Ano 2 - nº 7 - julho/setembro 2010

JULIANNE MOORE
UMA ATRIZ INCANSÁVEL E GARANTIA DE INTENSIDADE EM CENA - PARTE 2

João Rodolfo Franzoni




Como todo ser humano, atores e atrizes cometem erros. E um dos erros da atriz Julianne Moore foi ter aceitado trabalhar em Psicose (Psycho, 1998), uma tola refilmagem do clássico que Alfred Hitchcock dirigira em 1960. Na verdade, não se sabe o que a levou a participar de algo tão inane, uma fita que é um paradigma do que há de pior no que se refere a releitura cinematográfica. O filme, que hoje se encontra devidamente esquecido, manchou a reputação de seu diretor, Gus Van Sant; e, embora Julianne Moore tenha saído ilesa das críticas ao reprisar o papel anteriormente vivido por Vera Miles, é embaraçoso presenciá-la com um  walkman a tiracolo e contracenando com o inexpressivo Viggo Mortensen.
Em O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998), Julianne Moore revela uma insuspeita faceta cômica, ao interpretar uma artista plástica excêntrica, filha do milionário Lebowski, pivô das maluquices da trama. Julianne consegue uma química fantástica ao lado de Jeff Bridges. E, passados mais de dez anos, O Grande Lebowski, realizado pelos irmãos Ethan (produtor e co-roteirista) e Joel (diretor) Coen, sustenta-se como uma pérola do humor inconseqüente e um irresistível objeto de culto.
O ano de 1999 foi de grande exposição para Julianne Moore. Foram cinco títulos que a trouxeram como centro das atenções; e, em todos eles, sua primazia em cena foi indiscutível, até mesmo na co-produção britânica e estadunidense O Marido Ideal (An Ideal Husband), uma anódina versão da peça de Oscar Wilde, em que contracena com o empertigado Rupert Everett e encarna uma mulher tentando tirar proveito de um político respeitável (vivido por Jeremy Northam). Em A Fortuna de Cookie (Cookie’s Fortune), sob a direção de Robert Altman, Julianne interpreta com devida sobriedade a irmã deficiente de uma megera sulista (papel de Glenn Close). E, em O Mapa do Mundo (A Map of the World), Julianne exibe uma atuação notável, vivendo uma mãe cuja filha morre afogada e que se afasta de sua melhor amiga, interpretada por uma Sigourney Weaver não menos que primorosa. Mas Julianne Moore destacou-se mesmo devido a duas interpretações antológicas – e muito distintas. Primeiro em Fim de Caso (The End of the Affair), uma adaptação magistral do romance homônimo do escritor inglês Graham Greene (editado em 1951, o romance já havia sido adaptado para as telas cinematográficas em 1955, com Deborah Kerr interpretando a heroína Sarah Miles). Em Fim de Caso, que teve direção de Neil Jordan, Julianne vive a esposa dedicada que se apaixona por um amigo de seu marido. A fita é uma obra de extrema delicadeza, em que a atriz aniquila com a emoção da platéia, sobretudo nas passagens em que assume a narrativa em off (qualquer ator que busque inserir verdade nesse recurso narrativo, deve prestar atenção na honestidade com que Julianne profere as palavras de sua personagem). Impossível não se arrepiar! Assim como é impossível não ficar prostrado a cada entrada de Julianne Moore em Magnólia (Magnolia), seu segundo filme sob as ordens de Paul Thomas Anderson, que já a havia dirigido em Boogie Nights – Prazer sem Limites. Em Magnólia, Julianne interpreta uma mulher que se casa por interesse com um magnata da televisão e é corroída pelo remorso devido ao estado terminal do marido. É sem dúvida uma das melhores interpretações de sua carreira, mesclando compaixão, raiva e desespero num equilíbrio espantoso. Numa fita repleta de personagens no limite, Julianne se dá ao luxo de garantir a cena de maior impacto, quando se indispõe com um farmacêutico desconfiado da quantidade de medicamentos que ela solicita.
E, como não poderia ser diferente a outras atrizes e atores, Julianne Moore trabalhou em algumas produções comerciais e não muito felizes. Logo no início de 2001, ela dividiu a tela com Anthony Hopkins em Hannibal (Hannibal), seqüência de O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs,1991).
Substituindo Jodie Foster (sem prejuízo algum) no papel de Clarice Starling, uma agente do FBI, Julianne acaba sendo o único atrativo do filme. Alías, parecem ser ela e o italiano Giancarlo Giannini as únicas almas dispostas a inserir alguma dignidade a um material indigno e repleto de violência gratuita e, não raro, ridícula. Outra escolha equivocada da atriz foi ter participado da comédia Evolução (Evolution, 2001), que sequer merece algum comentário. Também não merece comentário Chegadas e Partidas (The Shipping News, 2001). No papel de uma mulher torturada arriscando um relacionamento com o personagem de Kevin Spacey, Julianne não evita que esse drama (baseado em romance de E. Annie Proulx) seja perfunctório e dispensável, apesar de um elenco que ainda inclui Judi Dench, Cate Blanchett e Scott Glenn.

 

João Rodolfo Franzoni é jornalista