Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

A CARREIRA CRIMINOSA DE JIM
Mark Twain
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



Era uma vez um pequeno travesso que se chamava Jim. Geralmente, nos livros escolares, os pequenos travessos chamam-se Dennis; mas este chamava-se assim, apesar da singularidade do fato.
Além disso, a mãe dele não era doente. Não era nenhuma senhora piedosa e tísica que pedia a paz do túmulo e que, ao mesmo tempo, se afligia com a perspectiva de deixar seu querido rebento entregue às perfídias e misérias deste mundo enganador. Ao contrário, era bem forte e absolutamente destituída de qualquer sentimento piedoso. Pouco ou nada se importava com o filho. Costumava dizer que, se o pequeno torcesse o pescoço, não se perderia grande coisa. Mandava-o deitar com um cascudo e nunca o abraçava ou o beijava para desejar-lhe boa-noite. Puxava-lhe, apenas, as orelhas, quando o garoto ia dormir.
Um dia, esse garoto ruim roubou a chave da despensa, entrou nela sorrateiramente e empanturrou-se de ameixas em calda. No momento em que comia o doce, não sentiu nenhum remorso, nem ouviu nenhuma voz interior a murmurar: “Fiz bem em desobedecer à minha mãe? Não será pecado o que acabo de fazer? Para onde vão os meninos que comem com gula os doces de sua mãe?” Não caiu de joelhos, a jurar que não cometeria mais nenhum ato desse tipo; nem correu até a mãe, para contar-lhe o que fizera e pedir-lhe perdão e a bênção, enquanto ela o fitava com os olhos cheios de compaixão. Qual nada! Só nos livros de escola acontece isso! Com Jim, sucedeu outra coisa. Comeu as ameixas e lambeu os beiços, todo satisfeito, rosnando, em sua linguagem grosseira e criminosa, louvores ao doce. Em seguida, despejou alcatrão no pote, lambeu outra vez os beiços e pôs-se a rir, ao pensar nos pinotes que daria a velha ao descobrir tudo. E, quando ela descobriu, ele declarou, com o ar mais inocente do mundo: “Não fui eu, não, senhora.” Levou, então, uma surra de vara de marmelo e fez um tremendo berreiro. Tudo com Jim acontecia ao contrário do que acontece aos travessos Dennis dos livros.
Em outra ocasião, subiu numa árvore do fazendeiro Acord, para roubar maçãs. O galho da macieira não se quebrou. O mau menino não caiu, nem fraturou o braço, nem foi mordido pelo cão de fila do fazendeiro... dessa forma, não ficou nenhuma semana num leito de dor, para arrepender-se de seu ato e jurar regenerar-se. Nada disso! Tirou as maçãs que quis e desceu, com toda a calma da árvore. Realmente, o cão do fazendeiro saiu em sua perseguição, a fim de mordê-lo; mas o garoto, agarrando um tijolo, pôs o animal a correr. Tudo ao contrário do que se lê nesses lindos e instrutivos livros escolares.
Noutra ocasião, apossou-se do canivete do professor e escondeu-o no boné de George Wilson, o menino mais bem-comportado e bom do povoado, que sempre obedecia à sua mãe – a pobre viúva Wilson –, que nunca mentia, que amava estudar e que nunca faltava às aulas da escola dominical. Quando o canivete caiu do boné e o infeliz George baixou a cabeça, corando surpreso, o mestre ficou furioso e, prestes a dar-lhe uma vigorosa reguada nos ombros, acusou-o de delinqüente. Nesse instante, não apareceu nenhum velhinho de cabeça branca e disse: “Deixa esse bom menino! Eis o culpado! Por acaso, eu passava em frente à porta e vi tudo, sem ser visto.”
Portanto, Jim, não foi desmascarado. E o aluno modelo apanhou de régua; e Jim ficou muito contente, já que detestava os meninos bem-comportados. Dizia sempre que era preciso acabar com os maricas. Assim era a grosseria do perverso e malcriado Jim.
Um caso raro sucedeu a Jim num domingo em que foi dar um passeio de bote. O bote não foi ao fundo, e Jim não morreu afogado. Noutro domingo, foi surpreendido por uma tempestade, quando estava pescando, e não caiu fulminado por um raio. O leitor pode folhear todos os livros escolares, da primeira à última página; e não encontrará exemplo de tamanha felicidade. Esses livros dizem que os meninos maus que passeiam de bote aos domingos morrem invariavelmente afogados e que todos os meninos maus que saem para pescar aos domingos são surpreendidos por uma tempestade e morrem infalivelmente fulminados por um raio.
Ignoro, portanto, como Jim conseguiu escapar desses horripilantes tipos de morte.
Talvez fosse porque na vida de Jim houvesse qualquer coisa de mágico. Saía-se sempre bem de suas proezas. Certa vez, chegou até a dar, em vez de pão, um pacote de fumo a um elefante; e o bicho não lhe esmagou a cabeça com a tromba ou as patas! Um dia, procurou no armário a garrafa de licor e não bebeu vitríolo por engano. Num sábado, apanhou a espingarda do pai para ir caçar; e estranhamente a arma não lhe estourou nas mãos, roubando-lhe três ou quatro dedos, como invariavelmente acontece, nos livros de escola, com os garotos malvados. Em certa ocasião, deu um murro na cabeça da irmã; e ela não morreu, alguns dias depois, com doces palavras nos lábios, para aumentar a angústia do criminoso. Não. Não aconteceu nada disso. Jim fugiu para beira-mar e não voltou triste e solitário para encontrar todos os que lhe eram caros a dormir a paz do cemitério e a casa de sua infância destruída por um incêndio. Que nada! Voltou para casa – bêbado como um gambá – e levou uma grande surra.
E cresceu, casou e teve muitos filhos. E, uma noite, abriu a cabeça de todos eles a pauladas, fazendo-os nunca mais aborrecê-lo com choradeiras. E enriqueceu, recorrendo a toda espécie de roubalheira e patifaria. E hoje é respeitado por todos de sua terra natal, sendo deputado pelo seu distrito...