Battle of Elderbush Gulch (1913) começaram a aparecer em grande quantidade. Eram filmes cheios de ação e, ao mesmo tempo, com momentos de exuberante beleza visual.
Dois homens que dariam enormes contribuições ao Western iniciaram suas carreiras no Cinema mais ou menos na mesma época, em 1914. Seus nomes? William S. Hart e John Ford.
William S. Hart, que possuía um passado de experiência teatral, apareceu inicialmente em fitas de dois rolos; mas em pouco tempo, já adaptado à nova arte, começou a trabalhar em filmes de maior metragem e estrelou alguns clássicos como Serás Minha Escrava (The Aryan, 1916), Terra do Inferno (Hell’s Hinges, 1916), Mãos Poderosas (The Testing Block, 1920), O Homem das Três Palavras (Three Words Brand, 1921) e Beijos Que Matam (Wild Bill Hickok, 1923), contracenando com Bessie Love, Eva Novak e algumas outras das mais bonitas atrizes da época. E seu último filme, O Rei do Deserto (Tumbleweeds, 1925), é, de acordo com o pesquisador e professor norte-americano William K. Everson, “um excelente filme que merece ser classificado, ao lado de The Covered Wagon e The Iron Horse, como um dos melhores westerns já realizados” (A Pictorial History of the Western Film, 3ª edição, Citadel, Secaucus, 1973, p. 43).
Quanto a John Ford, começou no Cinema como ator, dublê e assistente de direção e, em 1917, foi contratado pela Universal para dirigir alguns westerns de dois rolos. Infelizmente, quase todos esses filmes foram destruídos, o que impossibilita que historiadores, pesquisadores e estudiosos de Cinema possam apreciar os primeiros trabalhos de John Ford como diretor.
Abre um parêntese.
Naquele tempo, as companhias cinematográficas não estavam interessadas em preservar seus filmes, que eram feitos com material inflamável. Com isso, muitas fitas foram destruídas – há, inclusive, rumores de que a Universal, enquanto filmava uma espetacular seqüência de incêndio para um longa-metragem, teria usado centenas de negativos raros como combustível, destruindo para sempre muitos de seus clássicos silenciosos.
Fecha o parêntese.
Felizmente, o primeiro western de John Ford, O Último Cartucho (Straight Shooting), feito em 1917 e estrelado por Harry Carey e Hoot Gibson, não foi destruído.
A década de 1920 trouxe muitos novos astros aos filmes de Western. Alguns, como Buck Jones, Ken Maynard, Tim McCoy, Bob Steele e Hoot Gibson continuariam sendo populares durante os anos seguintes, enquanto outros, como Ted Wells, Fred Thomson, Jack Hoxie, Fred Humes e Leo Maloney, se tornariam meros atores de figuração ou cairiam no completo esquecimento.
Porém, de todos os grandes astros que ganharam popularidade nos anos 1920, nenhum superou Tom Mix, o mais popular ator de westerns que já apareceu nas telas de cinema. Ele, que havia começado sua carreira cinematográfica em 1911 (entre 1911 e 1917, fez quase uma centena de curtas-metragens para a Selig), tornou-se um grande astro quando foi trabalhar para a Fox, estrelando, entre outros, os filmes Fama e Fortuna (Fame and Fortune), Sangue de Gaúcho (Western Blood), A Filha da Neve (Ace High), Patrulhando (Treat ’em Rough), Sangue de Fidalgo (Fighting for Gold) e Romance do Sertão (Rough Riding Romance).

 

Divino Rodrigues da Silva é professor de Inglês e editor da revista Matinê