Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

EM BUSCA DOS FILMES PERDIDOS NA MEMÓRIA - PARTE 2 (FINAL)
Aurélio P. Cardoso



O filme cult não é um filme de Arte, nem é aquele que passa mensagens pseudofilósoficas que só críticos e intelectuais entenderiam. Não é também o filme da estação, um blockbuster, que, após uma maciça campanha de propaganda (são essas campanhas de propaganda que influenciam as pessoas a irem ao cinema, gerando, assim, gordas bilheterias), some sem deixar vestígio, como os do produtor Jerry Bruckheimer, cujas fitas são, em sua maioria, comerciais, evasivas e fúteis. O filme cult é o filme que se torna objeto de culto pelo espectador comum ou pelo cinéfilo e que, com o tempo, passa a usufruir um status de obra importante, sem ter tido uma forte campanha de marketing ou sem possuir efeitos especiais ou um elenco milionário.
Há alguns anos, ao atuar no ramo de videolocação, deparei-me com pessoas procurando os mais diversos tipos de filmes e venerando obras que os críticos malham mais que Judas no Sábado de Aleluia – respeito tais obras, pois, ao serem cultuadas, é sinal de que pelo menos atingiram um público específico. Um exemplo é Em Nome de Deus (Stealing Heaven, 1988). Ninguém apostava em tal filme, que foi distribuído, sem alarde algum, diretamente no mercado de vídeo. Entretanto, acabou sendo um sucesso, graças às mulheres, que se debulhavam em lágrimas, assistindo ao romance proibido de Abelardo e Heloisa na Florença da Idade Média.






O público feminino, aliás, consegue transformar filmes (que mexem com sua sensibilidade) em estrondosos sucessos, fazendo alarido de boca em boca – como disse Martin Scorsese: “As pessoas se interessam por um determinado filme quando ouvem falar bem sobre ele.” Alguns exemplos são os filmes As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995), Amor Além da Vida (What Dreams May Come, 1998), Cidade dos Anjos (City of Angels, 1998) e Uma Carta de Amor (Message in a Bottle, 1999), que são fenômenos de procura nas videolocadoras, mesmo tendo sido lançados há vários anos. As mulheres adoram ver e rever tais filmes, enquanto degustam caixas e caixas de chocolate. A título de curiosidade: uma amiga disse que, sempre que está deprimida, assiste a Casablanca (Casablanca, 1943) ou Sabrina (Sabrina, 1954).




Outro dado interessante: muitos filmes que fracassam no mercado norte-americano terminam encontrando um ótimo público no Brasil. Um dos casos mais curiosos é o de Horizonte Perdido (Lost Horizon, 1973). Mistura de filme de aventura e musical, essa fita, que é baseada no clássico romance de James Hilton, foi um fracasso fenomenal nos Estados Unidos e acabou com a carreira de muita gente (uma delas foi a do maestro e compositor Burt Bacharah, autor de trilhas sonoras de sucesso, entre as quais as dos filmes Cassino Royale/Casino Royale e Butch Cassidy/Butch Cassidy and the Sundance Kid); porém, em território brasileiro, alcançou grande sucesso, ficando, na época, mais de um ano em cartaz nos cinemas de São Paulo (ainda hoje, você encontra pessoas que gostaram tanto do filme que o procuram desesperadamente nas videolocadoras).




Na verdade, não há uma regra para um filme se tornar objeto de culto. Há, por exemplo, pessoas que cultuam as fitas do Mazzaropi, outras as do Fellini, outras as do Steve Reeves, outras as da Sissi (com Romy Schneider) ou as da série A Hora do Pesadelo... Há também aquelas que transformam em cult os filmes de artes marciais com Bruce Lee, as comédias eróticas com Lando Buzzanca, os westerns dirigidos por Sergio Leone... Há também aquelas que cultuam apenas um filme. Por exemplo, tenho um amigo que é fanático pelo Amarcord (Amarcord, 1973), do Fellini – esse meu amigo é tão fanático pela fita que tem a mania de subir em árvores e ficar gritando: “Voglio una donna.” Um outro amigo meu gostou tanto de Os Suspeitos (The Usual Suspects, 1995) que vive perguntando: “Onde está Keizer Soze?” Tenho também alguns amigos que adoram citar frases de filmes como A Cruz de Ferro (Cross of Iron, 1977), Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992), Círculo de Fogo (Enemy at the Gates, 2001)... ou seja, filmes com muito testosterona. Há ainda aqueles que imitam o Coronel Kilgore, de Apocalypse Now (Apocalypse Now, 1979), e dizem: “Eu adoro o cheiro de napalm de manhã.”








Algo que desejo destacar é que, nos anos 1980, quando fazíamos a programação de filmes do Cineclube Cauim, o Fernando Kaxassa e eu sempre procurávamos programar filmes – que se tornaram objeto de culto – que poderiam agradar ao público em geral e que fugissem do rótulo de obras pedantes, pretensiosas e herméticas (enfim, fitas com gosto rançoso de arte elitista). Queríamos criar um novo ciclo de espectadores, pois, como bem disse o cineasta Ivan Cardoso, “os filmes mais marcantes são os primeiros a que você assiste em sua vida”; e a diversidade era a melhor arma. Seguíamos um paradigma citado pelo diretor francês François Truffaut: “Um filme normal, mas enérgico, pode ser melhor Cinema do que um filme inteligente e frouxo.”




Outra coisa que quero destacar é que eu também estou à procura de um filme perdido em minha memória. É um filme que vi, nos meados de 1970, no extinto Cine Plaza: Corrida Contra o Destino (Vanishing Point, 1971). Dirigido por Richard C. Sarafian e roteirizado pelo escritor cubano Cabrera Infante, esse filme me deixou atordoado, ao mostrar as proezas de um outsider (a bordo de um superveloz Dodge Challenger) pelas estradas do Oeste dos Estados Unidos. Corrida Contra o Destino está marcado em minha mente, e talvez tenha medo de revê-lo e perder o encanto por ele. Mas sempre será um filme cult. Isso porque o filme cult é aquele que mexe com todos os sentidos do espectador e não o deixa indiferente.

 

Aurélio P. Cardoso é pesquisador, crítico e ativista da área de Cinema e membro fundador do Cineclube Cauim