Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

GRAHAM GREENE
Otto Maria Carpeaux



O maior dos convertidos ingleses é Graham Greene. (...) Ele divide suas obras em dois setores: os thrillers sensacionalistas e os romances sérios, de fundo metafísico. Escrevendo thrillers, romances de aventura e policiais, Greene usa os recursos condenáveis desta civilização materialista para denunciá-la. Sua mais severa acusação encontra-se, caracteristicamente, num script de fita cinematográfica, depois transformado em novela: The Third Man. O argumento fundamental da acusação é a fé de Greene: sua ortodoxia católica insiste na corrupção do coração humano pelo pecado original, enquanto a civilização moderna adotou há muito a velha heresia pelagiana, acreditando na perfectibilidade do homem como “natural man”  e no progresso infinito pela ação do homem como “political man”. Greene não acredita nisto nem naquilo. O crime é sua matéria, e o Demônio é seu personagem principal. Desespera da salvação deste mundo assim como está. Sintomas são: a cada vez mais freqüente delinqüência juvenil, as grandes persecuções religiosas (como a ocorrida no México) e a perversão de todos os conceitos morais (...). Eis os ambientes de romances como Brighton Rock, The Power and the Glory e The Heart of the Matter, as obras-primas de Greene. Nesses ambientes, seus personagens percorrem o caminho dostoievskiano para a salvação por meio do pecado; pois a Graça divina é incalculável, apiedando-se justamente de um sacerdote caído ou de um suicida. Infelizmente, Graham Greene nem sempre se mantém nessa altura: querendo revelar a intervenção sobrenatural (da Graça divina) nos destinos humanos, querendo fazer o impossível, isto é, explicar o milagre, cai numa espécie de sensacionalismo religioso. O romance sério vira thriller, os dois gêneros se confundem; e Greene já sentiu, pelo menos duas vezes, a necessidade de modificar o catálogo das suas obras, transferindo uma obra da primeira espécie para a outra categoria e vice-versa. Nenhuma crítica poderia condenar-lhe mais asperamente os processos literários. Greene é romancista “gótico”. Seu mundo noturno de crimes não corresponde à realidade observada; real só é a Graça divina; mas a representação dela transcende as possibilidades da literatura de imaginação humana. 

 

Este texto foi transcrito do livro História da Literatura Ocidental (Rio de Janeiro, Alhambra, 1984, pp. 2217-2218), de Otto Maria Carpeaux