Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

MINHAS RECORDAÇÕES DO PRÍNCIPE VALENTE
Marco Aurélio Lucchetti



Foi aos seis anos de idade, quando já sabia ler perfeitamente e morava na cidade de São Paulo, que descobri as histórias em quadrinhos.
E devo essa descoberta ao meu pai, o roteirista e ficcionista Rubens Francisco Lucchetti, que, num sábado de julho de 1967, trouxe para casa uma revista de quadrinhos publicada pela EBAL e comercializada exclusivamente nos postos de gasolina da Shell.
Na verdade, desconheço o que me atraiu na revista, número 0 (zero) da 3ª série de O Capitão Z. Talvez tenha sido a capa, que, dominada pelas cores amarela e laranja, mostrava alguma figuras e, entre outras coisas, a frase “DOIS SUPER HERÓIS HOMEM DE FERRO E CAPITÃO AMÉRICA”. Sei apenas que a tirei das mãos de meu pai e dei uma olhada em seu interior. Fascinado com a profusão de imagens que vi, comecei a ler a revista. Confesso que senti, de imediato, uma grande admiração por aquele tipo de publicação, que apresentava histórias narradas por meio de quadros em que estavam integrados texto e desenho.
Tão logo terminei a leitura, falei ao meu pai que gostaria de ler outras revistas do mesmo tipo daquela. Então, ele me levou até seu escritório, onde me mostrou uma série de encadernações com lombadas de variadas cores. Em seguida, disse que em cada um daqueles volumes encadernados havia diversas revistas do mesmo tipo daquela que eu acabara de ler – tempos depois, percebi que as cores das lombadas serviam para dividir as revistas por gêneros de histórias (Aventura, Épico, Infantil etc.).
Depois, quando eu nem bem tinha começado a correr os olhos por aqueles volumes, meu pai abriu a porta inferior de uma estante de pau-marfim. Ali dentro, mais revistas de históras em quadrinhos. Dessa vez, avulsas.
Era a porta de um novo mundo que se abria para mim. Sem perder um só segundo, comecei a ler, uma a uma, aquelas revistas e, em pouco tempo, tornei-me íntimo dos títulos que compunham a coleção do meu pai: Agente Secreto, Águia Negra, Álbum Gigante, Aventuras, Aventuras do Anjo, Aventuras Heróicas, Batman, Bill-Kid, Billy Furacão, Biriba, Bolinha, Brick Bradford, Bronco Piler Magazine, Brucutu, Búfalo Bill Magazine, Capitão Atlas, Capitão César, Capitão Fantasma, Capitão 7, O Carrasco, Cine Aventuras, Cinemin, O Coelho Valente, Coleção de Aventuras, Combate, Cômico Colegial, Contos de Fadas, Cow-Boy, Dick Tracy Magazine, Dr. Macarra, Edição Maravilhosa, Epopéia, Fantasia, Fantasma Magazine, Ferdinando Magazine, Flash Gordon Magazine, Gasparzinho, Gatilho!, Gato Preto, A Gazeta Juvenil, Gene Autry, Gibi, Gibi Mensal, O Globo Juvenil, O Globo Juvenil Mensal, O Gordo e o Magro, O Guri, Hans e Fritz, O Herói, Hopalong Cassidy, O Idílio, Invictus, Jerônimo Magazine, Jesse James, Jim das Selvas, Jim Gordon, Jujuba, Jujú Faísca, Júnior, Lassie, Lili, O Lobinho, Luluzinha, Mandrake Magazine, Marruá, Medo, Mindinho, Mirim, Misterinho, Mundo de Sombras, Mylar, Nevada, Nick Fury, Agente da S.H.I.E.L.D., Noites de Terror, Papai Noel, O Pato Dizzy, Pecos Bill, Pequenina, O Pequeno Sheriff, Petiz, Pimentinha, Pinduca, Popeye, Princesinha, Quem Foi?, Raio Negro, Rancho Fundo, Recruta Zero, Rei da Polícia Montada, O Reizinho, Rin Tin Tin, Robin Hood Magazine, Romance Ilustrado, Rosalinda, Roy Rogers, O Santo Mazazine, Scotland Yard Magazine, Seleções de Idílio, Seleções de Terror, Série Sagrada, Shazam!, Sobrenatural, Os Sobrinhos do Capitão, Superman, Supermouse, Super X, Suplemento em Quadrinhos, Suplemento Juvenil, Targo, Tarzan, O Terror Negro, O Tico-Tico, Tim & Tom, Varinha Mágica, 22-2000 Cidade Aberta, Xuxá, Zé Colméia e, entre muitos outros, Zorro.
Ao mesmo tempo em que ia lendo as revistas da coleção de meu pai, ia conhecendo um sem-número de personagens dos quadrinhos. E um desses personagens foi o Príncipe Valente.
Conheci o Príncipe Valente em 25 de junho de 1971. Nesse dia, como de costume, meu pai veio almoçar em casa, por volta das 11 horas da manhã. Também como de hábito, fui eu quem lhe abriu a porta da rua. Enquanto meu pai entrava, olhei direto para suas mãos, já que ele quase sempre trazia uma ou mais revistas de quadrinhos para incorporar à sua coleção. Dessa vez, entretanto, não havia trazido nenhuma revista. Mas tinha nas mãos um livro em formato de gibi (aproximadamente 16,5x25,5 cm). A princípio, não senti interesse algum por aquele livro. Porém, quando meu pai disse que o livro era de uma história em quadrinhos norte-americana muito famosa, meu interesse foi imediatamente despertado. Peguei o livro e, durante alguns segundos, fiquei examinando sua capa. Ela mostrava um homem de cabelos escuros e uma mulher de cabeleira alaranjada. O homem tinha uma expressão de ferocidade no rosto e empunhava uma espada. A mulher, muito bonita, estava sendo carregada pelo homem. As únicas palavras que havia na capa eram: “PRÍNCIPE VALENTE E A BELA PRINCESA POR HAL FOSTER”. Eu ainda estava olhando a capa, quando meu pai falou:

“Príncipe Valente é o nome do personagem principal de uma história em quadrinhos que retrata os tempos do Rei Arthur. Acho que você vai gostar das histórias do Príncipe Valente, pois elas têm belas princesas, castelos, magos, bruxas, cavaleiros, ambientes misteriosos e muita aventura.”

Então, folheei as páginas do livro e vi uma profusão de textos e um grande número de ilustrações. Impressionado com a beleza das ilustrações – logo percebi, apesar de minha pouca idade (eu tinha somente dez anos de idade), que elas eram obra de um mestre na arte do Desenho (como bem disse o crítico, jornalista e editor Franco de Rosa, Príncipe Valente “resplandece em brilho devido à beleza e opulência de seus desenhos”) –, quase não prestei atenção ao que meu pai falava. Ele explicava que aquele livro era a adaptação, em forma de romance gráfico, de uma história do Príncipe Valente (alguns anos mais tarde, descobri que a história a que meu pai se referia era, na verdade, um conjunto de histórias publicadas originalmente entre outubro de 1943 e junho de 1945 nos suplementos dominicais dos jornais norte-americanos). Não me lembro do que aconteceu a seguir. Acho que fomos almoçar.
Poucos dias depois, eu estava no escritório de meu pai, procurando algo para ler. Ao abrir a estante de pau-marfim, meus olhos foram atraídos para a lombada de Príncipe Valente e a Bela Princesa. Peguei o livro e recordei-me imediatamente de que ficara impressionado com a beleza de suas ilustrações. Comecei a ler a história, cujo início é o seguinte:

“E, assim, voltaram a reinar no país de Thule, uma vez mais, a verdadeira felicidade e a alegria que provêm da paz e da honradez. O Rei Valgrind, dos Países do Interior, fora enterrado com maior pompa e dignidade do que convinha à sua traição. Mas, como declarou o Rei Aguar, pai do Príncipe Valente:
– É à pessoa do rei que prestamos homenagem e não ao homem. E, além do mais, ele já foi devidamente castigado pelos seus crimes.”


Li Príncipe Valente e a Bela Princesa em dois dias.
Passado cerca de um mês, a Editora Paladino, de São Paulo, lançou nas bancas de jornal quatro publicações de quadrinhos em formato de livro (aproximadamente 14x20 cm): Brick Bradford, Flash Gordon, Popeye e Príncipe Valente. Comprei as quatro e, ao ler o primeiro volume de Príncipe Valente, pude conhecer as primeiras histórias do personagem – histórias essas produzidas por Harold Rudolph (Hal) Foster (1892-1982) e publicadas originalmente em 1937 nos jornais dos Estados Unidos.
Durante uns três anos, a Paladino e, posteriormente, a Editora Saber publicaram Príncipe Valente. Foram ao todo dezessete volumes, em que estão presentes o Rei Aguar; o Rei Arthur e sua encantadora esposa, Guinevere; o mago Merlin; a feiticeira Morgana; o jovial sir Gawain; o galante sir Tristram; o cruel Ogro do Bosque de Sinstar; a graciosa e delicada Ilene; o destemido príncipe Arn; a corajosa Hulta e seu amado, Slith; Belsatã, o maior mago do Oriente, e sua mulher, a faladora Acídia; o viking Boltar, um pirata honesto e mercador honrado; e, entre muitos outros personagens, a rainha das Ilhas das Névoas (Misty Isles, no original), a bela e altiva Aleta, que se casaria com o Príncipe Valente e seria mãe de cinco filhos (Arn, Karen, Valeta, Galan e Nathan).
Eu esperava com ansiedade o lançamento de cada novo livro do Príncipe Valente. E, apesar de concordar com as palavras do jornalista e tradutor Heitor Pitombo – segundo ele, os livros publicados pela Paladino e a Saber iniciaram “várias gerações no culto ao nobre cavaleiro” (“A Saga do Príncipe Valente no Século XX”, in Príncipe Valente volume XVI, São Paulo, Opera Graphica, 2001) –, considero, hoje, esses livros um verdadeiro lixo editorial, uma vez que desrespeitavam a diagramação original das páginas de Príncipe Valente, eram editados com desleixo e impressos em papel de jornal. Na verdade, esses livros são um total desrespeito para com o trabalho excepcional de Hal Foster.
Foi somente a partir de 19 de setembro de 1974, mais ou menos na mesma época em que a Saber lançava o último livro de Príncipe Valente, que posso dizer que comecei a conhecer realmente a obra inigualável de Hal Foster. Mas isso é outra história, que deixarei para contar num dos próximos números do Jornal do Cinema.