Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

MANDRAKE O MÁGICO - PARTE 2
Marco Aurélio Lucchetti




“O mundo de Mandrake, construído com materiais oníricos da melhor qualidade, é, por antonomásia, o mundo dos ‘infinitos possíveis’ e é, até hoje, um dos maiores exemplos da função libertadora e salutar da imaginação, em sua constante luta contra a opressora banalidade e rotina da vida quotidiana.”
Román Gubern

 

“(...) Nós estamos em pleno fantástico, no coração de um delírio surreal que transcende a História em Quadrinhos e permite colocar Mandrake em pé de igualdade com outro mágico: Joseph Curwen, criado pelo escritor H. P. Lovecraft.”
Jacques Sadoul

 

As melhores histórias de Mandrake, aquelas dotadas de raro encanto e uma intensa aura de mágica poesia, são aquelas que foram publicadas nos jornais norte-americanos entre 1934 e 1944. São histórias verdadeiramente clássicas, que mostram o mágico, sempre acompanhado pelo fiel Lothar, visitando lugares distantes, misteriosos e muitas vezes inóspitos; envolvendo-se com animais pré-históricos, chantagistas, cientistas malucos, falsos marcianos, homens lanudos, monstros, quadrilhas de espiões, seres pequeninos, trogloditas; e desvendando segredos de outras dimensões e até mesmo da Lua.
E, dentre essas histórias, podemos destacar:



“Encontro com Narda”, em que Mandrake conhece, em Alexandria, no Egito, aquela que se tornará sua eterna companheira, a deslumbrante princesa Narda;
“Saki, The Clay Camel” (“Saki, O Maior Ladrão da Arábia!”), na qual Mandrake enfrenta o maior ladrão da Arábia (e talvez do mundo), o astucioso Saki, que é o rei dos disfarces (ninguém jamais viu seu verdadeiro rosto) e tem a alcunha de “Camelo de Barro”, uma vez que costuma deixar um pequeno camelo de barro no local de seus crimes;
“The Ancient Tropical Land” ou “Mandrake in the Lost World” (“Mandrake na Pré-História”);
“Visitors from Space” (“Marcianos?”), cujo roteiro Lee Falk considerava um dos melhores de sua autoria;
“The Octupus Ring” (“A Quadrilha do Polvo”), que mostra Mandrake enfrentando a bem organizada rede de espiões do misterioso Polvo;
“The Great Grando” (“O Grande Grando”), em que Mandrake luta contra outro mágico, um ex-assistente seu, o inescrupuloso Grando;





“The Witch of Kaloon” (“A Bruxa de Kaloon”), cujos personagens, mais notadamente os ajudantes da bruxa do título (Axel, Franc, Glinko e Rasco), são seres estranhos e disformes, que parecem ter saído de algum fotograma de Freaks (Monstros, 1932), um dos mais importantes filmes de Horror de todos os tempos e considerado por muitos críticos como a obra-prima do diretor Tod Browning (1882-1962);
“Land of the Fakirs” (“No País dos Faquires”), na qual Mandrake e Lothar visitam Lapore, uma cidade situada no leste da Índia, e encontram faquires, rajás, haréns (repletos de mulheres lindas e bem pouco vestidas, o que torna “No País dos Faquires” um dos episódios mais eróticos de Mandrake o Mágico) e tapetes voadores;
“Land of the Little People” (“No País dos Homens Pequeninos”), que, de acordo com o jornalista Sérgio Augusto, “é uma pequena obra-prima dos Quadrinhos. Muito se discutiu sobre a provável influência nela do Jonathan Swift de As Viagens de Gulliver (...) e do cinema fantástico da década de 30; mas é quase certo que, simbiose completa, o cineasta Tod Browning tenha sido sugestionado pela visita de Mandrake ao País dos Homens Pequeninos para realizar, em 1936, o clássico Devil Doll (A Boneca do Diabo), estrelado por Lionel Barrymore e Maureen O’Sullivan”;
“The Circus People” (“Mandrake no Circo”), esplendidamente desenhada;
“The X Dimension” ou “Chamber into the X Dimension” (“Mandrake no Império Desconhecido”), certamente uma das mais imaginativas histórias de Lee Falk & Phil Davis;
“The Garden of Wuzzu” (“O Jardim de Wuzu”), que transporta o leitor para um ambiente melancólico, sombrio e tétrico.
No começo da década de 1950, as histórias de Mandrake o Mágico começaram a apresentar sinais de cansaço, tanto nos roteiros quanto nos desenhos. As histórias, então, penderam para os casos policiais inconseqüentes ou para a ficção científica barata. Com isso, os inimigos do mágico tornaram-se bandidos comuns; animais pré-históricos que permaneceram, por vários séculos, congelados retornaram à vida; concursos intergaláticos de beleza feminina, com a princesa Narda representando a Terra, foram realizados; seres extraterrestres passaram a visitar constantemente nosso planeta...