Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

A GÊNESE DO HORROR - O MARAVILHOSO
Marco Aurélio Lucchetti



Detecta-se os primórdios do Horror no Maravilhoso, que pode ser considerado como a irrupção das forças desconhecidas – divinas ou mágicas – na rotina habitual do Homem, sempre com o intuito de lhe trazer novos conhecimentos ou moldar sua conduta.
E o Maravilhoso está presente, por exemplo, em Vétála-pancha-Vinshatí (Contos do Vampiro), uma coleção de vinte e cinco (segundo algumas fontes, são vinte e sete) pequenas histórias girando em torno das aventuras de um rei lendário da Índia, Trivikramasena ou Vikramaditya (ou simplesmente Vikram), que, cumprindo uma promessa feita a um iogue, lhe leva um baital (1).
A autoria desse milenar texto hindu é desconhecida; e, a exemplo do que ocorre com outras narrativas muito antigas, a forma literária não passa de um revestimento dado à forma oral.
Existem várias versões distintas do Vétála-pancha-Vinshatí, redigidas em Sânscito, o Latim da Índia. Nenhuma das quais, ao que parece, anterior ao século 11. Entretanto, pressupõem um original comum mais antigo, que seria certamente reconstituível, se para isso fossem utilizados os métodos que permitiram restabelecer o texto inicial do Panchatantra (2).
Uma das versões do Vétála-pancha-Vinshatí que chegou até os dias de hoje é a do brâmane Somadeva.
Natural do Cachemir, Somadeva viveu na segunda metade do século 11 e inseriu as histórias do Vétála-pancha-Vinshatí numa longa compilação versificada, que ficou conhecida como O Oceano (para Onde Afluem) os Rios das Histórias e que foi composta entre 1063 e 1081.




Onze das histórias que formam o Vétála-pancha-Vinshatí foram traduzidas diretamente do Sânscrito para o Inglês pelo escritor e explorador inglês Richard Francis Burton (1821-1890) e publicadas no livro Vikram and the Vampire or Tales of Hindu Devilry (Vikram e o Vampiro, 1870). E, no prefácio da edição comemorativa de Vikram and the Vampire (3), a esposa de Burton, Isabel, escreveu o seguinte sobre o Vétála-pancha-Vinshatí:

(...) é a história de um gigantesco morcego ou espírito maligno que habitava e animava cadáveres. É uma lenda antiga e profundamente hindu, escrita em Sânscrito; e o germe que culminou em As Mil e Uma Noites e inspirou O Asno de Ouro, de Apuleio, o Decamerone e o Pentamerone, de Boccaccio, e tudo mais que se escreveu em matéria de literatura de ficção e burlesca.
A história gira principalmente em torno de um grande rei chamado Vikram, o Rei Arthur do Oriente, que, em cumprimento de sua promessa a um iogue ou mago, lhe leva o baital (vampiro) que pende de uma árvore. As dificuldades que o Rei Vikram e seu filho enfrentam para levar o vampiro à presença do iogue são de fato cômicas, e nesta trama desenrola-se uma série de encantadoras fábulas hindus que contêm muita informação sobre os usos e costumes indianos. Também aludem àquele estado que leva os devotos hindus a se deixarem enterrar vivos e parecer mortos durante semanas ou meses, para então de novo retornarem à vida; um curioso estado de catalepsia mesmérica em que mergulham a si mesmos, concentrando a mente e abstendo-se de alimento (...).”

Richard Francis Burton também traduziu para o Inglês outro importante texto oriental, As Mil e Uma Noites, cujas origens remontam por volta do século VIII e a respeito do qual o crítico e escritor brasileiro Afonso Schmidt disse:

“Quem seria seu autor? Se, por acaso existe um autor, ele deve ser procurado entre os maiores poetas do Oriente, pois, sob a forma de histórias, conseguiu reunir num todo as lendas mais sugestivas daquela parte do planeta, onde as pedras, as plantas, os utensílios domésticos falam a linguagem dos homens, os gênios da natureza intercedem na vida cotidiana e há tesouros enterrados por toda parte. Essa obra trouxe em si todas as características do povo que a viu nascer: a fantasia, a credulidade, a bondade, o sentimento de justiça e também as alegrias do amor.
As Mil e Uma Noites pertence ao número das obras de arte que nascem por si, autênticos espelhos dos meios que as rodeiam. Trata-se de uma coletânea de contos maravilhosos, embaladores (4), que foram transmitidos oralmente ao longo do tempo, de uma geração para outra. E nessa passagem da boca para o ouvido foram crescendo incessantemente. Cada narrador, ao contar uma das histórias, foi acrescentando uma nota pessoal, aqui uma palavra a propósito, ali um sentimento que o dominava, acolá um toque de beleza para melhor encantar a alma do ouvinte. Certo dia, o conjunto das narrativas ficou pronto, mas dele não havia nada; estava inteiramente na memória do povo, nas fontes, nos caminhos, nos mercados ou nas praças (...), onde as sombras se espichavam com o passar das horas. Foi nessa altura que apareceu o escriba artista e paciente; e, naqueles compridos serões que só existem no Oriente, tratou de fixar, tábua por tábua, a volumosa e incomparável narrativa.”

As narrativas de As Mil e Uma Noites são contadas pela bela e inteligente Scheherazade (ou Scheherazada), que desposa o sultão Schahriar (ou Schariar), um nobre da Pérsia que tem o hábito de passar uma única noite (a noite de núpcias) com cada mulher com quem se casa e mandar degolá-la no dia seguinte (por ter sido traído pela sua primeira esposa, ele acha que todas as mulheres são infiéis e que, portanto, merecem a morte). Porém, essa prática cruel termina com Scheherazade, que, auxiliada por sua irmã, Dinarzade (ou Dinazarda), usa do seguinte estratagema: contar histórias a seu marido, parando, a cada noite, num momento de suspense e continuando na noite seguinte, ganhando assim mais um dia de vida. Isso prossegue por mil e uma noites, quando, por fim, o sultão diz a Scheherazade:

(...) vejo que sabeis maravilhosas histórias, e há muito que com elas me distraís. Foi-se a minha cólera, e é com prazer que a partir de hoje retiro a cruel lei que eu mesmo impus. Tendes a minha proteção e sereis considerada libertadora de todas as jovens que ainda seriam imoladas por causa do meu rancor.”

E as histórias narradas por Scheherazade, em que se faz presente o Maravilhoso, estão repletas de encantamentos e desencantamentos, fábulas, lâmpadas mágicas, gênios benéficos e maléficos, fadas e magos, sultões, escravos, eunucos e lindas donzelas... E uma dessas histórias, cujo título é “Amina”, nos chama particularmente a atenção – ela é protagonizada por Sidi Nouman, um homem honrado e mais ou menos abastado, que se casa com uma mulher, Amina, que não come quase nada (mais tarde, Sidi Nouman descobre o motivo disso: ela prefere alimentar-se de carne humana, banqueteando-se com cadáveres). E essa história nos chama a atenção porque, na descrição de um ritual canibalesco em que Amina toma parte, estão presentes alguns elementos das histórias de Horror: a noite enluarada; o cemitério; o túmulo violado; e o cadáver sendo devorado por uma feiticeira, Amina, e uma goule, que é (segundo as lendas orientais) uma espécie de demônio que se alimenta com a carne de seres humanos.
E podemos considerar “Amina” como uma das primeiras histórias de Horror produzidas pelo Homem.

 

NOTAS:

(1) Baital é a forma atual da palavra Sânscrita vétála, que significa, em Português, “vampiro ou espírito maligno que anima cadáveres”. Porém, de acordo com Louis Renou (Contos do Vampiro, São Paulo, Martins Fontes, 1986, p. 186), a tradução de vétála por “vampiro” é “inexata”, mas “a conservamos por ser tradicional. No folclore do Ocidente, o vampiro é um animal que, visitando cadáveres, vem chupar o sangue dos vivos a fim de reanimar sua força vital. Na Índia, trata-se de uma espécie de fantasma instalado num cadáver, mas não se alimenta de sangue nem é necessariamente cruel: é malicioso, gosta de enganar os humanos, muda de forma; mas pode ser útil, dando preciosos conselhos”.

(2) O Panchatantra é uma coletânea de apólogos recitados por Vishnu Sharma, um brâmane erudito, para a edificação de seus discípulos, filhos de um rajá indiano. Foram adaptados ou traduzidos em inúmeras línguas (inclusive o Grego e o Latim).

(3) Essa edição comemorativa foi publicada em 1893.

(4) Segundo o escritor Malba Tahan, As Mil e Uma Noites, em sua forma completa, “não é obra cuja leitura possa ser aconselhada para crianças ou adolescentes. É um livro profundamente contra-indicado sobre vários aspectos, pois muitos dos seus contos foram imaginados com a finalidade exclusiva de divertir adultos. (...) Quando observado numa tradução, não escoimada da parte obscena, vamos encontrar em As Mil e Uma Noites: contos maravilhosos e de aventuras; contos de amor e intrigas de namorados; romances de viagens; aventuras de cavalaria e guerra; lendas fantásticas cheias de crueldades; cenas de zombaria contra judeus e cristãos; contos do gênero policial; anedotas brejeiras e pornográficas; episódios fantásticos e obscenos; lutas religiosas; parábolas e apólogos; fábulas; histórias de erudição (até com problemas de Matemática). E todos os capítulos são enriquecidos por delicados trechos poéticos nos quais transparece a beleza, a suavidade e o encantamento dos versos árabes”.