Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

SHORT CUTS - CENAS DA VIDA
O ATESTADO NOTÁVEL DE UM CINEASTA CÍCLICO E JAMAIS RANÇOSO

João Rodolfo Franzoni



Permanecer no topo ou manter intacta sua relevância, dentro de uma indústria cíclica, volúvel e até mesmo maníaca, como é a indústria cinematográfica hollywoodiana – repleta de inúmeros artistas prestigiados, valiosos ou pretendentes à mínima das honrarias –, é uma proeza que poucos experimentam. E, com o diretor Robert Altman (ele nasceu em 1925; e o primeiro filme que dirigiu foi o pouco conhecido Os Delinqüentes/The Delinquents, realizado em 1957 e rodado em Kansas City), não foi diferente.

Considerado na década de 1970 como um dos cineastas mais criativos dos Estados Unidos, num período em que despontavam nomes como Hal Ashby, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Martin Scorsese e Steven Spielberg, Robert Altman alternou projetos bem-sucedidos com outros nem tanto; mas sempre se manteve leal à alcunha de iconoclasta. M*A*S*H*, de 1970, foi seu primeiro filme a chamar a atenção e deu um novo sentido à palavra irreverência. A fita tem uma narrativa caótica, ou melhor, não tem um foco narrativo definido, limitando-se a fazer a radiografia de uma unidade médica móvel norte-americana na Coréia do Sul durante a Guerra da Coréia (junho de 1950-julho de 1953), num registro irreverente até então impensado para um filme de Guerra. Um dos seus achados, aliás, é criticar a forma (ingênua e acéfala) como o cinema norte-americano vinha mostrando as guerras em que os Estados Unidos tomaram parte. E faz isso por meio dos filmes patrióticos que são exibidos aos combatentes – homens mais interessados em jogar cartas e atazanar uma enfermeira moralista – no front.
Depois de M*A*S*H*, Robert Altman realizou algumas obras importantes, merecendo destacar: Quando os Homens São Homens (McCabe & Mrs. Miller, 1971), talvez o mais desencantado western já produzido em Hollywood e dotado de uma estranha beleza poética; e Imagens (Images, 1972), com a magnífica Susannah York interpretando uma mulher que mistura a realidade com sonhos e alucinações. Porém, Nashville (Nashville, 1975) foi a obra que iria consagrá-lo definitivamente e moldar seu cinema. O filme focaliza um festival de música country (Nashville, capital do Tennessee, é considerada o berço desse estilo musical) e apresenta um desfile de mais de vinte personagens, que aparentemente não têm nada em comum entre si e que irão se cruzar em algum ponto da narrativa. Altman atropela  diálogos, deixa a câmara passear como se não tivesse freios; no entanto, sua precaução em concentrar a narrativa num determinado ambiente garante uma harmonia impressionante. Isso não só era algo inovador, como uma total desconstrução do retrato que Hollywood costuma fazer da gente comum movida por ilusões de grandeza. Resquícios desse estilo podem ser vistos no hilariante Cerimônia de Casamento (A Wedding, 1978); mas, nos anos 1980, o diretor já não apresentaria o mesmo brilho. Alternando teatros filmados como James Dean, O Mito Sobrevive (Come Back to the Five & Dime Jimmy Dean, Jimmy Dean, 1982) com materiais simpáticos como Louco de Amor (Fool for Love, 1985), nenhum de seus filmes receberia reconhecimento comparável aos que receberam suas fitas realizadas na década de 1970; e, conseqüentemente, seu nome tornou-se em Hollywood sinônimo de pária, tanto que alguns de seus projetos só seriam financiados por produtores europeus.




Porém, Robert Altman encontrou uma forma bastante atrevida de se vingar de quem o esnobara; e, em 1992, apresentou, no Festival de Cannes, O Jogador (The Player), uma sátira venenosa e, acima de tudo, verossímil do mercantilismo existente em Hollywood. Logo no início da fita, um plano-seqüência magnífico passeia pela área de um grande estúdio; e o espectador vai tendo acesso à maneira como os filmes são vendidos, aprovados, rejeitados – e tudo com o endosso de vários atores que são símbolos do cinema produzido em Hollywood (Bruce Willis, Cher, Julia Roberts, entre outros) e que aparecem em pontas como eles mesmos.
O Jogador foi coberto de elogios e promoveu as pazes entre Robert Altman e Hollywood, rendendo ao diretor uma terceira indicação ao Oscar (as duas primeiras foram por M*A*S*H* e Nashville). E, se isso não acontecesse, dificilmente Short Cuts – Cenas da Vida teria sido realizado e Robert Altman não teria arregimentado mais admiradores.

 

UMA OBRA-PRIMA MINIMALISTA

Na época em que Short Cuts – Cenas da Vida foi lançado, as comparações com Nashville foram inevitáveis: mais de vinte personagens em cena (todos pouco ou nada afeitos ao sonho americano), grande elenco (formado por astros e estrelas) e uma cidade (no caso, Los Angeles) como palco de encontros e desencontros. Mas as semelhanças entre os dois filmes ficam restritas a isso, já que ambos têm características e méritos próprios. E, revisto mais de quinze anos após seu lançamento, Short Cuts – Cenas da Vida continua sendo uma obra-prima com a proeza de ser minimalista no aparente excesso.
Para realizar Short Cuts – Cenas da Vida, Robert Altman adaptou, em parceria com o roteirista Frank Barhydt, diversos contos do escritor Raymond Carver (nascido em 1938 e falecido em 1988, Raymond Carver foi um dos criadores do minimalismo; e descreveu a vida por meio de situações e personagens simples, inesperadamente transformados em fatos e figuras insólitos) e narrou-os simultaneamente, promovendo atalhos para que, ao longo da projeção, as mais de duas dezenas de personagens se esbarrem. Um desafio enlouquecedor; mas que resultou num mestre dando uma aula de coerência, na qual nenhum minuto é tedioso e nenhuma cena é desperdiçada. São três horas que fluem com delicadeza e um interesse cada vez mais crescente, conforme vamos conhecendo mais intimamente a natureza dos seres que passeiam pela fita e que vão revelando suas pequenas alegrias e frustrações cotidianas.
Um helicóptero despejando um pesticida indicado para o combate de um inseto que parece ameaçar Los Angeles abre o filme. Stormy Weathers (Peter Gallagher), um dos pilotos, se recusa a acreditar que sua ex-mulher, Betty (Frances McDormand), já não o quer mais; e vive cerceando os compromissos da mesma. O tal veneno acaba causando uma briga na residência de Gene e Sherri Shepard. Gene (Tim Robbins) é um policial metido a conquistador. Ele trai constantemente a esposa, Sherri (Madeleine Stowe), que, por sua vez, se diverte com as desculpas esfarrapadas do marido para suas escapadas (Betty, aliás, é a atual amante dele), enquanto cuida da casa e dos três filhos. A irmã de Sherri, Marian (Julianne Moore), é uma artista plástica desinibida, especializada em desenhar nus, o que causa um desconforto inconfessável no marido, o dr. Ralph Wyman (Matthew Modine). É o dr. Wyman que fica encarregado de tratar do filho do casal Howard e Ann Finnegan (Bruce Davison e Andie MacDowell), um garoto com a saúde já debilitada que, a caminho da escola, é atropelado pela garçonete Doreen (Lily Tomlin). Esta, apesar da relação problemática com o marido, Earl (Tom Waits), um motorista de limusine e alcoólatra, é bastante feliz em suas limitações. Honey (Lily Taylor), filha de Doreen e enteada de Earl, tem uma certa resistência ao padrasto e, vez ou outra, embarca nas fantasias tétricas do marido, Bill (Robert Downey Jr.), um maquiador que está sempre tentando aliciar com sexo e drogas um amigo, Jerry Kaiser (Chris Penn). Jerry é um retraído limpador de piscinas e vive incomodado com o trabalho da mulher, Lois (Jennifer Jason Leigh), que, enquanto cuida dos filhos e dos afazeres domésticos, trabalha como atendente de disque-sexo e passa o dia falando as maiores obscenidades para quem está do outro lado da linha. Uma das novas clientes de Jerry, a desiludida cantora de jazz Tess Trainer (Annie Ross), parece não ser muita atenta ao comportamento suicida da filha (Lori Singer), uma violoncelista prodigiosa, que dá um concerto, ao qual comparecem, além de Ralph e Marian Wyman, o casal Stuart e Claire Caine. Claire (Anne Archer) trabalha como palhaço, entretendo festas infantis e alas pediátricas de hospitais; e Stuart (Fred Ward) encontra-se desempregado. Junto com dois amigos, Gordon (Buck Henry) e Vern (Huey Lewis), Stuart sai para um final de semana de pescaria. O trio descobre um cadáver boiando no rio; mas tal acontecimento não os impede de usufruir o fim de semana e só depois avisar a polícia. Enquanto o garoto dos Finnegans está em coma no hospital, Howard ainda tem de lidar com a visita não exatamente bem-vinda do pai (Jack Lemmon), que parece distante da família desde o divórcio; e Ann recebe telefonemas anônimos de um padeiro vingativo (Lyle Lovett), a quem havia encomendado um bolo para o aniversário de seu filho.
Eis uma sinopse do filme, mas nem de longe possível de ser considerada sua síntese. E o grande número de personagens e acontecimentos jamais representa uma mixórdia para o espectador, inclusive para o espectador pouco habituado ao estilo de Robert Altman.
Por outro lado, existe em Short Cuts – Cenas da Vida um caráter bairrista; porém, em nenhum momento essa colisão de vidas na sempre ensolarada e caótica Los Angeles deixa de representar um espelho universal de como nossos anseios e intenções nem sempre estão em nossas mãos ou nas de alguém próximo, e sim nas de um desconhecido, cuja decisão ou ação vai determinar rumos impensáveis. E, numa amostra de como o Cinema é precioso no registro de uma época, é altamente interessante notar que, quinze anos atrás, vidas podiam ser tocadas sem a utilização de computadores, celulares e outras parafernálias de relevância discutível.
Robert Altman, que faleceu em 2006, deixa aqui um legado grandioso de seu profissionalismo; e Short Cuts – Cenas da Vida é certamente o filme pelo qual merece ser lembrado. É seu momento máximo. É também um patrimônio valioso daquilo que de mais hábil o cinema autoral norte-americano conseguiu nos oferecer (e, coisa rara, sem a intervenção de produtores picaretas).

 

GRANDES ATORES, CENAS INESQUECÍVEIS

Eram notórias as disposições de grandes astros e estrelas em trabalhar sob as ordens de Robert Altman, inclusive aceitando reduzir seus cachês em troca do prestígio de ter no currículo um filme do diretor. E, se alguém analisar com atenção os elencos que Altman reuniu, certamente concordará que, caso desaparecessem todos os filmes norte-americanos produzidos no período de 1970 a 2006 e só restassem os dirigidos por ele, o registro do trabalho de inúmeros atores e atrizes estaria garantido.
E, em Short Cuts – Cenas da Vida fica extremamente difícil destacar o trabalho de um ator sem ser injusto com os demais (não é à toa que no Festival de Veneza de 1993 foi dado um prêmio pelo conjunto do elenco). Mas há algumas cenas que merecem ser destacadas. Uma delas, é a que mostra o personagem interpretado por Jack Lemmon, num monólogo de nove minutos (certa vez, na década de 1990, Jack Lemmon, um dos maiores atores de todos os tempos, disse ter saudades de textos bem escritos; portanto, esse monólogo foi um presente que Robert Altman lhe deu), relatando ao filho as circunstâncias adúlteras  que o levaram a se divorciar; é um daqueles momentos mágicos, repleto de magnitude na simplicidade. Outra cena marcante é a que mostra a esposa vivida por Anne Archer (atriz de trabalhos pouco expressivos, ela é mais lembrada como  a mulher traída em Atração Fatal/Fatal Attraction) revoltada com o marido, por ele ter permanecido pescando e não haver se importado com o cadáver encontrado no rio. Cena também inesquecível e impressionante é a da personagem representada por Julianne Moore (na cena, Julianne, então em seu primeiro trabalho de destaque, já mostra aquele misto de fúria e fragilidade que a tornariam conhecida e pelo qual receberia tantos elogios) discutindo, nua da cintura para baixo, com o marido certinho e confessando ter sido adúltera anos atrás. E há ainda a cena em que a personagem Tess Trainer canta num bar enfumaçado e freqüentado por pessoas pouco propensas a admirarem sua voz maravilhosa e sua entrega apaixonante às canções de jazz. É uma cena que nos toca (e como nos toca!), sobretudo no momento em que ela canta a belíssima “Conversation on a Barstool”, escrita por Bono Vox (do U2) e The Edge – contemplar a cantora e atriz Annie Ross entoando trechos como “But I won’t be sorry, if you won’t be” (“Mas eu não me arrependerei, se você também não se arrepender”, numa tradução literal) é um momento (certamente ele foi concebido com pouca ciência do resultado belíssimo que alcançaria) de grandeza.



OS ÚLTIMOS TRABALHOS

Depois de Short Cuts – Cenas da Vida, a carreira de Robert Altman prosseguiria com a costumeira irregularidade a que ele certamente estava habituado. E seu filme seguinte foi uma alfinetada à banalidade do mundo da moda: Prêt-à-Porter (Prêt-à-Porter, 1994), um desastre de crítica (um filme que satiriza um setor que rende fortunas e não revela nenhum resquício de vida inteligente estava mesmo predestinado a reações pouco amistosas de críticos que se vendem por dez tostões) e de público. A fita não está entre as melhores de Robert Altman; no entanto, tem um apelo cômico irresistível da parte de nomes ilustres como Marcello Mastroianni, Sophia Loren e Stephen Rea.
A seguir, vieram alguns filmes quase ruins como Dr. T e as Mulheres (Dr. T & the Women, 2000) e De Corpo e Alma (The Company, 2003), alternando com obras preciosas como A Fortuna de Cookie (Cookie’s Fortune, 1999), Assassinato em Gosford Park (Gosford Park, 2001) e o delicioso A Última Noite (A Prairie Home Companion, 2006).
Em 2006, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deu a Robert Altman um Oscar especial por sua carreira, após cinco indicações infrutíferas. Foi mais que merecido esse prêmio, já que poucos anos antes os membros da Academia preferiram premiar Ron Howard pelo insípido Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001) ao invés de Altman, que havia sido indicado por Assassinato em Gosford Park.
E, com a morte de Robert Altman, ficaram órfãos todos aqueles que aguardavam ansiosos cada um de seus filmes só pelo prazer de poderem assistir a algo com sua assinatura.





 


Short Cuts – Cenas da Vida (Short Cuts, 1993, 189')
Direção: Robert Altman
Roteiro:  Robert Altman & Frank Barhydt
Elenco: Andie MacDowell, Bruce Davison, Jack Lemmon, Julianne Moore, Matthew Modine, Anne Archer, Fred Ward, Jennifer Jason Leigh, Chris Penn, Lily Taylor, Robert Downey Jr., Madeleine Stowe, Tim Robbins, Lily Tomlin, Tom Waits, Frances McDormand, Peter Gallagher, Annie Ross, Lori Singer, Buck Henry, Huey Lewis, Lyle Lovett, Danny Darst, Robert DoQui
Disponível no Brasil em DVD 
Distribuidora: Lume

 

João Rodolfo Franzoni é jornalista

 

“CONVERSATION ON A BARSTOOL”

I’m tired, so tired I can hardly stand,
I can’t breathe in the air in this city tonight.
It’s taken everything I had to give,
And now I just want to get out of here.
But I won’t be sorry, if you won’t be
And I don’t want your pity or your sympathy.
But for forty-five dollars I can make it,
You wait and see.
He came from Miami to start out again.
To leave him was easy, I did it all the time.
He said that he loved me and he wanted a child;
If he opened his mouth, he was telling you lies.
But I won’t be sorry, if you won’t be
And I don’t want your pity or your sympathy.
But for thirty-five dollars I can make it,
You wait and see.
I was an actress, a girl in the Chorus;
On Broadway I danced for a Kennedy.
They know me in London and they know me in Paris.
I’m only talkin’ ’cause you looked like you needed a friend.
But I won’t be sorry, if you won’t be
And I don’t want your pity or your sympathy.
But for twenty-five dollars I’m half-way
To Miami.