Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

O HOMEM DE KIEV E O CINE VITÓRIA
Aurélio P. Cardoso



Toda vez que passo pela Rua Luiz da Cunha, na Vila Tibério, em Ribeirão Preto, lembro-me de que ali, em frente à Praça Coração de Maria, existia uma sala de cinema, o Cine Vitória. Não era muito grande (acho que sua capacidade era para, no máximo, umas quatrocentas pessoas), tinha poltronas de madeira e foi fechado no final dos ano 1970, quando a maioria dos cinemas não agüentou a concorrência  da televisão (na época, o público, para a satisfação do regime militar e o bem do sistema vigente, ficava à noite em casa, vendo telenovelas e fazendo assim um toque de recolher informal).
Assisti a poucos filmes no Cine Vitória, pois logo tive de mudar para outro bairro (saí do Ipiranga, que fica próximo à Vila Tibério, e fui morar no, então crescente, Jardim Paulista) e ficou difícil de ir até lá.
Há um filme que vi no Cine Vitória que recordo muito bem: O Homem de Kiev, a primeira fita de temática política a que tive acesso, já que até então meu interesse eram apenas os filmes de Aventura, de Faroeste e de temas infantis e inocentes.
Para quem só havia assistido a filmes de temática infanto-juvenil, ver O Homem de Kiev, cuja história, baseada em fatos reais, se passa na Rússia por volta de 1912, na época do Czar Nicolau II, foi um assombro e abriu minha mente como um raio.
O filme, dirigido por John Frankenheimer (realizador de filmes como Sob o Domínio do Mal/The Manchurian Candidate, O Segundo Rosto/Seconds, Grand Prix/Grand Prix e O Pecado de um Xerife/I Walk the Line) e roteirizado por Dalton Trumbo (roteirista dos filmes Spartacus/Spartacus, O Último Pôr-do-Sol/The Last Sunset, Havaí/Hawaii, entre outros), tem a atuação brilhante de Alan Bates como o personagem principal, Yakov, um camponês ucraniano de origem judia que, ao ser perseguido, preso e torturado, sob a acusação de haver matado um menino cristão, luta contra tudo e contra todos, com uma coragem que ele mesmo desconhecia possuir.
Ressalto que foi assistindo a O Homem de Kiev, cujo elenco é de primeira grandeza (além de Alan Bates, o filme conta ainda com a presença de Dirk Bogarde, um dos atores preferidos do diretor Joseph Losey; Hugh Griffith; Ian Holm; e David Warner, entre outros), que percebi o que é uma interpretação de verdade.
Mas o que me impressionou mesmo em O Homem de Kiev (quando vi o filme, eu era um pré-adolescente que nada sabia a respeito dos acontecimentos mostrados na fita e que desconhecia a força opressora que fora o regime czarista russo) foi a perseverança de Yakov, que encontra em Bibikov, um advogado aristocrata (interpretado por Dirk Bogarde), seu defensor íntegro (Bibikov é um homem que, ciente da inocência de Yakov, luta contra as forças opressoras do Czar).
Assistir a O Homem de Kiev foi importante para mim, por me colocar frente a um filme que mostra que as forças do poder, por mais poderosas que sejam, não podem intimidar a Justiça e não podem mascarar a verdade. Assim, toda vez que passo na Vila Tibério e vejo o antigo prédio do Cine Vitória (hoje, está instalada ali uma igreja evangélica), vem à minha mente a imagem de Alan Bates saindo da prisão e sendo aclamado pela multidão, que viu nele um símbolo de liberdade e de luta contra a injustiça que oprimia os camponeses da Ucrânia durante o período czarista.
E, a partir de O Homem de Kiev, qualquer filme de temática política e que envolve a luta por liberdade e justiça passou a me interessar; e, pouco tempo depois, burlando a sempre rígida censura da época, comecei a ver os filmes políticos italianos. Mas isso é algo que contarei num próximo artigo.





 

O Homem de Kiev (The Fixer, 1968)
Direção: John Frankenheimer
Roteiro: Dalton Trumbo, baseando-se no romance The Fixer (O Bode Expiatório, 1966), de Bernard Malamud
Música: Maurice Jarre
Elenco: Alan Bates, Dirk Bogarde, Georgia Brown, Jack Gilford, Hugh Griffith, Elizabeth Hartman, Ian Holm, David Warner, Carol White

 

Aurélio P. Cardoso é pesquisador, historiador, crítico e ativista da área de Cinema e membro fundador do Cineclube Cauim