Ano 2 - nº 7 - julho/setembro 2010

DESAFIO À CORRUPÇÃO
Eurico da Costa



É caso para se perguntar como é que das mãos de um cineasta rotineiro como Robert Rossen pôde sair um filme que é um grito de inconformismo e audácia, uma severa apreciação de uma sociedade obcecada pelo sucesso fácil. Desafio à Corrupção descarna alguns dos processos íntimos de uma estrutura social que, ignorando o verdadeiro significado do homem e da sua presença, lhe oferece um sucesso fácil e anódino, em que a glória tem o peso do que ele vale em metal sonante.
Não seria difícil traçar um paralelo entre o jovem jogador de bilhar que vagueia de cidade em cidade, à procura de competidores para vencer, transportando sob o braço o estojo que protege o seu taco pessoal, com o gunfighter que corria os saloons do Velho Oeste em busca dos homens célebres que manejavam, como virtuosos, o Colt 45, para em duelo de morte conquistar a fama.
A ambição desmesurada do jovem bilharista Eddie Felson esbarra na astúcia do velho campeão do taco, Minnesota Fats, grão-senhor do pano verde nos bas-fonds da grande cidade. O duelo. As pancadas secas das bolas de marfim são como intermináveis tiros de Winchester pela noite afora... Os espectadores são os mesmos do Far-West. O jogo movimenta capitais; tem de se alcançar, por meio da glória ou da derrota dos jogadores, o big money ou o banco do jardim. Ou tudo ou nada. O extremismo das situações, num ambiente onde não há lugar para meios-termos.
A derrota do jovem bilharista é a sua primeira grande lição, na qual aprende o segredo do comportamento numa sociedade que não respeita a desenvoltura desinteressada dos seus componentes: lutar sem uma finalidade (...) material é heresia, o meio caminho para a derrota; lutar apenas por um jogo de emoções ou pelo prazer gratuito de se intitular o melhor não basta. É preciso aniquilar física e materialmente o adversário e obter da sua destruição o melhor proveito palpável.
Assim o sabe e pratica esse misto de Iago e Tartufo ianque que é o empresário dos bilharistas. Em suas mãos, o jovem Eddie é um material fácil de manejar: ele conhece os cordéis que deve manejar para despertar no jogador a fúria que o levará a vencer... e a destruir-se.
Mas Eddie vagueia agora entre o confronto que se oferece: de um lado a contradição da sua “carreira” profissional; do outro a primeira descoberta amorosa, por intermédio do ser lúdico e desesperado que é Sarah Packard, complexada pela sua deformação física e buscando no mundo um valor que represente com autenticidade o homem – o amor.
O desprevenido Eddie Felson só descobre o verdadeiro significado da sua existência quando a catástrofe desaba sobre ele: Sarah (...) suicida-se, “torturada, aleijada, pervertida” (...).
(...) a vitória de Eddie só foi encontrada por meio da morte de Sarah – e o preço, para ele, foi agora mais elevado. (...)
Na linguagem nervosa e vibrante de todo o filme, no qual brilha a magistral interpretação de Piper Laurie, assistimos ao último ato – o derradeiro combate entre Eddie e aquilo em que ele acredita. Mas ganhou a partida já derrotado, porque o autêntico valor que agora pesava era irrecuperável.

 

Desafio à Corrupção (The Hustler, 1961, 135')
Direção: Robert Rossen
Roteiro: Robert Rossen & Sidney Carroll, baseando-se num romance de Walter Tevis
Elenco: Paul Newman (Eddie Felson), Piper Laurie (Sarah Packard), Jackie Gleason (Minnesota Fats), George C. Scott (Bert Gordon), Myron McCormick (Charlie Binns), Murray Hamilton, Michael Constantine
Disponível no Brasil em DVD duplo
Distribuidora: Fox

 

Esta crítica foi publicada originalmente no Programa de maio/junho de 1965 do Cineclube do Porto