Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

AVATAR, O BANG-BANG QUE MAIS FATUROU NA HISTÓRIA DO CINEMA
Luiz Paulo Tupynambá



James Cameron, o atual Rei Midas do Cinema, afirma que esperou quatorze anos para realizar o “townbuster” Avatar. Com o faturamento que o filme conseguiu, chamá-lo de “blockbuster” (arrasa-quarteirão) seria desconsiderar o impacto que causou e negar que a aposta de Cameron atingiu em cheio o objetivo básico da indústria cinematográfica: dinheiro. Melhor mesmo classificá-lo como “townbuster” (arrasa-cidade). Em tempo: não considero o filme uma “bomba”; penso que sua realização foi muito interessante, principalmente pelo desenvolvimento da técnica utilizada, 3-D (Terceira Dimensão), que está virando febre entre os cineastas e estúdios de Hollywood. Avatar faturou mais de 2,5 bilhões de dólares até março de 2010 (o filme, cuja estréia mundial ocorreu em 10 de dezembro de 2009, em Londres, foi lançado nos cinemas dos Estados Unidos em 18 de dezembro de 2009), difundiu de vez as salas de exibição em 3-D e tornou Cameron um dos homens mais ricos da indústria. E ainda faltam as vendas em DVD e Blu-ray.
Mas vamos falar do filme. Para começar, o significado do nome: Avatar. Na mitologia e na religião hindus, avatares são encarnações de deuses, que “descem” à Terra e ocupam um corpo material. O nome vem do Sânscrito avantãra, que significa descida. Hoje em dia, o termo avatar é muito usado em sites de relacionamento na internet, quando o internauta assume um “corpo” virtual, que ele considera mais bonito e interessante que o seu verdadeiro ou para integrar-se a alguma “tribo” da web. Uma outra referência para o conceito de avatar vem de uma tese que procura vencer as barreiras biológicas e físicas para as viagens espaciais de longa distância – como é sabido, o corpo humano tem suas limitações para viajar em altíssimas velocidades (por exemplo, a aceleração súbita poderia esmagar o corpo do astronauta de encontro à poltrona da espaçonave) ou para enfrentar condições inóspitas nos planetas e luas a serem explorados (em todos os sentidos), o que poderia ser impossível de ser resolvido com o uso de simples trajes espaciais.
O filme de Cameron mostra justamente como o avatar espacial iria funcionar: uma conexão mental de um ser humano, que comanda à distância um novo corpo, artificialmente fabricado e totalmente adaptado ao ambiente de uma lua ou planeta (no caso, Pandora, a lua-floresta do filme).
Nota-se que há uma boa conexão entre o conceito desenvolvido no filme e a antiga crença hindu: os “deuses” humanos descem do céu e encarnam em corpos semelhantes aos nativos Na’vi. Meticuloso, Cameron criou até uma língua e cultura próprias para os Na’vi. Os humanos, como “deuses” que se consideram, tentam impor aos Na’vi os valores éticos e morais que trazem consigo e, é claro, procuram explorar de modo predatório o recurso mineral mais valioso de Pandora, o unobtanium, capaz de anular a gravidade. Aí, estabelece-se o conflito entre os humanos e os Na’vi, contrapondo suas culturas e suas visões sobre o uso dos recursos naturais, a relação com o meio ambiente, a religiosidade e o sentido da existência. E é neste ponto que o filme assume as características de uma genuína fita de Faroeste.
A expansão americana para o Oeste não foi provocada, como muitos pensam, pela busca de novas terras para a produção agrícola ou para a criação de gado. A grande motivação, já no final do século 18 e na primeira metade do século 19, foi a busca de recursos minerais, especialmente ouro e prata. As primeiras levas de colonizadores eram compostas de aventureiros, garimpeiros e mineradores que fugiam, nos dois lados do Atlântico, da Justiça. A guerra entre mexicanos e estadunidenses (1846-1848), várias vezes retratada em filmes e em séries de TV (ver o filme O Álamo/The Alamo, realizado em 1960, dirigido por John Wayne e disponível no Brasil em DVD lançado pela Intercine; e a série Davy Crockett) gerou um novo estado independente, o Texas, que logo se incorporou aos Estados Unidos da América. E a cobiça pelos recursos minerais geraram grandes conflitos entre brancos e “selvagens” – conflitos esses muito explorados pela indústria cinematográfica.
Temos aqui a primeira e principal conexão entre os westerns e o filme de Cameron. Como nos filmes que mostravam os “mineiros” enfrentando os “peles-vermelhas” pela posse da terra árida do sudoeste americano, Avatar usa a posse da terra como motivador do conflito entre os humanos e os Na’vi. Ou seja: os “mineiros” do Oeste queriam aniquilar os indígenas para obter ouro; e os membros da Corporação RDA querem eliminar os Na’vi para ficar com o unobtanium, mesmo que isso resulte na destruição de toda a vida nativa de Pandora.
A segunda semelhança é bem visível: a aliança entre o poder econômico (empresas mineradoras) com o poder do Estado (Exército) para se apossar dos recursos existentes na “nova terra”. O General George Armstrong Custer (1839-1876) e sua Sétima Cavalaria são um bom exemplo disso na História e no Cinema (ver O Intrépido General Custer/They Died with Their Boots On, 1941, direção de Raoul Walsh; e Os Bravos Não se Rendem/Custer of the West, 1968, direção de Robert Siodmak). Na verdade, o filme de Cameron, por motivos óbvios, não mostra símbolos que indiquem a presença de um exército nacional, mas o aparato bélico comandado pelo personagem Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) não deixa dúvidas de sua ligação com uma instituição militar. Como nos westerns, os homens comandados pelo Coronel Quaritch mostram uma superioridade gigantesca nos armamentos: têm o que há de mais moderno para matar e triturar, enquanto os “selvagens” se defendem com arcos e flechas. A grande batalha na seqüência final do filme é emblemática. Os Na’vi atacam as naves do Coronel Quaritch montados em seus “banshees” (curiosamente, banshee era o nome de um caça fabricado pela McDonnel Aircrafts, do Canadá, e usado pela Marinha dos Estados Unidos nas décadas de 1950 e 1960) e “leonopteryx”, seres voadores com aparência de dragão punk. O ataque é feito em uma corrida louca pelos ares; e a melhor maneira que os Na’vi encontram para derrubar as naves é saltar sobre elas, atacar os tripulantes e provocar a queda. Alguma semelhança com os westerns antigos que mostravam os “peles-vermelhas” atacando caravanas nas pradarias do Oeste americano? Na parte terrestre da batalha, os Na’vi e seus novos amigos avatares atacam montados em seus “direhorses” (Cameron descreve esses animais, que têm seis patas e antenas de mariposa, como “cavalos da raça alienígena Clydesdale”). O ataque frontal dos Na’vi é defendido pelos humanos da mesma maneira que vemos nas fitas em que os brancos (em menor número que seus atacantes) viravam as carroças, para criar uma barricada, a fim de se defenderem dos índios, que vinham montados em seus “mustangs”. Sempre, é claro, com artilharia desigual: de um lado, balas; do outro, flechas.
Nos personagens também temos algumas “coincidências”. Jake Sully (Sam Worthington), o combatente paraplégico enviado (no lugar do irmão gêmeo morto) para participar do Projeto Avatar, tem um tanto de Jack Crabb, branco-índio interpretado por Dustin Hoffman no filme Pequeno Grande Homem (Little Big Man, 1970, direção de Arthur Penn). Ambos ficam confusos, ao conhecerem as duas culturas – a branca, insaciável em sua cobiça e sede de poder (1); e a indígena, que convive em paz com a Natureza e se contenta com os recursos limitados que consegue. Ambos vêm de uma vida atribulada, sem objetivos definidos; e acabam encontrando seu destino num modo de vida diferente daquele em que foram forçados a viver. Como Jake Sully, Jack Crabb acaba optando pelo modo de vida dos índios e envolve-se na batalha em que a Sétima Cavalaria do General Custer é destroçada. A participação de Jake Sully na batalha final de Avatar é fundamental para a vitória dos Na’vi, assim como a de Jack Crabb na vitória da coligação indígena [chefiada por alguns dos mais prestigiosos chefes (Sitting Bull, Crazy Horse, Red Cloud, Gall, Two Moons, entre outros)], na batalha de Little Big Horn, em que Custer foi morto (Crabb convence o general a ir com sua tropa até o local onde uma armadilha estava preparada pelos índios). O Coronel Miles Quaritch parece mesmo inspirado em Custer, o lendário general: é carreirista, racista e confia cegamente na superioridade de suas armas, como era Custer na vida real. Da mesma forma como retratado em vários filmes, nos quais Custer é o último a perecer na batalha (a de Little Big Horn não deixou vivo nenhum soldado das tropas de Custer), em Avatar o “duelo final” acontece entre Quaritch e a Na’vi Neytiri. E Quaritch é morto.
Do lado Na’vi da história temos em primeiro lugar Neytiri (Zoë Saldana), uma “princesa” da tribo. Ela é incumbida de ensinar ao avatar de Jake Sully o modo de vida dos Na’vi. Temos aí um pouco de Pocahontas (2), com um tempero de De Pé com Punho (Stands with a Fist), a personagem interpretada por Mary McDonnell em Dança com Lobos (Dances with Wolves, 1990, direção de Kevin Costner). Entre Neytiri e Jake Sully acontece um clima romântico. E James Cameron inovou no roteiro, já que é a personagem feminina quem salva o personagem masculino no final do filme.
O guerreiro Na’vi Tsu’tey (Laz Alonso) despreza o avatar de Jake Sully e, por ciúme de seu relacionamento com Neytiri, nutre um ódio feroz por ele. Esse triângulo amoroso é semelhante a muitos outros existentes em filmes de bang-bang.
Para “modernizar” seu roteiro, James Cameron usou a questão do meio ambiente. Os personagens Parker Selfridge (Giovanni Ribisi), administrador da base mineradora em Pandora, e a dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver), botânica que vive há quinze anos no planeta, travam uma batalha entre a ganância materialista e a ciência compreensiva. Selfridge é calculista e busca apenas resultados econômicos, não importando muito os meios para obtê-los. A dra. Augustine tenta compreender os Na’vi e sua relação íntima com o planeta onde vivem. Com maestria, Cameron coloca no roteiro uma discussão atual: a contraposição entre o modelo industrial de exploração e a maneira ambientalista de desenvolvimento sem prejudicar o meio ambiente. Ao mesmo tempo, coloca a discussão sobre a aculturação das populações indígenas. E, para ganhar mais adeptos, incluiu como peça chave no roteiro a Hipótese de Gaia, criada pelo cientista britânico James E. Lovelock (3): usando a interpretação do planeta Terra feita por Lovelock, Cameron recupera o mito de Gaia (4), ao criar a “religião” dos Na’vi e sua Árvore das Almas.
Em resumo, James Cameron fez um bom filme, com grande contribuição para o aspecto técnico da cinematografia, incorporando algumas discussões importantes sobre o relacionamento do ser humano com o nosso planeta e com os planetas que o homem irá explorar no futuro. Para a indústria cinematográfica, o sucesso estrondoso de Avatar em 3-D mostrou que tecnologia pode gerar lucros fabulosos. O número de freqüentadores de salas de cinema, que vinha caindo regularmente, aumentou com a “novidade” e, é claro, com ingressos mais caros. Resta saber se outros diretores, como Martin Scorsese, que já anunciaram a intenção de realizar filmes em 3-D, ou, como Tim Burton, que já o fizeram (ver Alice no País das Maravilhas/Alice in Wonderland, 2010), conseguirão manter o sucesso nas salas de cinema. Burton está conseguindo com a bilheteria de seu filme, mas o desafio está lançado para os demais cineastas.
A pedido do editor do Jornal do Cinema, vou escrever futuramente um artigo em que tentarei explicar a todos como funciona a tecnologia em 3-D, assim como outras tecnologias de produção, principalmente em vídeo de alta definição.

 

NOTAS:

(1) Por volta de 1875, o jornal norte-americano Boston Post publicou o seguinte texto, que merece a atenção de toda a população branca da Terra: “A história das relações entre o homem branco e o pele-vermelha foi e continua a ser a da avidez, crueldade e completa ausência de sentimentos da parte dos brancos. Para estes, nada tem validade, exceto o seu sagrado direito a escolher toda terra que deseje, em prejuízo das tribos, sejam elas quais forem. (...) Nada temos que nos orgulhar das (...) ações contra a enfraquecida raça selvagem. E não temos direito algum a considerarmo-nos como povo civilizado (...), com este passado contra nós” [Paul Ulrich (organizador), A América à Conquista do Far-West tomo 2, Lisboa, Amigos do Livro, s. d., p. 59].

(2) Tudo o que se conhece a respeito da índia Pocahontas (1595?-1617) foi transmitido oralmente, de uma geração a outra. Ela era filha do cacique Powhatan (ele chefiava diversas tribos do estado da Virgínia), casou-se com o inglês John Rolfe e parece que teve um romance com o capitão da Marinha inglesa John Smith (no entanto, não existem relatos que confirmem ou não a veracidade desse fato, que foi retratado num filme de animação de longa-metragem, Pocahontas/Pocahontas, produzido pela Disney em 1995, e na fita O Novo Mundo/The New World, realizada em 2005).

(3) Segundo a Hipótese de Gaia, a Terra é um único organismo vivo. Explicando melhor: o cientista James E. Lovelock e a bióloga estadunidense Lynn Margulis analisaram pesquisas que comparavam a Terra com outros planetas. A partir dessas análises, propuseram que é a vida da Terra que cria as condições para a sua própria sobrevivência, e não o contrário, como as teorias tradicionais sugerem. Vista com descrédito pela comunidade científica internacional, a Hipótese de Gaia tem encontrado – devido sobretudo ao aquecimento global – simpatizantes entre grupos ecológicos, místicos e alguns pesquisadores.

(4) Gaia é o nome grego da Terra. É representada geralmente como uma mulher gigantesca, de formas pronunciadas e seios grandes.

 

Avatar (Avatar, 2009, 161')
Direção e Roteiro: James Cameron
Elenco: Sam Worthington, Zoë Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver, Giovanni Ribisi, Laz Alonso, Michelle Rodriguez, Joel David Moore, Wes Studi, C. C. H. Pounder
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Fox

 

Luiz Paulo Tupynambá é cinegrafista e web designer