Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

A DIVINA CYD CHARISSE
Marco Aurélio Lucchetti



“Primeiro houve Ginger Rogers, que nos anos 1930 parecia capaz de harmonizar cada um de seus movimentos aos de seu partner, Fred Astraire. Depois vieram Eleanor Powell e seu incrível sorriso, Ann Miller, ou mesmo a rainha das piscinas, Esther Williams. Com aquela energia de cheerleader (...), elas comandavam a sensualidade ligeira e arrebatadora dos grandes musicais (...), como que mostrando ao mundo a vitalidade da cultura americana. Depois é que veio Cyd Charisse. Se Cyd Charisse começou a surgir nos anos 1940, inclusive com uma breve aparição em Ziegfeld Follies, na versão de 1946, foi na década seguinte  que impôs seu tipo. Em vez de bailarina agitada de tantos musicais, o que se via na tela era a imagem (...) de uma mulher em que beleza e mistério se equivaliam.”
Inácio Araújo

 

Devo confessar que não sou um fã de filmes musicais.
Eles me entendiam, já que têm um fiozinho de história, fiozinho de história esse que serve tão-somente para ligar os intermináveis números musicais.
É óbvio que existem musicais que são uma exceção e estão entre os filmes que revejo sempre (alguns estão, inclusive, entre meus filmes preferidos). Como exemplos posso citar: Escola de Sereais (Bathing Beauty, 1944), no qual se pode ver toda a graciosidade de Esther Williams como nadadora; O Show Deve Continuar (All That Jazz, 1979), cuja seqüência final, em que o coreógrafo, diretor de teatro e cineasta Joe Gideon (interpretado por Roy Scheider) se despede apoteoticamente da vida e vai ao encontro da Morte (vivida por uma deslumbrante Jessica Lange); Flashdance – Em Ritmo de Embalo (Flashdance,  1983), possivelmente a única fita que conseguiu incorporar de maneira perfeita a estética do videoclipe à linguagem cinematográfica; o provocante e cheio de glamour Nine (Nine, 2009), que, tendo como protagonista um cineasta (representado por Daniel Day-Lewis) que passa por uma crise pessoal e profissional, é – pode-se dizer – uma versão musicada de Oito e Meio (Otto e Mezzo, 1963), de Fellini; e Meias de Seda  (Silk Stockings, 1957), o último filme do diretor Rouben Mamoulian.
Devo confessar também que uma das razões de Meias de Seda ser um de meus filmes preferidos é por ele ser estrelado pela dançarina e atriz Cyd Charisse (1921-2008).
Muitos que estão lendo este texto certamente nunca ouviram falar de Cyd Charisse. Ou nunca viram de seus filmes (infelizmente, a maior parte deles é descartável e não foi lançada aqui no Brasil em DVD). Para estes e aqueles recomendo que assistam, por exemplo, a Meias de Seda e A Roda da Fortuna (The Band Wagon, 1953), a fim de que comprovem o que vou dizer a seguir.
Morena, alta, elegante, sensual e dona de um corpo exuberante, Cyd Charisse era fabulosa e inigualável como dançarina. Era a própria encarnação de Terpsícore, a Musa da Dança. Ou melhor, dizendo: se houve algum dia uma deusa da Dança, ela atendia por Cyd Charisse.
Não existiu em tempo algum, em Hollywood, outra dançarina como Cyd Charisse. Ela amava a Dança.
E pelo menos três números de dança de Cyd Charisse são clássicos e merecem figurar entre os Grandes Momentos do Cinema: “Broadway Melody Ballet”, de Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952), no qual ela interpreta a garota de um gangster, aparece segurando uma longa piteira e usando um sexy vestido verde, exibe um corte de cabelo à la Louise Brooks e dança ao lado de Gene Kelly; “Dancing in the Dark” de A Roda da Fortuna, em que, ao lado de Fred Astaire, caminha pelo Central Park e, aos poucos, seus passos vão se convertendo em dança (é uma seqüência verdadeiramente memorável e que, além do mais, tem poucos cortes); e “The Girl Hunt Ballet”, também de A Roda da Fortuna, no qual representa uma vampe e contracena mais uma vez com Fred Astaire, que desempenha o papel de um detetive particular visivelmente inspirado nos personagens criados pelo escritor Mickey Spillane.
E, vendo Cyd Charisse dançando, temos a plena certeza de que Deus existe. E temos também consciência de que Ele criou mulheres como ela para dar um pouco de encanto a este mundo em que há tanta dor e sofrimento.