Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

GRAHAM GREENE, UM HOMEM CUJO OFÍCIO ERA ESCREVER
Marco Aurélio Lucchetti



“Eu penso que o romancista tem no mínimo dois deveres: contar a verdade como ele a vê e não aceitar privilégios especiais do Estado.”
Graham Greene

 

A preocupação com a existência de Deus, a luta entre o Bem e o Mal, a revolta diante das injustiças sociais... essas são as características principais da obra do romancista inglês Graham Greene.
Autor de mais de trinta livros, este escritor católico (ele sempre detestou esse rótulo; por isso não cansava de afirmar que era um escritor que, por acaso, era católico) demonstrou sua inquietação religiosa, ao declarar, certa vez: “É preciso fazer uma distinção entre fé e crença. Crença é algo racional. Acredito cada vez menos, mas minha fé diz que estou errado.” 
Quarto dos cincos filhos do casal Marion Raymond (segundo algumas fontes, ela tinha certo parentesco com o escritor Robert Louis Stevenson) e Charles Henry Greene, Graham Greeme nasceu em 2 de outubro de 1904, no vilarejo de Berkhamsted, que fica na região de Hertford, a uns quarenta quilômetros ao norte de Londres. Fez os primeiros estudos em sua cidade natal, num colégio dirigido por seu pai, homem rígido e autoritário (seu único interesse era a educação dos filhos); e diplomou-se, em 1925, pelo Balliol College, da Universidade de Oxford.
Graham Greene foi admitido, em 1925, no Nottingham Journal, como aprendiz de redator, sem receber salário.
Em 1926, converteu-se ao catolicismo, adquirindo uma visão de mundo que seria fundamental para a elaboração de seus romances. Nesse mesmo ano, tornou-se redator do jornal The Times, recebendo de salário cinco libras por semana (era uma quantia pequena; porém, dava para sua subsistência). No ano seguinte, casou-se com Vivien Dayrell-Browning (foi ela a principal responsável por sua conversão ao catolicismo), que conhecera na época em que trabalhava no Nottingham Journal. E, em 1929, publicou seu primeiro romance, The Man Within.
As vendas desse livro ultrapassaram oito mil exemplares, um triunfo para um autor estreante, o que levou Graham Greene a acreditar que poderia viver de sua produção literária. Assim, sem pensar duas vezes, ele abandonou o emprego no The Times.

“Durante os anos seguintes, eu iria lamentar amargamente essa minha decisão. Eu já me considerava um escritor, convencido de possuir o mundo a meus pés. Mas as coisas se passaram de outra maneira...”
Graham Greene


O próximo romance, intitulado The Name of Action (1930) foi um fracasso de vendas. O mesmo aconteceu com Rumour at Nightfall (1931), do qual foram vendidas apenas algumas dezenas de exemplares. Com isso, para suprir as necessidades mais imediatas, Graham Greene começou a escrever críticas de Cinema para o semanário The Spectator. Mas não abandonou a carreira literária e deu início a um novo romance, Stamboul Train (O Expresso do Oriente).
Publicado em 1932, O Expresso do Oriente foi bem recebido pela crítica e pelo público. No entanto, o dinheiro que o escritor ganhou pelas vendas do livro não foram suficientes para saldar suas dívidas (além do mais, Vivien estava grávida), o que o obrigou a trabalhar num ritmo estafante. Por causa disso, como resultado de quatro anos de maratona literária, Graham Greene escreveu It’s a Battlefield (É um Campo de Batalha, 1934), Bela e Querida Inglaterra (England Made Me, 1935), The Basement Room (1935) e A Gun for Sale (1936).

“Anthony Farrant, o personagem deste romance, é um inglês que, viva onde viver, está sempre nostálgico da Inglaterra no que ela tem de superficial, dos bares de esquina onde toma sua cerveja morna, da garoa constante que torna Londres cinzenta. (...) Sabe que é preciso parecer elegantemente descuidado no vestir, desde que limpo e munido dos acessórios essenciais a todo londrino que se preze: o chapéu-coco e o guarda-chuva. Por meio da figura de Anthony Farrant, de seu cinismo, de sua hipocrisia, Graham Greene denuncia o mundo bem-ordenado na aparência, mas essencialmente corrompido, em que vivia, antes da Segunda Guerra Mundial, sua bela e querida Inglaterra. Uma sociedade em que o ‘pistolão’ tinha poderes mágicos, em que a nobreza arrogante, os endinheirados, os VIPs se permitiam todas as extravagâncias, enquanto o povo, trabalhador e ordeiro como um rebanho de ovelhas, tudo suportava sem reclamar.”
Orelha do livro Bela e Querida Inglaterra (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1963)


Brighton Rock (O Condenado, 1938), o romance seguinte, marcaria o início de uma nova etapa na carreira literária de Graham Greene, a chamada fase “do pecado e da graça”. O livro, que teve uma boa vendagem, apresenta personagens católicos, atormentados pela idéia de pecado e culpa, salvação e perdição; e mostra a cidade de Brighton como o Inferno ou, no mínimo, o Purgatório, com seus homens desesperados e aterrorizados.

O Condenado é um  romance de aventuras, mas com nítida intenção moralizante e cristã. Paradoxalmente, o autor revela maior simpatia pelos pecadores, como Pinkie, um criminoso de dezessete anos, que, segundo ele, são mais suscetíveis de receber a Graça que os cristãos rotineiros. Já se esboçava no pensamento de Greene a idéia de que o mal não está nos indivíduos, mas na sociedade, que desvia os homens para o pecado e o crime.”
Os Imortais da Literatura Universal volume III ( São Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 239)


A O Condenado seguiram-se: The Confidential Agent (O Agente Confidencial, 1939) e The Power and the Glory (O Poder e a Glória, 1940).
O Agente Confidencial pertence ao grupo de obras que Graham Greene classificava de “divertimentos”, isto é, romances escritos com o único propósito de entreter, divertir os leitores, narrando histórias cheias de suspense e tiroteios.
Já O Poder e a Glória, que retoma o tema do “pecado e da graça”, pertence à categoria dos “romances sérios”, em que são discutidos, com mais profundidade, os problemas caros ao autor, como o pecado e a salvação, e que têm como protagonistas personagens dilacerados pelos problemas existenciais e pelo choque entre o Bem e o Mal.
O Poder e a Glória passa-se no México, o conturbado e angustiado México das perseguições religiosas, que Graham Greene conheceu de perto numa viagem que fez a esse país em 1938. O personagem central do romance é Padre José, um sacerdote católico que está sendo perseguido pela polícia numa província onde a igreja foi posta fora da lei.
O livro teve bastante sucesso e convenceu os críticos de que Graham Greene tinha algo a dizer.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, Graham Greene  entrou para o serviço secreto do Ministério do Exterior. Em 1941, partiu, em missão oficial, para Lagos, na Nigéria. Daí se transferiu para Freetown, em Serra Leoa, onde permaneceu até fevereiro de 1943. Nesse período, escreveu dois romances de espionagem inspirados nessa sua experiência: The Ministry of Fear (O Ministério do Medo, 1943) e The Heart of the Matter (O Coração da Matéria, 1948).
Terminada a Segunda Guerra Mundial, Graham Greene já era um romancista de grande projeção na Inglaterra; e seus romances começavam a ser um sucesso também no resto da Europa e em outros países. Então, ele escreveu o roteiro do filme The Third Man (O Terceiro Homem, 1949), que, depois, seria transformado numa novela.

“Nunca se sabe de onde virá o golpe do destino. No dia em que encontrei Martins pela primeira vez, tomei esta nota para os meus arquivos na polícia de segurança: ‘Em circunstâncias normais, um bobo alegre. Bebe demais e talvez dê algum incômodo. Toda vez que passa uma mulher, levanta os olhos e faz um comentário ou outro; mas tenho a impressão de que preferiria que o deixassem em paz. Na realidade não chegou a ficar adulto, e possivelmente isso explica sua admiração por Lime.’ Usei a expressão ‘em circunstâncias normais’ porque o tinha encontrado no enterro de Harry Lime. Era em fevereiro, e os coveiros tiveram de recorrer às brocas elétricas para penetrar na terra gelada do Cemitério Central de Viena. Dir-se-ia que a natureza fazia o possível para enjeitar Lime, mas afinal conseguimos metê-lo lá dentro e o cobrimos com torrões que pareciam tijolos. Jogada a última pá de terra na sepultura, Rollo Martins afastou-se rapidamente, como se suas compridas pernas de aranha tivessem ímpetos de largar a correr; e lágrimas de menino lhe desceram pelas faces de trinta e cinco anos. Rollo Martins cria na amizade. Foi por isso que os acontecimentos posteriores representaram para ele um choque muito maior do que teriam sido para os senhores ou para mim (...).”
O Terceiro Homem (tradução de Leonel Vallandro, Porto Alegre, Globo, 1951, p. 3)