Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

MEU NOME É JOÃO...
Marco Aurélio Lucchetti



Meu nome é João... João Silva. Sou uma pessoa comum, que tem um nome comum.
Acontece um fato curioso comigo: ninguém repara em mim. É como se eu não existisse.
Meu nome é João Silva, e sou funcionário público. Sou uma pessoa comum, que tem um nome comum e um emprego comum.
Para ser sincero, há apenas uma pessoa que nota minha presença. Ela se chama Bárbara. É secretária; trabalha na minha repartição; e vive me provocando, usando saias muito curtas, blusas decotadas, vestidos abertos nas laterais... Ela me provoca e, em seguida, se retira. Esse martírio já dura três anos... Três longos anos.
Meu trabalho não é notado. Nem ao menos sou convidado para as festas que os colegas costumam realizar nos fins de semana. Sirvo apenas de palhaço para as brincadeiras e as provocações de Bárbara.
Meu nome é João Silva, e sou funcionário público. Sou uma pessoa comum, que tem um nome comum e um emprego comum.
Ontem, aconteceu algo muito desagradável com Bárbara. E eu presenciei tudo, ou melhor, quase tudo.
Ela teve de trabalhar depois do expediente. O chefe pediu que digitasse alguns relatórios que precisavam ser enviados esta manhã para Brasília.
Bárbara saiu da repartição por volta das 19h30. Fazia frio, e uma garoa caía sobre a cidade. A noite, o frio e a garoa de São Paulo me deixam feliz.
Bárbara fez sinal a um táxi. Eu poderia ter-lhe oferecido carona, mas preferi não fazê-lo. O táxi parou. Bárbara entrou no veículo. O táxi partiu. Segui-o. Alguns minutos depois, ele estacionou em frente de um restaurante. Parei meu carro mais adiante. Bárbara pagou o motorista e entrou no restaurante. Esperei.



Nasci no seio de uma família mais ou menos abastada. Meu pai queria que eu fosse igual a ele: engenheiro civil; já minha mãe, que era uma excelente pianista, desejava ver-me maestro. Nunca tive, porém, vocação para nenhuma dessas duas profissões. Sempre gostei de Química; e, desde pequeno, meu sonho era ser químico. Talvez, se tivesse sido químico, todos me notassem. Mas aquilo tinha de acontecer. O fato ocorreu no segundo ano do segundo grau. Estava cansado de nunca ser notado por ninguém. Estava cansado de nenhuma garota interessar-se por mim. Não lembro como começou. Sei apenas que, de repente, estava sobre uma colega da classe. Eu rasgava suas roupas e tentava beijá-la. Ela gritava, desesperada, chamando por socorro. Várias pessoas me seguraram, eu fui levado à sala do diretor. Meus pais foram notificados do ocorrido, e fui expulso do colégio. Fiquei algum tempo numa clínica para pessoas que sofrem dos nervos. Quando saí, tive de parar os estudos, pois escola alguma me aceitava como aluno. Tinha, então, dezoito anos. Nem o Exército reparou em mim: fui dispensado do serviço militar. Fiquei ainda alguns anos sendo sustentado pelos meus pais. Um dia, resolvi prestar concurso para um emprego público. Passei no concurso – enfim, alguém me notara – e comecei a trabalhar.



Meu nome é João Silva, e sou funcionário público. Sou uma pessoa comum, que tem um nome comum e um emprego comum.
Bárbara deve ter ficado mais ou menos quarenta minutos dentro do restaurante. Ao sair, um táxi já a esperava. Segui o táxi. Ele parou em frente do prédio onde Bárbara morava: “Edifício Alvorada”, um edifício branco, de dez ou doze andares.
Parei o carro, aguardei alguns minutos e, depois saí. A garoa aumentara de intensidade. De repente, tudo se escureceu à minha frente, e não vi mais nada. Minha consciência voltou não sei quanto tempo depois. Eu estava numa sala; minhas roupas, sujas de sangue e, em alguns pontos, rasgadas. Caminhei pelo cômodo e entrei num quarto. Levei um choque. Bárbara estava caída no chão, nua. O sangue cobria parte de seu corpo, que fora retalhado por diversas facadas. Uma faca estava cravada em seu peito (teria ela gritado? Se gritara, ninguém a ouvira, pois, até aquele momento, nenhum vizinho havia aparecido). Seria eu o assassino? Ou seria outra pessoa? Eu não sabia o que fazer. Não sabia se fugia ou se ficava ali. Decidi ir embora. Ninguém me viu...



Hoje, por volta das três horas da tarde, alguns policiais foram à nossa repartição. Informaram meus colegas do assassinato de Bárbara e fizeram perguntas sobre ela.
Perguntaram a todos, menos a mim. Parecia que eu não existia. Nem me dirigiram o olhar. Mas por que iriam se importar com uma pessoa comum, que tem um nome comum e um emprego comum...?