Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

JULIANNE MOORE
UMA ATRIZ INCANSÁVEL E GARANTIA DE INTENSIDADE EM CENA

João Rodolfo Franzoni



Em 1993, O Fugitivo (The Fugitive), dirigido por Andrew Davis, despontava como um dos grandes sucessos de bilheteria do ano. Harrison Ford, o eterno Indiana Jones, selava, então, sua condição de astro num thriller empolgante e bem dirigido. Mas alguns poucos espectadores atentaram para uma atriz com pouquíssimos minutos em cena... Sim, ela aparecia muito pouco em cena; porém, durante todo o seu tempo na tela, roubava a cena do protagonista e garantia apreensão num instante crucial da fita. O nome dessa atriz? Julianne Moore (o nome verdadeiro dela é Julie Anne Smith). Ela surgia numa ponta, como uma médica aturdida pelos afazeres de um hospital lotado e que, ao confiar a transferência de um paciente a um dos serventes – na verdade, o personagem principal, num de seus disfarces –, descobre sua verdadeira identidade de médico, já que ele contraria uma ordem sua e encaminha um menino enfermo para o diagnóstico adequado. É uma cena muito curta, na qual a atriz monopoliza as atenções. E chamou a atenção de Steven Spielberg, que declararia ter sido esse trabalho que o convenceu a escalar a atriz para trabalhar no filme O Mundo Perdido: Jurassic Park (The Lost World: Jurassic Park), realizada em 1997. No entanto, não foi só esse o grande momento de Julianne Moore em 1993: uma das cenas mais comentadas no ano foi uma passagem bem desinibida protagonizada pela atriz, dessa vez sob a direção de Robert Altman na obra-prima Short Cuts – Cenas da Vida (Short Cuts), uma adaptação de textos (nove contos e um poema em prosa) do escritor norte-americano Raymond Carver (1938-1988). Tratava-se de uma discussão trocada entre a personagem de Julianne Moore e o marido, um médico interpretado por Matthew Modine. A discussão progride de forma violenta, já que o despojamento da mulher como pintora passou a incomodar seu companheiro. De repente, ela suja a saia acidentalmente, retira-a sem a menor cerimônia, revelando-se inteiramente nua da cintura para baixo (a câmara não desvia de sua cintura, deixando o sexo da atriz bem explícito), e prossegue com a discussão nessa condição, limpando a roupa, até o marido levantar a voz e reclamar daquela liberdade toda. Um registro verdadeiramente memorável de toda a intensidade do cotidiano. Uma típica cena de um filme de Robert Altman, com o adendo de uma atriz apaixonante em estado de graça.
Pode-se afirmar, portanto, que está registrado nessas cenas o ingresso de Julianne Moore no time das grandes atrizes norte-americanas em atividade.
Nascida em 3 de dezembro de 1960 (de acordo com a revista Premiere, algumas fontes asseguram que o ano de seu nascimento é 1961), em Fayeteville, no estado da Carolina do Norte, Julianne Moore tem cabelos ruivos e um sorriso cativante (certa vez, o cineasta Bart Freundlich afirmou: “Quando Julianne sorri, o seu rosto transforma-se por completo.”). É filha de um juiz do Corpo Geral de Juízes das Forças Armadas dos Estados Unidos e de uma psiquiatra escocesa devotada à assistência social. Na adolescência, viveu no Alasca, Alemanha e França. Formou-se em Arte Dramática em Boston, em 1983, e mudou-se para Nova York, onde começou a trabalhar em teatro e em algumas produções feitas para a televisão. Estreou nas telas cinematográficas numa fita inexpressiva, Slaughterhouse 2 (1983), sob a direção de Michael D. Weldon; e chamou a atenção pela primeira vez em A Mão Que Balança o Berço (The Hand That Rocks the Cradle, 1992), um suspense dirigido por Curtis Hanson – para quem não se lembra, nesse filme ela interpreta a melhor amiga do marido da protagonista (Annabella Sciorra) e tem uma morte horrível ao ser degolada pelos vidros de uma estufa, numa das armações da babá diabólica e psicótica interpretada por Rebecca De Mornay. Em seguida, interpretou papéis menores, seja na comédia Um Perigo de Mulher (The Gun in Betty Lou’s Handbag, 1992), estrelada por Penelope Ann Miller, ou no catastrófico Corpo em Evidência (Body of Evidence, 1993), um veículo de puro exibicionismo para a cantora Madonna, não despertando maiores interesses. Já em 1994, quando começava a firmar seu nome, foi saudada pela crítica, a ponto de ser eleita a Melhor Atriz do Ano pelos críticos de Boston, ao encarnar a personagem Yelena em Tio Vânia em Nova York (Vanya on 42nd Street), a versão cinematográfica de Louis Malle (1932-1995) para um texto do dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904). Exercício experimental do diretor francês (Malle já havia tentado uma experiência semelhante com My Dinner with Andre, de 1981, inédito no Brasil), esse teatro filmado pode arregimentar tanto detratores quanto admiradores; mas é impossível não prestar atenção ao mimetismo de Julianne em cena, sobretudo nos momentos em que sua personagem descobre-se no papel de catalisadora do caos familiar que vai sendo instaurado. Yelena é casada com um sujeito mais velho (George Gaynes), que assumiu os negócios familiares da falecida esposa rica e, por isso, é encarado como aproveitador pelo restante do clã. Numa tentativa de convencer a enteada (Brooke Smith) da sinceridade de seu afeto, Yelena decide promover uma união entre a moça desiludida com o médico da família (Larry Pine). Porém, o alvo de interesse do doutor é a própria Yelena. Vale destacar que, quando Malle cede espaço para Julianne Moore brilhar, o filme ganha uma aura especial, revelando assim uma atriz movida principalmente pela sinceridade (aliás, o verdadeiro ator é aquele que interpreta com sinceridade, com alma).
Em 1995, Julianne Moore marcou presença na simpática comédia dramática Dupla Sem Par (Roommates), aparecendo ao lado dos veteranos Peter Falk e Ellen Burstyn. Trabalhou também em duas superproduções que poderiam ter contribuído para torná-la um rosto conhecido do público: a comédia Nove Meses (Nine Months) foi beneficiada muito mais por causa do escândalo envolvendo seu parceiro de cena, Hugh Grant, flagrado recorrendo aos serviços de uma prostituta, do que por suas qualidades como filme; e a fita de ação Assassinos (Assassins), apresentando um Sylvester Stallone (numa parceria desastrosa com Antonio Banderas) com visíveis sinais de saturação. Mas foi novamente num filme acolhido pela crítica que a atriz conseguiu destaque em 1995: A Salvo (Safe), dirigido por Todd Haynes. Ao interpretar uma dona-de-casa que se descobre alérgica a produtos de limpeza e de uso diário, Julianne pôde demonstrar todo o seu talento como atriz – certamente, ela foi a grande responsável pela legitimidade dessa crítica aguda à sociedade de consumo, sobretudo quando sua personagem recorre a um rol interminável de ajudas espirituais, procurando se curar de seu mal.
Já em 1996, Julianne Moore apareceu apenas em Os Amores de Picasso (Surviving Picasso), pretensiosa e aborrecida abordagem que James Ivory fez da vida amorosa do artista plástico espanhol Pablo Picasso (interpretado por Anthony Hopkins). No filme, Julianne interpreta a pintora Dora Maar (1907-1997), que serviu de modelo para vários quadros de Picasso e foi uma de suas amantes.
1997 foi um ano de significativa realização para Julianne Moore. Primeiramente, ela marcou presença ao lado de dinossauros criados digitalmente num dos grandes sucessos de bilheteria do ano, o já citado O Mundo Perdido: Jurassic Park. Apesar da extrema pobreza do roteiro e da direção preguiçosa de Spielberg, a atriz garante atenção, principalmente na melhor cena do filme: quando fica de cara com um penhasco, enquanto o vidro do carro que a protege vai lentamente se espatifando. O drama O Mito das Digitais (The Myth of Fingerprints), enfocando relações familiares tumultuadas, trouxe-a no papel da filha revoltada de Roy Scheider e Blythe Danner. No entanto, foi Boogie Nights – Prazer Sem Limites (Boogie Nights), segundo longa-metragem do diretor Paul Thomas Anderson e um dos únicos mergulhos do cinema convencional no mundo pornô de Hollywood, que ensaiou sua consagração. Um minuto em cena de Julianne como uma veterana e errante atriz de filmes pornográficos [o papel foi inspirado em dois ícones do pornô norte-americano: Marilyn Chambers (pseudônimo de Marilyn Ann Briggs, 1952-2009), a estrela do cultuado Atrás da Porta Verde (Behind the Green Door, 1972); e Veronica Hart (pseudônimo de Jane Esther Hamilton), que trabalhou em Pandora’s Mirror (1981) e Amanda by Night (1981), dois clássicos do cinema pornô norte-americano], que tenta servir de alicerce para os colegas de profissão (mesmo estando proibida de visitar o filho e sendo uma viciada em drogas) é suficiente para despertar no espectador uma compaixão irrecusável, além de um carinho que só mesmo uma intérprete dedicada seria capaz.

Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel em Boogie Nights, Julianne Moore merecia ter ganho a estatueta, caso o lobby naquele ano não estivesse tão forte para o retorno de Kim Basinger em Los Angeles – Cidade Proibida (L.A. Confidential). Doze anos é tempo suficiente para se enxergar tamanha injustiça! Mas, enfim, são as injustiças do Oscar.


 

João Rodolfo Franzoni é jornalista