Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

SOB O DOMÍNIO DE EROS - O EROTISMO NOS QUADRINHOS - PARTE 2
Marco Aurélio Lucchetti



EROTISMO MADE IN FRANÇA

Em 1956, era lançado um dos filmes mais eróticos de todos os tempos: E Deus Criou a Mulher (Et Dieu Créa La Femme), dirigido por Roger Vadim e estrelado por Brigitte Bardot.
Após essa fita, o Cinema, ou melhor, o mundo, nunca mais seria o mesmo. Tudo por causa da personagem interpretada por Brigitte, Juliette, uma jovem dotada de uma sensualidade que inebria e confunde os homens, uma jovem que não se importa com o que os outros irão pensar ao vê-la tomando banho de sol nua, uma jovem ao mesmo tempo maliciosa e ingênua. E essa personagem iria influenciar a criação de grande parte das figuras femininas que surgiria, na década seguinte, nos quadrinhos europeus.
Barbarella (1962) foi a primeira personagem dos quadrinhos visivelmente inspirada em Brigitte Bardot/Juliette.
Criada pelo francês Jean-Claude Forest, Barbarella é uma jovem terrestre que viaja pelo espaço em busca de novas experiências; possui longos cabelos dourados, um rosto provocante e uma grande disposição para fazer sexo, não se importando em ter relações com um homem ou um robô. Não sente vergonha de ficar nua; daí, seus constantes desnudamentos. E, segundo seu criador, “não tem moral, só princípios”.
 A partir de Barbarella, foram produzidas na França uma série de histórias em quadrinhos eróticas – em compensação, nos Estados Unidos estavam sendo realizadas diversas histórias em quadrinhos românticas (The Heart of Juliet Jones, Mary Perkins on Stage, Apartment 3-G, entre outras) –, protagonizadas, em sua maioria por mulheres: Scarlett Dream (1965), de Claude Moliterni & Robert Gigi; Les Aventures de Jodelle (1966) e Pravda La Survireuse (1968), desenhadas por Guy Peellaert, num estilo fortemente influenciado pela arte pop; Lolly-Strip (1966), de Danie Dubos & Georges Pichard; Blanche Épiphanie (1967), de Jacques Lob & Georges Pichard; Saga de Xam (1967), um delírio gráfico produzido por Nicolas Devil a partir de um roteiro do cineasta Jean Rollin, um especialista em dirigir filmes que misturam terror e erotismo; Epoxy (1968), escrita por Jean Van Hamme e desenhada por Paul Cuvelier (segundo o jornalista Goida, Cuvelier “foi por toda a vida um infatigável desenhista do corpo humano e da natureza, dentro de um estilo elegante e sensual”. Ele criou, em parceria com o roteirista Greg, aquela que, na opinião do crítico e escritor Jacques Sadoul, é “uma das heroínas mais eróticas dos quadrinhos de expressão francesa”: a nymphette Line); Paulette (surgida em 1970, com roteiro de Georges Wolinski e desenhos de Georges Pichard), que, a exemplo da norte-americana Little Annie Fanny (criada em 1962 por Harvey Kurtzman e Will Elder para a revista Playboy), faz uma crítica ácida à sociedade de consumo, relatando as peripécias de uma exuberante e rica herdeira perdida num mundo infestado de pessoas abjetas que só desejam roubá-la ou possuírem-na; Xiris (1970), um belíssimo e pouco conhecido trabalho de Serge San Juan...



UM PANORAMA DOS QUADRINHOS ERÓTICOS DA DÉCADA DE 1980
AOS NOSSOS DIAS





Os anos 1980 foram bastante prolíficos para os quadrinhos eróticos, sobretudo na Europa: o italiano Guido Crepax, criador de três musas da História em Quadrinhos – Valentina (1965), Bianca (1968) e Anita (1971) – e adaptador de três clássicos do erotismo literário (História de O, Emmanuelle e Justine), quadrinizava Drácula (baseada no romance escrito por Bram Stoker) e O Médico e o Monstro (uma adaptação da famosa história de Robert Louis Stevenson), enfatizando as cenas eróticas; Milo Manara, um ex-aluno do escultor espanhol Miguel Berrocal, produzia duas obras-primas do erotismo quadinhístico, Clic (1983) e O Perfume do Invisível (1986); Martin Veyron realizava O Amor Próprio (1983), que aborda a incompreensão entre os sexos e, principalmente, o enigma insondável (pelo menos para os homens) do prazer feminino; os irmãos Alex e Daniel Varenne estavam no apogeu de suas carreiras, produzindo incessantemente histórias em quadrinhos carregadas de sensualidade e erotismo; Georges Pichard e Lo Duca mostravam, em A Condessa Vermelha (1985),  a vida da condessa Erzsébet Bàthory, uma húngara cruel que tinha obsessão pela juventude de seu corpo (ela acreditava que banhar-se constantemente com o sangue de jovens donzelas poderia garantir-lhe a juventude eterna); Phillipe Bertrand produzia Linda Adora Arte (1985); Georges Lévis e Francis Leroy realizavam As Pérolas do Amor (1985), uma deliciosa paródia erótica das fotonovelas românticas publicadas em revistas como Grande Hotel; o veterano Paul Gillon escrevia e desenhava, a partir de uma idéia de Claude Maggiori, o primeiro episódio de A Sobrevivente (1985), uma história em quadrinhos em que erotismo e ficção científica  se unem com muita harmonia; era criada a voluptuosa Druuna (1985), cujo visual padrão foi baseado, de acordo com as palavras de seu criador, Paolo Eleuteri Serpieri, “nas fotos de uma modelo que posou para a Playboy brasileira” (a modelo em questão é Ana Lima, cujas fotos, tiradas por Paulo Vainer e produzidas por Dulce Pickersgill, foram publicadas em abril de 1989, no número 165 da edição brasileira da Playboy); surgia, inspirada em Little Nemo in Slumberland (de Winsor McCay), Little Ego, que narra as histórias da sonhadora Ego (todos os seus sonhos são eróticos), uma criação de Vittorio Giardino; Custer (1984) e Sarvan, desenhadas soberbamente por Jordi Bernet, deleitavam os leitores espanhóis; o argentino Horacio Altuna produzia um de seus melhores trabalhos, Fantasmagorias (publicado em 1988 pela editora francesa Dargaud), uma coletânea de seis histórias curtas (todas escritas pelo talentoso Carlos Trillo), cujo tema central, é como bem disse o crítico Edgard Luiz de Barros, num artigo publicado em janeiro de 1990 no Jornal da Tarde, “a solidão dos personagens, entrelaçada quase sempre com (...) distorções sexuais”...








Também foi na década de 1980 que Leonard Starr e Stan Drake criaram uma das mais sensuais personagens femininas do moderno quadrinho norte-americano: Kelly Green, protagonista de cinco histórias publicadas em álbuns pela Dargaud.
Na atualidade, histórias em quadrinhos eróticas que merecem ser destacadas são as produzidas pela italiana Giovanna Casotto, que os leitores brasileiros descobriram que existia graças ao álbum Giovanna, lançado em 2006 pela Conrad Editora.
Envolvida com os quadrinhos desde 1994, Giovanna Casotto ficou famosa por desenhar histórias eróticas – e explícitas – em que ela própria é a estrela principal (para tanto, tira fotos de si mesma; e, mais tarde, essas fotos servem de base para seus desenhos).




Também devem ser destacadas as histórias em quadrinhos, ou melhor dizendo, os mangás eróticos de Senno Knife, de quem o site sequentialtart.com disse o seguinte: “A arte de Senno Knife é maravilhosa! Suas personagens são bonitas demais para palavras. O sexo não é explícito, mas revela muito mais do que se fosse.” E, para criar seus mangás (parte deles está reunida em dois volumes, Sade e Tempest, publicados no Brasil pela Conrad), Senno Knife baseia-se em histórias escritas pelo Marquês de Sade, Pauline Réage, William Shakespeare, Hans Christian Andersen, Leopold Von Sacher-Masoch, Victor Hugo e os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm.