Ano 2 - nº 7 - julho/setembro de 2010

AL CAPP, O MAIOR ESCRITOR DO MUNDO
John Steinbeck
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



Escrevo estas linhas de um lugar que nós, norte-americanos, damos o nome de Yurrp. Aqui, escritores são levados tão a sério quanto as pernas da atriz Lana Turner, o que é uma situação um tanto ridícula.
Constantemente, yurrpanos magros e famintos me pedem que lhes diga quem é, na atualidade, o melhor escritor dos Estados Unidos; e não penso em outro nome a não ser o de Al Capp.
Quando eu falo isso, ocorre  um alvoroço e os yurrpanos perguntam: “Mas ele não é um autor de histórias em quadrinhos? Como pode uma história em quadrinhos ser considerada LITERATURA (em Yurrp, eles sempre escrevem essa palavra com letras maiúsculas)?”
Bem, como podemos saber o que é Literatura ou o que será considerado Literatura no futuro? Dante escreveu um longo texto em versos; e seus contemporâneos sorriram com desdém, achando possivelmente que aquilo não era Literatura. Tudo porque não tinha sido escrito em Latim; e sim em Italiano, uma espécie de língua “baixa”, que somente o povo falava.
Como diabos podemos saber o que é Literatura? Em minha opinião, Literatura é aquilo que está escrito e diverte, comove, instrui, modifica e critica pessoas. E quem no mundo faz isso melhor que Al Capp?
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Penso que, hoje, Al Capp pode ser possivelmente o melhor escritor do mundo. Estou certo também de que ele é o maior autor satírico desde Laurence Sterne, que escreveu o admirável The Life and Opinions of Tristam Shandy.
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Uma coisa é criticar, outra bem diferente é fazer com que a crítica seja aceita e apreciada com deleite. Antes de Al Capp, apenas Cervantes e Rabelais conseguiram isso.
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Al Capp criou um universo. Seu herói, o grandalhão, forte, bonito, inocente e iletrado Li’l Abner, é o arquétipo dos jogadores de futebol pelos quais nossas filhas se apaixonam a cada outono. Sua heroína, a inocente, estúpida, linda, fiel e sempre escassamente vestida (devemos lembrar que ela é pobre e não tem dinheiro para gastar com roupas) Daisy Mae, é a garota dos sonhos de todos os adolescentes. A mãe de Li’l Abner, mulher baixinha, rígida e exímia lutadora, é a administradora da família e da comunidade. Quanto ao pai de Li’l Abner, é, apesar de sua ignorância e inépcia, um sujeito adorável. Esses e todos os demais habitantes da fictícia cidade de Dogpatch são por demais reais para nós.
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Reafirmo que penso que Al Capp é provavelmente o maior escritor contemporâneo; e, se o comitê do Prêmio Nobel presta atenção às coisas, deve seriamente levar em consideração essa minha opinião.

 

Este texto, publicado originalmente no álbum The World of Li’l Abner (Nova York, Ballantine Books, 1952), foi traduzido de Li’l Abner volume 18 (Northampton, Kitchen Sink Press, 1994, pp. 5-6)