Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

SOB O DOMÍNIO DE EROS - O EROTISMO NOS QUADRINHOS - PARTE 3 (FINAL)
Marco Aurélio Lucchetti



QUADRINHOS ERÓTICOS BRASILEIROS

 

1 – ESTÓRIAS ADULTAS

Quando se fala de quadrinhos eróticos brasileiros, todos pensam imediatamente – e erradamente – em Carlos Zéfiro (pseudônimo de Alcides Caminha). Foi dito “erradamente” porque Carlos Zéfiro nunca produziu quadrinhos eróticos, e sim quadrinhos pornográficos.
Os primeiros quadrinhos genuinamente eróticos realizados por quadrinhistas nacionais foram publicados em 1969 no gibi Estórias Adultas – até então, o erotismo nos quadrinhos brasileiros resumia-se às belas e sensuais figuras femininas concebidas por dois quadrinhistas italianos que escolheram o Brasil para fixar residência: Eugênio Colonnese e Nico Rosso, que desenharam, respectivamente, as histórias das vampiresas Mirza (1967) e Naiara (1968).
Publicado pela Editora Edrel, de São Paulo, Estórias Adultas era um gibi moderno – todos seus colaboradores (Claudio Seto, Fernando Ikoma, Marco Araújo Liesenfeld, entre outros) eram bem jovens –, inteligente, sofisticado; e suas histórias, fortemente influenciadas pelos quadrinhos japoneses e pelos trabalhos de alguns quadrinhistas de vanguarda (Enric Sió, Esteban Maroto, Guy Peelaert e Jean-Claude Forest, para citar os mais representativos), tinham uma originalidade, uma ousadia e uma modernidade que as distinguiam da mediocridade da maior parte da produção quadrinhística brasileira do mesmo período.
Estórias Adultas deu origem a diversas imitações (O Paquera, Playcomic, Young Comic etc.), todas editadas pela Edrel.

 

2 – OS GIBIS DA GRAFIPAR

Em setembro de 1978, a maioria das revistas brasileiras de quadrinhos publicava tão-somente material estrangeiro (leia-se material de procedência norte-americana) e destinava-se às crianças e/ou aos adolescentes. Poucas revistas havia para o público adulto, e as que existiam eram quase todas de Horror/Terror. Foi então que a Grafipar, uma editora sediada em Curitiba, lançou o gibi Eros, que tinha um propósito bem específico: conquistar homens e mulheres maiores de dezoito anos de idade, que, desde que a Edrel fechara suas portas – fato esse ocorrido na primeira metade da década de 1970 –, estavam impossibilitados de ler histórias em quadrinhos eróticas realizadas com bom gosto, competência e inteligência por roteiristas e desenhistas brasileiros.
Eros, que a partir do sexto número (lançado em 2 de fevereiro de 1979) passou a chamar-se Quadrinhos Eróticos, foi o gibi de maior sucesso da Grafipar. E seu sucesso motivou a editora a lançar outras revistas de histórias em quadrinhos eróticas: Sexo em Quadrinhos; Neuros, cujo subtítulo era Terror e Sexo em Quadrinhos; Perícia, que publicava histórias de sexo, sangue e violência; Próton, com histórias que misturavam ficção científica e erotismo; Sertão & Pampas; Kate Apache, com as aventuras de uma sedutora e simpática caçadora de recompensas no selvagem Velho Oeste; Maria Erótica, cuja principal atração eram as histórias de Maria Erótica, uma personagem criada por Claudio Seto e surgida nos gibis da Edrel; e, entre outras, Volúpia. E todas essas revistas possibilitaram que quadrinhistas brasileiros – dentre os colaboradores da Grafipar destacam-se: os roteiristas Ataíde Braz, Carlos Magno, Franco de Rosa, Jorge Fischer, Nelson Padrella e Wilde Portela; e os desenhistas Claudio Seto, Eros Maichrowicz, Fernando Bonini, Fernando Ikoma, Flávio Colin, Francisco Vilachã, Gustavo Machado, Itamar Gonçalves, Julio Shimamoto (algumas das melhores histórias em quadrinhos eróticas desenhadas por Shimamoto para a Grafipar foram republicadas no livro Volúpia, editado por Dario Chaves e lançado em 2000 pela Editora Opera Graphica), Maurício Veneza, Mozart Couto, Paulo Hamasaki, Roberto Câmara, Roberto Kussumoto, Rodval Matias, Seabra e Watson Portela – pudessem mostrar todo seu talento.

Durante aproximadamente um ano e meio, a Grafipar dominou sozinha o mercado brasileiro de revistas de quadrinhos eróticos. Então, a Idéia Editorial (uma divisão da Editora Três, de São Paulo), que tinha como diretor de redação o jornalista Osmar Mendes Júnior, lançou um grande número de gibis eróticos: Branquela e Seus Anões, Conde Dinho, Fábulas Eróticas, Frígida, Loreta, Mascarado Traçador, Morcego Negro, Playcolt, Vampi, Xana Borradeira, Zartan, entre outros.
De origem italiana e distribuído no Brasil pela APLA (de propriedade do sr. Luiz Rosemberg), o material publicado nos gibis da Idéia foi primeiramente oferecido à Grafipar. Mas o coordenador geral do grupo de quadrinhos da editora, Claudio Seto, não mostrou interesse por ele e preferiu continuar publicando apenas histórias produzidas no Brasil. E qual a razão disso? A resposta é muito simples: Seto acreditava no quadrinho brasileiro, que até hoje não se desenvolveu plenamente porque, de maneira geral, foi pouco prestigiado pelas grandes editoras (elas preferem publicar histórias em quadrinhos estrangeiras, pois é muito mais cômodo e barato do que investir em quadrinhos realizados no Brasil, cujo retorno financeiro é bem menor e nem sempre garantido).
Em pouco tempo, as publicações da Idéia começaram a fazer concorrência aos gibis da Grafipar. E, nos meados de 1983, a editora paranaense encerrou suas atividades no campo dos quadrinhos. Desde então, o erotismo praticamente desapareceu das revistas de histórias em quadrinhos produzidas no Brasil.