Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

EU SEMPRE O CHAMEI DE “SENHOR MOJICA” - PARTE 2
Rubens Francisco Lucchetti



Mas quem é José Mojica Marins?
Fiz essa pergunta a mim mesmo durante vários dias, após ter assistido ao filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma. E não encontrei para ela uma resposta. Todas as pessoas de meu relacionamento nunca tinham ouvido falar dele; e nenhum jornal ou revista fazia qualquer menção à fita, que permanecera apenas um dia em cartaz em Ribeirão Preto.
Foi somente alguns meses mais tarde, em abril de 1966, que alguém citou o nome José Mojica Marins. Foi numa carta endereçada a mim e escrita a quatro mãos pelo meu amigo Sérgio Lima, que na época era secretário da Cinemateca Brasileira, e por sua esposa Leila (os dois já haviam estado em minha casa, para conhecerem o trabalho que o artista plástico Bassano Vaccarini e eu desenvolvíamos à frente do Centro Experimental de Cinema de Ribeirão Preto). Em determinado trecho dessa carta a Leila dizia:

“Sérgio, eu e alguns amigos (...) temos ido frequentemente visitar José Mojica Marins. Sr. Lucchetti, este homem é mesmo uma figura de contos maravilhosos e fantásticos.
Capa preta, pálido, barba desalinhada, unhas enormes e verdadeiras; e o mais importante: é a única pessoa que vive uma realidade imaginada!
(...) Já falei do senhor a ele, e seria delirante o vosso encontro.”

Em julho de 1966, mudei-me para São Paulo e fui trabalhar como chefe de escritório da Sokofer, uma loja de ferragens pertencente a uns primos de minha mãe. Eu nem me instalara direito na nova casa, recebi a visita do Sérgio e da Leila. Então, entre outras coisas, eles disseram que iriam marcar o tal “encontro delirante” e que, certamente, “o Mojica e eu iríamos nos dar muito bem”.
Passados alguns dias, o Sérgio me telefonou, a fim de avisar que marcara o encontro para aquele dia. Informou-me também de que eu deveria encontrá-los às cinco horas da tarde, no Largo do Paissandu, junto ŕ Fonte das Lagostas, no centro de São Paulo.
Na hora marcada, eu já estava parado junto à fonte de mármore branco do Largo do Paissandu. Menos de cinco minutos depois, vi o Sérgio e o sr. Mojica subindo a Avenida São João, vindos dos lados do edifício dos Correios.
O sr. Mojica que me estendeu a mão nada tinha em comum com Josefel Zanatas, a estranha e sinistra criatura de barba hirsuta que eu vira em À Meia-Noite Levarei Sua Alma. O sr. Mojica mostrava barba aparada, um sorriso agradável no rosto; trajava um terno escuro de qualidade muito superior ao meu, que fora comprado na Exposição Clipper; usava sapatos pretos bem polidos e totalmente diferentes dos meus, que sempre foram cambaios...
O Sérgio Lima, um perfeito dândi (na ocasião, ele vestia um paletó marrom, calça de flanela cinza; usava uma echarpe em torno do pescoço; e fumava cachimbo), começou a caminhar em direção à Rua Barão de Itapetininga. Ele falava muito e, em determinado momento, disse que “a parceria que o Mojica e eu faríamos iria resultar em algo inédito no cinema nacional”. O Mojica não dizia nada; e muito menos eu, que sou extremamente tímido.
O Sérgio nos levou a uma casa de chá na Barão de Itapetininga, a rua onde, na época, estavam instaladas as principais boutiques e lojas de grife de São Paulo. Por uma escada de mármore coberta por um tapete carmesim, chegamos a um amplo salão com colunas espelhadas e iluminado por finos lustres de cristal. Cortinas de renda de cor de caramelo escondiam as janelas, e uma brisa suave – vinda do teto através de orifícios camuflados por enfeites de anjinhos – tornava o ambiente extremamente agradável. A um canto, um quinteto de cordas, acompanhado por um piano, executava uma música de Brahms. Ou seria Vivaldi? Várias senhoras da mais fina sociedade paulistana tomavam o seu chá das cinco e, assim que entramos, voltaram seus olhares em nossa direção. Éramos os únicos varões naquele ambiente suntuoso.
Tão logo nos sentamos a uma mesa com tampão de vidro e ornamentada com um vaso de flores, surgiu não sei de onde, uma donzela de tailleur cinza, sapatos envernizados de salto alto e um barrete que lhe prendia os cabelos dourados. Ela tinha um rosto encantador e, oferecendo-nos o cardápio, saudou-nos com um “boa-tarde, cavalheiros” que na boca de qualquer outra jovem soaria totalmente falso. Quem fez o pedido foi o Sérgio, que me deu a impressão de ser um assíduo frequentador do local.
Assim que a moça se afastou, o Sérgio falou:
“Como eu lhe disse, Mojica, o Rubens já tem vários livros publicados, colabora numa infinidade de revistas, escreveu novelas de rádio, scripts para a televisão e fez aqueles filmes desenhados na própria película.”
Depois, voltando-se para mim, ele pediu:
“Vamos, Rubens, fale um pouco sobre o seu trabalho.”
Naquele instante, deu um branco em minha mente. Embora eu tivesse ensaiado exaustivamente o que deveria dizer para impressionar o sr. Mojica, esqueci tudo. Não sabia o que falar. Sentia-me travado. Fui salvo pela chegada providencial de um carrinho de chá de metal polido e rodas de borracha que era empurrado por uma graciosa garota envergando um uniforme azul que contrastava com sua cabeleira platinada. Ela colocou as chávenas em cima da mesa e despejou – de um bule com enfeites da cor de ouro velho – o chá em cada uma delas.
Esse espaço de tempo permitiu-me coordenar o pensamento, e fiz um relato sucinto sobre minhas atividades. Ressaltei, então, minha predileção pelo Horror e acrescentei que estava trabalhando para uma editora de São Paulo, escrevendo roteiros de histórias em quadrinhos de Suspense e Horror.
O sr. Mojica ouviu tudo sem fazer nenhum aparte ou comentário. Em seguida, consultou o relógio e disse que tinha outro compromisso. Mas antes de nos despedirmos, foi extremamente cortês, convidando-me para ir ao seu estúdio.
O que aconteceu depois relatarei num próximo artigo...

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos