Ano 2 - nº 8 - outubro de 2010/janeiro de 2011

A ALEMANHA NO TEMPO DA HIPERINFLAÇÃO
Stefan Zweig



Em 1922, após o assassinato do então ministro do Exterior da Alemanha, Walther Rathenau, o marco alemão começou a desvalorizar-se e continuou a fazê-lo até chegar aos números fantásticos de um milionésimo, bilionésimo, trilionésimo de seu valor anterior. Só então principiou a inflação alemã (...).
Para narrar a inflação alemã com todos os seus pormenores, suas coisas incríveis, seria necessário um livro; e esse livro às pessoas de hoje daria a impressão de uma fábula.
Dias houve em que de manhã tive de pagar por um jornal cinqüenta mil marcos e de tarde cem mil (...). Mandei, por exemplo, ao meu editor um manuscrito, no qual trabalhara um ano, e julguei garantir-me, exigindo imediatamente o pagamento adiantado relativo a dez mil exemplares. Quando recebi o cheque, seu valor mal cobria as despesas que eu uma semana antes tivera para enviar o pacote. Nos bondes, as passagens custavam milhões de marcos (...). Um cordão de sapatos custava mais do que anteriormente se pagava por um par de sapatos, ou melhor, por uma loja de luxo com dois mil pares de sapatos. O conserto de uma janela custava mais do que anteriormente custava a casa inteira (...). Com cem dólares podiam-se comprar casas de seis andares na Rua Kurfürstendamm (...). Surgiram os especuladores. (...) Os indivíduos sem trabalho vagavam aos milhares e cerravam os punhos para os aproveitadores e estrangeiros, que passavam nos automóveis de luxo e compravam fileiras de casas como quem compra uma caixa de fósforos. Todo indivíduo – que sabia ler e escrever – negociava, especulava, ganhava e tinha o sentimento de que todos se enganavam e eram enganados por u’a mão oculta que muito premeditamente encenava esse caos, a fim de libertar a nação de suas dívidas e obrigações.
Creio que conheço bastante a fundo a História; ao que eu saiba, porém, ela nunca produziu uma época de semelhante loucura em proporções tão gigantescas. Todos os valores, e não só os materiais, estavam alterados; ridicularizavam-se os decretos do Governo; não se respeitava costume algum, moral alguma; Berlim passou a ser a cidade da perdição. Os bares, os locais de diversão e as tabernas pulularam como cogumelos. (...) Na Rua Kurfürstendamm passeavam jovens exageradamente enfeitados e cintados; (...) todo ginasiano queria ganhar dinheiro; e nos bares quase às escuras viam-se secretários do Estado e grandes banqueiros cortejarem sem pudor marinheiros ébrios. Mesmo a Roma de Suetônio não conheceu orgias como a dos bailes de travestis de Berlim, nos quais centenas de homens em trajes femininos e mulheres em trajes masculinos dançavam sob as vistas benévolas da polícia. Na queda de todos os valores uma espécie de loucura apoderou-se precisamente dos círculos burgueses, que até então não tinham sido abalados em sua ordem. As jovens orgulhavam-se de serem perversas; ainda ser suspeita de possuir virgindade aos dezesseis anos seria uma vergonha em toda escola de Berlim nessa época; toda jovem queria contar suas aventuras, e quanto mais exóticas fossem estas tanto melhor. Mas o que era mais repugnante nesse erotismo patético era sua horrível falsidade. No fundo, percebia-se que essas jovens das famílias burguesas preferiam usar um penteado feminino a usarem cortes masculinos, preferiam comer torta de maçã com creme a beberem aguardentes fortes; notava-se claramente que era insuportável para o povo inteiro essa superexcitação, essa tortura diária produzida pela inflação (...). No íntimo a nação odiava a República, não porque esta reprimisse a liberdade infrene, mas sim porque a permitia.

 

Este texto foi transcrito do livro O Mundo Que Eu Vi (Die Welt von Gestern, tradução de Odilon Gallotti, Rio de Janeiro, Guanabara, 1942, pp. 340-343), de Stefan Zweig