Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

COMO ME INTERESSEI POR CINEMA
Sílvio C. Pereira



Era o ano de 2006. Provavelmente o primeiro semestre.
De repente, surgiu uma luz. Embora estivesse na sala de minha casa, consegui vê-la; e ela me atingiu e instantaneamente mudou algo em meu ser.
Não foi nada disso.
A verdade é que, desde 2006, o Cinema se apresentou para mim como um novo mundo a ser explorado.
Sempre gostei de ver filmes. E minhas primeiras recordações cinematográficas remontam ao finalzinho da infância e princípio da adolescência – hoje, aos 37 anos de idade, vejo se distanciar essa época. Então, freqüentava os cinemas situados no centro de Ribeirão Preto, minha cidade natal: Bristol, Centenário e Plaza (além desses três, havia outros dois, Comodoro e São Paulo, que exibiam filmes pornográficos). Freqüentava também os modestos (emprego esse termo porque eram menos espaçosos e confortáveis que os do centro) Center I, II e III, no Ribeirão Shopping, inaugurados no começo da década de 1980.
Dos filmes que vi nos cinemas do Ribeirão Shopping, Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters), lançado em 1984, é o de que me lembro melhor. A trilha sonora desse filme ficou, durante várias semanas, em minha cabeça. E é incrível: neste momento, surgem – fresquinhas em minha mente – as imagens do público saindo do cinema, ao final da sessão, enquanto os créditos ainda apareciam na tela e a música principal do filme ecoava porta afora.
No Centenário, que se localizava em frente à Praça Carlos Gomes (atualmente, no local onde ele estava instalado, há um supermercado), vi inúmeros filmes.
Na época, meados dos anos 1980, o programa dos adolescentes, nas noites de sábado, era ir ao cinema. Então, eu me reunia com meu irmão e alguns amigos; e partíamos para aquela aventura.
Transporte? Ônibus, pois o dinheiro era curto. Naquele tempo, havia duas sessões à noite: a das 20 e a das 22 horas. Exibiam o mesmo filme. E invariavelmente nós ficávamos até a metade ou pouco mais da metade da segunda sessão. Ficávamos aguardando os melhores momentos dos filmes, a fim de revê-los e observar a reação do público da sessão das 22 horas. Vi A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984) e suas várias seqüências. Vi também filmes em terceira dimensão (3-D), com óculos distribuídos na bilheteria do cinema. E, dentre os filmes que marcaram minha adolescência, posso destacar: Karatê Kid – A Hora da Verdade (The Karate Kid, 1984) e suas duas continuações; as fitas da série Sexta-Feira 13; alguns filmes com Sylvester Stallone [Rambo – Programado para Matar (First Blood, 1982), Rocky 4 (Rocky 4, 1985) e Stallone – Cobra (Cobra, 1986), ao qual assisti no Plaza (o cinema ficou superlotado nas primeiras semanas em que exibiu esse filme; e só achei lugar no corredor, no chão)]; Conan, O Destruidor (Conan the Destroyer, 1984), O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984), Comando para Matar (Commando, 1985) e O Predador (Predator, 1987), estrelados pelo grandalhão Arnold Schwarzenegger; A Hora do Espanto (Fright Night, 1985); Uma Noite Alucinante (The Evil Dead 2, 1987)...
Recordo-me de uma vez que meus amigos foram assistir, no Cine Bristol, na Rua São Sebastião, a um filme do cineasta japonês Akira Kurosawa. Eu não estava com eles nesse dia. O filme era Ran (Ran, 1985). Meus amigos detestaram a fita. Saíram no meio da sessão. Nunca saí do cinema antes do término do filme. Vai ver sou otimista; gosto de dar ao filme a oportunidade de me seduzir, nem que seja por uma única cena ou fala.
Bom, chegamos a 2006. Eu gostava de ver filmes no cinema e na tevê. Então, só havia as salas de projeção dos três shoppings de Ribeirão Preto (Ribeirão, Novo Shopping e Santa Úrsula), uma vez que todos os cinemas do centro tinham sido fechados.
No domingo, à noitinha, tinha nos filmes exibidos na tevê a oportunidade de livrar o pensamento da segunda-feira que se avizinhava e encerrar o final de semana vendo uma fita de Aventura na telinha. Gostava de ver o Steven Seagal, em filmes como Díficil de Matar (Hard to Kill, 1990) e Fúria Mortal (Out for Justice, 1991), surrando vagabundos e traficantes. Não me importava que fosse a reprise da reprise.
Até então, não pensava em colecionar filmes. Apenas alugava, como faz a maioria das pessoas. Era inconcebível comprar um filme (em VHS ou DVD), para ficar eternamente com ele. Eu pensava: “Se já assisti, de que me serve pagar ‘n’ vezes o preço de uma locação? De que me adianta ter um filme que já vi?”
Nunca havia comprado um único filme. Por outro lado, não tinha conhecimento cinematográfico suficiente para escolher os melhores filmes para ver. Desse modo, alugava cada “bomba”! Quer dizer, hoje eu classifico assim esses filmes. Na época, eu não me importava que eram fitas inconseqüentes de Ação e Aventura.
De repente, comprei um filme em DVD. Chamava-se A Vila (The Village, 2004). Eu nem tinha um DVD player – estava adepto ainda do VHS. Rodava o DVD no drive do computador.
Aí surgiu, vinda aparentemente do nada, a idéia. Acho que foi ao ver um comercial na televisão, divulgando vários filmes da Warner em DVD. Eram filmes de Ação: Cobra, Conspiração Tequila (Tequila Sunrise, 1988), O Especialista (The Specialist, 1994)... Fui a uma loja no shopping, que tem um grande acervo de filmes em DVD. Fui, então, apresentado ao Cinema, tal como o compreendo hoje.
Recebi inúmeras sugestões de filmes do funcionário que me atendeu. Ele me falou de filmes que eu nunca ouvira falar.
Daí, comecei a vasculhar o acervo ali exposto. Com o passar do tempo, fui aprofundando meu interesse pelo Cinema e revendo meus conceitos a respeito da Sétima Arte. Nunca assistira a um filme de Alfred Hitchcock, o mestre de Suspense. Se me perguntassem o nome de um filme desse diretor, não saberia dizer. Na verdade, acho que nem sabia que Alfred Hitchcock era o nome de um diretor. As reminiscências me autorizam a afirmar que esse nome era por mim associado a um senhor chato que fazia alguma coisa na televisão. Quanta ignorância!!!
E quanto a Humphrey Bogart? Ou somente Bogart? O que lembrava esse nome? Sei lá. Parece que eu sabia que Bogart era o nome de um ator que havia trabalhado em Casablanca (Casablanca, 1943), mas nunca tinha assistido a esse filme.
Achava que era uma fita chata ao extremo.
E o filme ...E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939)? Nunca tinha visto. E lembro-me de que, sempre que ele era exibido na tevê, dava para fazer muitas coisas durante sua exibição. Eu zapeava do primeiro ao último canal; e lá estava ...E o Vento Levou, firme e forte.
Também nunca havia assistido a Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941).
Eu não gostava de filmes em preto-e-branco.
O filme em preto-e-branco tem um público reduzido, creio. Talvez os filmes de Charles Chaplin sejam os únicos em preto-e-branco que conseguem atrair um público maior, pois é difícil não gostar de fitas que fazem rir e/ou chorar. Na infância e na adolescência, assisti, com meus pais, a vários filmes do Chaplin.
Eu disse que “não gostava de filmes em preto-e-branco”. Porém, tenho de confessar que, hoje, eles são os meus preferidos. Para mim, a fotografia em preto-e-branco supera as possibilidades que a colorida pode proporcionar. Exemplos disso são os filmes Noir, que tanto aprecio. Drácula (Dracula, 1931), com Bela Lugosi, não seria tão impressionante se tivesse sido produzido em cores. A enorme teia de aranha no teto do castelo de Drácula e a cordilheira que separa a carruagem do castelo, vistos em preto-e-branco, criam um efeito verdadeiramente espetacular.
Coincidência ou não, para mim, os grandes filmes, os principais clássicos da Sétima Arte, são em preto-e-branco: Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934), Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944), Gilda (Gilda, 1946), Prisioneiro do Passado (Dark Passage, 1947)...
Nos últimos três anos, venho recuperando o tempo perdido, pois comecei a voltar o olhar para os verdadeiros grandes filmes, que valem a pena ser vistos e revistos. E tenho de admitir que aprendi muito mais sobre Cinema nesses três anos do que no resto de minha existência.
Também me tornei mais exigente com as características da mídia que contém o filme. Widescreen, em vez de Fullscreen; áudio 5.1, em vez de 2.0; dublagem bem-feita; cópia restaurada; material extra, a fim de ampliar o conhecimento sobre a produção, a História do Cinema...
Hoje, busco descobrir e ver “as pérolas” da Sétima Arte. Entretanto, o modo antigo de ver Cinema foi útil numa fase da minha vida, porque foi por meio dele que tomei gosto pelos filmes. Portanto, guardo no coração e na mente aquela época. Tenho muito respeito por ela. E, afinal de contas, a vida consiste em acumular conhecimento e experiências.
Para terminar, dedico este meu artigo à memória de minha alma gêmea, Denise de Oliveira Veneziano. A maioria das pessoas se apaixona 1001 vezes por 1001 pessoas. Se me apaixonei mais de uma vez, foi pela mesma pessoa: minha amada Denise.

 

Sílvio C. Pereira é cinéfilo