Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

FIM DE CASO
UMA TOCANTE HISTÓRIA DE AMOR

João Rodolfo Franzoni



“Há espaços no coração do homem que ainda não possuem existência, e o sofrimento neles penetra para que possam existir.”
Léon Bloy

 

O Cinema parece jamais se exaurir de nos apresentar histórias de amor marcadas pela melancolia da oportunidade perdida. Desde os tempos em que o som inexistia e intérpretes como Lillian Gish e Janet Gaynor desfilavam suas agruras diante de uma paixão repleta de impedimentos, o tema recebeu diversas variações e rendeu exemplares dos mais valiosos (os melhores são aqueles que procuraram dissecar a gênese dos sentimentos). Assim, de sagas seminais, como as de Casablanca (Casablanca, 1943), Desencanto (Brief Encounter, 1945) e Entre Dois Amores (Out of Africa, 1985), a variações mais cômicas (mas nem por isso menos emocionantes), como A Estranha Passageira (Now, Voyager, 1942) e Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love, 1998), inúmeros filmes nos mostram um homem e uma mulher que descobrem afinidades que jamais supuseram viáveis ou existentes e que não podem vivenciar em sua plenitude todo o amor que sentem um pelo outro. Seja pela existência de outro cônjuge, ou pelo espírito aventureiro em contraste com um desejo de praticidade, ou devido aos códigos morais de uma época, esse homem e essa mulher esbarram em algum entrave para viabilizar plenamente seu romance, deixando a nós, espectadores, profundamente comovidos com seus dramas. E (alguns leitores poderão achar o que vou dizer antiquado ou cafona; porém, pouco importa) a verdade é que parece jamais perder a relevância tentar compreender os mecanismos que esfacelam a coexistência entre duas pessoas apaixonadas. E o filme Fim de Caso é, sem sombra de dúvida, uma das maiores contribuições que a Sétima Arte legou ao público, procurando radiografar a natureza humana quando sufocada por um amor puro e incontestável.
E, nesse caso, o escritor inglês Graham Greene (1904-1991), autor do romance que foi magnificamente adaptado pelo diretor inglês Neil Jordan, sem o receio de soar transgressor ou herético, acusa Deus de ser o responsável direto pelas ações que sepultaram o envolvimento de seu alter ego, o escritor Maurice Bendrix (Ralph Fiennes), com Sarah Miles (Julianne Moore), esposa de um amigo seu (Stephen Rea), na Londres marcada pelos bombardeios alemães, durante a Segunda Guerra Mundial. A fita começa com Maurice despejando, nos papéis sobre a mesa, toda sua ira. Sarah, a mulher que tanto amou e que há mais de um ano o abandonou sem nenhuma explicação, levanta no marido as suspeitas de ter um (novo) amante. Maurice, que visivelmente carrega as cicatrizes decorrentes desse final de relacionamento, empenha-se em descobrir a verdade, contratando, em nome do amigo, um detetive (Ian Hart, ótimo no papel) para sondá-la. Em flashbacks, o caso de ambos é devassado numa intensidade sexual que raramente se dispõem a empregar em histórias que se prestam a desvendar o amor. Ao contrário de nulidades como Cold Mountain (2003), de Anthony Minghella, que se acomodam numa dimensão épica e permitem que seus atores se entreguem ao preciosismo, em Fim de Caso o menor dos gestos, o mais prosaico dos impulsos e o mais envergonhado e ressentido dos olhares são mostrados com um primor reverenciável, não somente pela ação do diretor de fotografia Roger Pratt (ele foi o responsável pela fotografia de Batman, realizado em 1989 por Tim Burton) como pela direção precisa, fazendo-nos compadecer do drama vivido por Bendrix e Sarah.
Bendrix, um ateu convicto (seu ateísmo o faz, inclusive, revoltar-se contra as convicções religiosas que tentam lhe apresentar) que nunca é visto sorrindo, seria o mais improvável dos românticos; porém, é incapaz de desmentir sua legítima paixão por Sarah. Ela, por sua vez, é uma mulher amável, que não sente nada pelo marido a não ser uma profunda compaixão e amizade. E ambos entregam-se a uma relação em que cada encontro é valorizado ao máximo, em que o erotismo brota sem que a câmera intervenha para enfeitá-lo ou tratá-lo com um artificialismo apelativo, como aquelas cenas protagonizadas por Sharon Stone em diversas (com o perdão da palavra) porcarias marcadas pela exploração. Ao tratar a simbiose entre o casal como algo tão verossímil, o filme não economiza na força, sobretudo quando as razões para o tal fim de caso anunciado pelo título vão sendo reveladas à platéia.
Aliás, é essa passagem que permanece nas lembranças dos espectadores e coroa Fim de Caso. São nesses momentos que a personagem de Julianne Moore assume a narrativa em off (Julianne, uma atriz de semblante tão magnífico ao expressar tanto candura quanto desespero, acrescenta aqui aos seus predicados uma intensidade arrepiante para declamar dor); e suas palavras ganham uma dimensão tão lancinante que fica impossível até para o espectador mais empedernido conter as lágrimas ou segurar um soluço. São instantes realmente memoráveis. Instantes em que nós testemunhamos uma intérprete em absoluto estado de graça. Nessa seqüência, em que os dois amantes estão num quarto de pensão, numa calma delicadamente forjada, Sarah não tem coragem de anunciar que aquele é o último encontro deles; mas Bendrix acaba compreendendo tudo e diz que, deixando de se verem, deixarão de se amar. Ela replica: “Amor, Maurice, não acaba só porque deixamos de nos ver um ao outro!” E, na cena seguinte, quando Sarah caminha fragilizada, em meio aos destroços causados pelas bombas despejadas pelos aviões nazistas, e finalmente derrama as lágrimas que conteve com tanto custo, presenciamos uma musa dando vida a uma tela das mais valiosas. Existem imagens cinematográficas que nos recusamos a apagar de nossas lembranças. Essa é uma delas, ainda mais quando ouvimos Sarah dizer que está condenada a uma espécie de morte em vida.
E a música de Michael Nyman merece um capítulo à parte. Responsável também pelos belíssimos acordes de O Piano (The Piano, 1993) o compositor inglês atinge o ápice em partituras de impacto assombroso, logo no início. E cada nota, cada som encaixa-se à perfeição em cada momento do filme, não deixando de ser um complemento necessário. E é a música que torna mais real, mais verossímil cada instante de Fim de Caso (um exemplo disso é a cena em que Bendrix encontra a persuasão necessária para crer em Deus, ainda que essa crença venha cercada de revolta e uma reverência indesejada).
E, numa época em que histórias de amor se tornaram tão diluídas, idealizadas e oferecidas como item de consumo para um público habituado a desligar o cérebro para qualquer questionamento mais sério, Fim de Caso ressoa inquestionavelmente como uma pérola que alcançará sua posição de obra-prima daqui a alguns anos, ao contrário de Pelo Amor de Meu Amor (1955), a primeira versão filmada dessa mesma história, dirigida por Edward Dmytryk e com Deborah Kerr e o inexpressível Van Johnson nos principais papéis.
Em Fim de Caso, nada parece datado ou mal utilizado. Com o amparo de colaboradores impecáveis, Neil Jordan moldou um filme clássico, inquestionável em sua beleza e acachapante em sua discussão sobre o amor, mesmo recorrendo (bem sutilmente) a implicações de ordem sobrenatural. Responsável por obras importantes como A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves, 1984), Mona Lisa (Mona Lisa, 1986) e Traídos pelo Desejo (The Crying Game, 1992), o cineasta (nascido em 1950) transita por obras e gêneros bem distintos; e, ainda que não tenha (por enquanto) atingido um consenso, Fim de Caso é sua obra máxima. E não é exagero dizer que, desde as agruras de Maurice e Sarah, nenhum outro filme foi capaz de nos oferecer uma história de amor de estrutura clássica tão portentosa, marcante e, sobretudo, comovente. 

 

Fim de Caso (The End of the Affair, 1999, 101')
Direção e Roteiro: Neil Jordan
Elenco: Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea, Ian Hart, Jason Isaacs, Samuel Bould
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Columbia

 

João Rodolfo Franzoni é jornalista