Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

APOCALYPSE NOW
O FIM DO MUNDO NUM MURMÚRIO



Apocalypse Now, dirigido por Francis Ford Coppola, é uma adaptação livre do romance Heart of Darkness, de Joseph Conrad, ex-marinheiro polonês que se tornou um dos expoentes da literatura inglesa. No livro, pequeno, denso, sombrio, o autor constrói uma narrativa cheia de simbolismo, sobre um capitão de navio que sobe um rio até as profundezas da África Ocidental para encontrar um comerciante de marfim, Kurtz. Aparentemente, o comerciante adoeceu ou enlouqueceu, ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Kurtz é uma estranha figura mítica, intimamente relacionada com a barbárie da selva (e possivelmente com a barbárie do mundo). Sua visão de mundo é revelada ao capitão do barco na viagem de volta. Uma típica história conradiana, identificável para quem leu seus livros mais conhecidos, como Lord Jim e Victoria.
Na adaptação, feita pelo roteirista e diretor John Milius (...), o cenário é transferido da África, com seu ignóbil comércio de escravos – do qual o livro de Conrad é uma das maiores denúncias – para o Vietnã durante a guerra. O papel de Kurtz é feito por Marlon Brando. Martin Sheen faz o capitão do barco, no filme um jovem oficial norte-americano chamado Willard, que recebe a missão de encontrar Kurtz e receber dele a mesma lição do capitão do livro.
Mas há várias modificações na trama. Kurtz não é mais um comerciante, mas um coronel enlouquecido do Exército americano, que juntou um bando de seguidores e se diverte derrubando aviões americanos a tiros e estabelecendo a confusão entre as tropas aliadas. E Willard não vai lá resgatá-lo, mas eliminá-lo.
Além disso, algumas seqüências foram acrescentadas quase por acaso. Por exemplo: pouco depois do início das filmagens, nas Filipinas, um furacão destruiu uma réplica de uma aldeia vietnamita. As câmaras estavam rodando, registraram o acontecimento; e agora o furacão faz parte da história. E a denúncia do tráfico de escravos é substituída pela denúncia dos horrores da guerra.

Na verdade, a viagem de Willard pelo rio é quase uma viagem no sentido alucinógeno. À determinada altura, ele encontra o tenente Kilgore (Robert Duvall), um homenzarrão de botas e com boné do Exército dos nortistas na Guerra de Secessão Americana (1861-1865). Kilgore quer encontrar uma praia para praticar surfe; e só por isso ataca uma aldeia de pescadores vietnamitas, ao som da música “A Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner, emitida por um helicóptero. E, ainda em meio à batalha, obriga parte de seus soldados a fazer surfe sob o tiroteio.
Outra constante no filme é o medo, que aos poucos vai desmoralizando os homens de Willard. Álcool, droga, sexo, cada qual combate o próprio medo como pode. Um pinta o rosto de listas verdes, outro estrebucha em plena selva, outro diz coisas indecentes. Nesse clima, um simples movimento suspeito num junco faz com que os homens, nervosos, estraçalhem a bala uma pacífica família de camponeses.
Quando Kurtz finalmente aparece, o filme já atingiu uma atmosfera inteiramente surrealista. O coronel louco tem seu próprio santuário, um templo em ruínas inspirado no de Angkor, no Camboja, onde, em cada degrau, se vêem cabeças cortadas. Kurtz é agora um deus, adorado por uma tribo de montanheses fanáticos. E suas palavras finais são extraídas de um poema de T. S. Eliot: “Assim expira o mundo: não com uma explosão, mas com um suspiro.” O próprio Conrad, certamente, não faria por menos.

 

Este texto foi transcrito do número 175 da Revista do Domingo (Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 26 de agosto de 1979, p. 13)