Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

O DIABO FEITO MULHER



Se é costume considerar (apesar de opiniões contrárias) os filmes do período alemão (1919-1933) de Fritz Lang como os mais significativos da sua obra, não podemos, porém, ignorar os realizados nos Estados Unidos (1936-1956), onde o encontramos liberto da personalidade de Thea von Harbou, a  roteirista da quase totalidade dos seus filmes alemães.
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O Mundo de Fritz Lang é notável pela ausência da beleza. E a sua América não difere essencialmente da sua Alemanha: é menos abertamente macabra; o seu crime e terror existem num nível comparadamente mais realista; mas ambos os países são na realidade um local assombrado, em que os mesmos dramas ocorrem constantemente. “Na planificação de todos os seus filmes, do primeiro ao último”, escreveu Lotte Eisner, “nada pode impedir o fatal avanço do destino.” Isso é indicado em O Diabo Feito Mulher até mesmo na própria canção tema.


Ao falarmos de O Diabo Feito Mulher, não podemos deixar de nos referir à sua intérprete principal, Marlene Dietrich, e ao significado desse filme dentro do “Mito da Mulher no Cinema Americano” e muito em especial dentro do gênero Western.
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Jacques Siclier definiu a personagem interpretada por Marlene Dietrich, Altar Keane, como: “Regresso às fontes de um mito não para o destruir com alegria mas para o reintegrar num universo que o recusou.”
O Diabo Feito Mulher foi realizado para uma Marlene intacta num dos seus personagens antigos: a animadora de saloons. O louro cabelo e a pureza dos traços dão-lhe uma figura que o tempo não empana. É uma ressurreição depois da destruição? Não. É uma sobrevivência. Porque aqui o mito tem a sua idade, e a mulher está no ponto da vida em que vão deixar de a desejar. “Não me pergunte a idade que terei amanhã”, diz Marlene. E dois homens disputam-na. E um deles é tão jovem que a eterna vampe pronuncia estas palavras cruéis: “Despertou em mim recordações de há muito tempo.” O espetáculo da mulher cedendo enfim ao amor de um pretendente mais jovem não se pretende aqui grotesco. É o último momento de um poder que se sabe condenado a morrer, apesar de aparentemente indestrutível. Marlene assume aqui o peso do seu passado. O Diabo Feito Mulher é o único de seus filmes – depois de Paixão Fatal (The Flame of New Orleans, 1940), primeira fita que o francês René Clair dirigiu nos Estados Unidos – em que se manifesta a nostalgia do passado, em que a própria atriz parece que se interroga sobre o papel sexual ideal que lhe foi conferido e abandona-o majestosamente. É em O Diabo Feito Mulher que se encontra, enfim, a parte da alma e da realidade temporal.



O Diabo Feito Mulher
(Rancho Notorious, 1952, 89')
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Daniel Taradash, baseando-se numa história de Sylvia Richards
Elenco: Marlene Dietrich (Altar Keane), Arthur Kennedy (Vern Haskell), Mel Ferrer (Frenchy Fairmont), Gloria Henry (Beth Forbes), William Frawley (Baldy Gunder), Lisa Ferraday (Maxine), John Raven, Jack Elam, Dan Seymour, George Reeves, Rodric Redwing, Frank Ferguson, Charles Gonzales, Lloyd Gough
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: New Line





Esta crítica foi elaborada a partir de textos de Gavin Lambert, in
Sight and Sound vol. 25, nº 2; Jacques Siclier (“Le Mythe de la Femme dans le Cinéma Américain”) e François Truffaut, in Cahiers du Cinéma nº 31

 

Esta crítica foi publicada originalmente no Programa de abril de 1958 do ABC Cineclube de Lisboa