Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

CARMILLA
Joseph Sheridan Le Fanu
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



PREÂMBULO

Foi graças a um saudoso amigo, o Doutor Martin Hesselius, um estudioso do Ocultismo, que chegou às minhas mãos a narrativa que irão ler a seguir.
Anexo ao manuscrito, veio um ensaio no qual o Doutor Hesselius abordava, de modo conciso e objetivo, o vampirismo, que é o tema de Carmilla.
Pensei em publicar esse ensaio neste volume; porém, não mais o encontrei. Temo que, por engano o tenha jogado fora. Se isso realmente aconteceu, ele estará perdido para sempre, já que era um dos muitos textos inéditos do Doutor Hesselius.
Por outro lado, assim que terminei de ler Carmilla, fiquei ansioso em contatar sua autora (só sei seu prenome, Laura). Infelizmente, descobri que ela já havia falecido.
De qualquer forma, a autora pouco ou nada teria a acrescentar a seu relato, escrito, em minha opinião, com particular precisão.



CAPÍTULO UM
O PRIMEIRO SUSTO

Em Styria, no sudeste da Áustria, nós, apesar de não sermos pessoas ricas, habitamos um castelo ou schloss. Tudo porque, nesta parte do mundo, um pequeno rendimento dá para muita coisa. Assim, oitocentas ou novecentas libras por ano são mais que suficientes para se viver bem. E, neste lugar isolado e primitivo, onde tudo é muito barato, não vejo realmente como uma renda maior possa aumentar nosso conforto ou luxo.
Meu pai é inglês; e eu ostento um nome inglês, embora nunca tenha estado na Inglaterra.
Papai esteve a serviço da Áustria; e, ao aposentar-se, comprou, com pouco dinheiro, esta residência feudal e as terras onde ela está situada.
Não pode haver nada mais pitoresco e solitário. Nossa casa se ergue sobre uma pequena elevação, em uma floresta. A estrada, muito velha e estreita, passa na frente da ponte levadiça – jamais, até o dia de hoje, vi essa ponte erguida – e do fosso repleto de percas e onde, por entre nenúfares, nadam muitos cisnes.
Dominando todo esse cenário, está o castelo, com suas numerosas janelas, suas torres e sua capela gótica.
A floresta abre-se numa clareira irregular e muito pitoresca, diante do portão de entrada; e, à direita, uma íngreme ponte gótica prolonga a estrada sobre um riacho que serpenteia através da floresta densa e mergulhada em sombras.
Falei que este é um lugar muito solitário. Vejam se eu não disse a verdade. A floresta, no meio da qual se encontra nosso castelo, estende-se quinze milhas para a direita e doze para a esquerda. A aldeia habitada mais próxima fica a cerca de sete milhas inglesas à esquerda. E o castelo habitado mais próximo é o do General Spielsdorf e está distante quase vinte milhas, à direita.
Eu disse que a “aldeia habitada mais próxima fica a cerca de sete milhas inglesas à esquerda”. E é a mais pura verdade. Mas a apenas três milhas de distância, indo em direção ao castelo do General Spielsdorf, há outra aldeia. Atualmente ela está completamente desabitada e em ruínas. Tem uma pequena e singular igreja, que também está em ruínas – de seu telhado, inclusive, não existe mais o menor vestígio – e abriga o mausoléu da outrora nobre e orgulhosa família Karnstein. Essa família, hoje extinta, habitava o desolado castelo, que, no meio da densa floresta, domina as ruínas silenciosas da aldeia.
A respeito do abandono desse impressionante e melancólico lugar existe uma lenda, que eu lhes contarei mais tarde.
Devo dizer-lhes agora quão reduzido é o número de pessoas que habitam nosso castelo. Não incluo os criados e seus dependentes, que ocupam os edifícios anexos ao castelo. Somos apenas: meu pai, o homem mais bondoso do mundo e que está ficando idoso; e eu, que, no tempo em que aconteceram os fatos que narrarei a seguir, tinha apenas dezenove anos. Desde então, passaram-se oito anos. Minha mãe, uma senhora da Styria, morreu quando eu era bem pequena; porém, tive uma ama de muito bom coração, Madame Perrodon, que tem estado comigo, posso dizer, desde minha infância. Na verdade, nem sei dizer quando vi pela primeira vez seu rosto gordo e agradável. Ela nasceu em Berna, na Suíça; e seus cuidados e sua bondade supriram, em parte, a perda de minha mãe, de quem nem sequer me lembro, já que a perdi muito cedo. Madame Perrodon é a terceira pessoa a ocupar um lugar à nossa mesa de refeições. E, naquela época, havia uma quarta pessoa, Mademoiselle De Lafontaine. Ela era minha preceptora. Falava fluentemente Francês e Alemão.  Madame Perrodon fala Francês e um Inglês estropiado. Meu pai e eu sempre que possível falamos Inglês, em parte para evitar que se torne uma língua morta entre nós e em parte por motivos patrióticos. Como consequência disso, durante as refeições, nossa mesa se transformava numa verdadeira Babel, diante da qual os visitantes costumavam rir. E, por falar em visitantes, havia duas ou três jovens da minha idade que costumavam nos visitar, ficando muito ou pouco tempo; e eu ocasionalmente retribuía essas visitas.
Esse era nosso ambiente social. Entretanto, naturalmente, recebíamos visitas esporádicas de “vizinhos” que moravam a apenas cinco ou seis léguas de distância. Todavia, eu lhes asseguro, minha vida era bem solitária.
Outra coisa que tenho de lhes dizer é que Madame Perrodon e Mademoiselle  De Lafontaine tinham sobre mim aquele grau de controle que pessoas como elas costumam ter sobre garotas um tanto mimadas e cujos pais lhes permitem agir por conta própria em praticamente todas as situações.
Dito tudo isso, acrescento que o primeiro acontecimento em minha vida que produziu uma terrível impressão em meu espírito foi um dos primeiros incidentes de que consigo me lembrar. Algumas pessoas o julgarão demasiado trivial para ser relatado aqui; entretanto, logo verão porque o menciono.
O quarto das crianças, assim chamado embora fosse só pra mim, era um aposento amplo no andar superior do castelo, com um íngreme teto de carvalho. Eu tinha uns seis anos de idade, quando, uma noite, acordei e, de minha cama, olhando em volta, não pude ver a criada de quarto nem minha ama. Compreendi, então, que estava sozinha; mas não fiquei assustada, porque era uma dessas crianças a quem nunca tinham contado histórias de fantasmas, contos de fadas e outras bobagens que nos fazem cobrir a cabeça apavorados sempre que uma porta range de repente ou a chama bruxuleante de uma vela projeta sombras na parede. Fiquei, porém, confusa e ofendida por me sentir abandonada e comecei a choramingar. Então, para minha surpresa, vi, ao lado da cama, o lindo e solene rosto de uma jovem olhando para mim. A moça estava ajoelhada, com as mãos sob a colcha. Olhei para ela com uma espécie de espanto deliciado e parei de choramingar. Ela me acariciou, deitou-se a meu lado e puxou-me para junto de si, sorrindo.
Senti-me imediata e esplendidamente tranquila e voltei a adormecer. Depois, acordei com a sensação de que me espetavam profundamente duas agulhas no peito e comecei a chorar muito alto. A moça recuou, com os olhos fixos em mim, escorregou para o chão e, segundo julguei na ocasião, escondeu-se debaixo da cama.
Pela primeira vez em minha vida, senti-me assustada e gritei com todas as minhas forças. Madame Perrodon e a criada de quarto vieram correndo, ouviram minha história e, fingindo não darem muita importância a ela, tentaram acalmar-me. Entretanto, apesar de ser muito pequena, pude perceber que seus rostos estavam pálidos; e vi-as olhar, com ansiedade, debaixo da cama e abrir os armários. Por fim, a ama murmurou para a criada:
– Passe a mão ao longo dessa depressão na cama. Alguém se deitou realmente aí, o local ainda está quente.
Lembro-me de que a criada de quarto me fez alguns carinhos. Em seguida, as duas mulheres examinaram meu peito, onde eu sentira as agulhas me espetando, e disseram que não havia nenhum sinal visível de que me acontecera tal coisa.
A criada e duas outras serviçais, que eram responsáveis pelo quarto, ficaram de vigília durante o resto da noite; e, daí em diante, todas as noites, até mais ou menos meus quatorze anos de idade, sempre ficava uma criada de vigia, enquanto eu dormia.
Depois disso, fiquei nervosa durante muito tempo. Foi chamado um médico. Ele era pálido e idoso. Tinha o rosto comprido, taciturno e marcado pela varíola. Receitou-me remédios, que, naturalmente, detestei.
Na manhã seguinte à da aparição, eu estava num tal estado de terror que não suportava ficar sozinha nem um só momento.
Recordo-me de que meu pai entrou no quarto, ficou de pé ao lado de minha cama, conversou animadamente comigo, deu-me uma palmada nos ombros, beijou-me e procurou tranquilizar-me, dizendo que tudo não passara de um pesadelo. Porém, isso não me acalmou, pois sabia que a visita daquela estranha jovem não fora um pesadelo.
Fiquei um pouco mais calma, quando a criada de quarto me assegurou ter sido ela que tinha vindo, olhado para mim e se deitado a meu lado na cama. Ela disse também que eu não a reconhecera porque devia estar meio adormecida. Contudo, isso, apesar de confirmado por Madame Perrodon, não me satisfez completamente.
Lembro também que, no decorrer daquele dia, um venerável ancião de capote preto entrou no quarto, acompanhado pela ama e a criada. Conversou um pouco com elas. Depois, pediu-me amavelmente que orasse. Então, juntou minhas mãos, mandando-me repetir: “Senhor, escutai todas as nossas preces, pelo amor de Seu filho, Jesus.” As palavras foram exatamente essas, porque muitas vezes a ama me obrigou a dizê-las em minhas orações.
Lembro-me perfeitamente da expressão doce e pensativa daquele homem de cabelos brancos e capote preto que esteve ali, naquele quarto rústico, elevado e com mobília muito antiga e uma janela por onde entrava uma luz tênue. De repente, o bom velho e as duas mulheres se ajoelharam e começaram a orar em voz alta.
Esqueci toda a minha vida anterior a esse acontecimento. Mas as cenas que acabo de descrever estão bem vivas em minha memória, como quadros fantasmagóricos no meio da escuridão.

 

continua no próximo número