Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

UM GIALLO DIFERENTE
Ivan Fabricio Gagliardi





Dirigido por Emilio P. Miraglia e estrelado pela belíssima Barbara Bouchet, o filme La Dama Rossa Uccide Sette Volte (1972) se inicia com duas meninas, as irmãs Kitty e Evelyn Wildenbrück brincando nos arredores do castelo da família. De repente, elas começam a brigar por causa de uma boneca. A briga continua mesmo após as duas entrarem no castelo. O avô das meninas, Tobias Wildenbrück (Rudolph Schindler) intervém e consegue acalmá-las. Então, Evelyn olha um dos quadros que enfeita uma das paredes do castelo. A pintura retrata uma mulher de preto assassinando pelas costas uma mulher de vermelho.




Imediatamente, a menina fica possuída pelo espírito da dama de preto e “mata” a boneca, repetindo a cena retratada no quadro. Tobias consegue fazer a neta voltar à razão e conta a história da cena mostrada na pintura: as duas mulheres eram irmãs e faziam parte da família Wildenbrück; e a dama de preto matou a dama de vermelho com sete punhaladas. Um ano depois, a dama de vermelho retornou do mundo dos mortos e matou sete pessoas, sendo a última delas a dama de preto. No final, Tobias informa que esse fato se repete a cada cem anos no seio da família Wildenbrück; mas, depois, diz que tudo não passa de uma lenda. As meninas perguntam-lhe, então, se acredita nessa lenda; ele responde, reticente, que não.




Os anos passam, e as meninas tornam-se mulheres. Kitty (Barbara Bouchet) agora é uma renomada fotógrafa de moda, e nunca mais se teve notícias de Evelyn (aparentemente, ela mora nos Estados Unidos). O velho Tobias ainda vive no mesmo castelo, sob os cuidados de outra neta (ela é, portanto, uma prima de Kitty e Evelyn), Franziska (Marina Malfatti), e seu marido Herbert (Nino Korda). Certa noite, a Dama Vermelha surge para Tobias. Apavorado com a fantasmagórica aparição, ele grita, tem um infarto e morre. Franziska escuta os gritos de Tobias e procura o marido, mas não o encontra. Depois, Kitty recebe um telefonema de Franziska e fica sabendo que seu avô morreu. Fica sabendo também que Herbert viu uma mulher de vermelho, parecida com a do quadro, correndo no jardim, logo após a morte de Tobias. E o pior: o rosto da dama de vermelho era idêntico ao de Evelyn. Nesse instante, é revelado, por meio de um flashback, o segredo de Kitty: numa briga entre ela e Evelyn, esta acabou se acidentando e faleceu. Em seguida, Kitty volta ao seu trabalho de fotógrafa e, ao retornar, com seu amante, Martin (Ugo Pagliai), para casa, fica irritada quando ele lhe pergunta sobre Evelyn.
Alguns dias depois, durante a leitura do testamento de Tobias, Kitty e Franziska ficam sabendo que a fortuna deixada por ele não poderá ser entregue imediatamente. Ou melhor, o envelope com a declaração dos bens e herdeiros só poderá ser aberto um ano após a morte de Tobias. A seguir, Kitty é ameaçada pelo namorado drogado de Evelyn. Ele culpa Kitty pelo aparente sumiço da amada e exige dinheiro para manter seu segredo a salvo.




A partir daí, a Dama Vermelha passa a aparecer com mais freqüência, sempre matando pessoas que têm alguma ligação com o estúdio de moda onde Kitty trabalha.
A primeira vítima da Dama Vermelha é o imoral chefe do estúdio, Hans (Bruno Bertocci). E o policial designado para investigar o crime, inspetor Toller (Marino Masè), suspeita que o assassino seja Martin, uma vez que o cargo de chefe do estúdio irá para ele.
A próxima a morrer é a estilista Lenore, após ter sido seqüestrada pela Dama Vermelha.




Depois, Martin vai visitar a esposa, Elizabeth, que está internada numa clínica psiquiátrica. Durante a visita, Elizabeth conta para ele que, na semana anterior, uma amiga, Evelyn, a visitou e lhe disse que seu marido tinha arranjado uma amante e que traria para ela uma faca para matá-lo por essa traição. Martin volta para casa e recebe a visita da voluptuosa modelo Lulu Palmer (Sybil Danning), que foi amante de Hans. Lulu seduz Martin. Enquanto isso, Elizabeth tenta fugir da clínica, induzida pela voz da Dama Vermelha, que a engana e a mata junto ao portão do edifício (é uma cena bem chocante). Isso aumenta as suspeitas do inspetor Toller sobre Martin, que, nervoso, pressiona Kitty para que o ajude a encontrar Evelyn e provar sua inocência. Kitty, então, revela que Evelyn está morta e que ela (Kitty) foi a responsável por essa morte. Revela ainda que Franziska e Herbert presenciaram tudo, mas resolveram guardar segredo e ajudaram-na a esconder o cadáver num lugar secreto do castelo. Agora, a lenda contada por Tobias Wildenbrück quando Kitty e Evelyn eram meninas está se mostrando verdadeira.
Mais tarde, o namorado drogado de Evelyn volta e, além de extorquir mais dinheiro de Kitty, acaba estuprando-a. Ele está mancomunado com Rosemary (Maria Pia Giancaro), que era assistente de Hans. No entanto, a farra do rapaz dura pouco; e ele termina sendo outra vítima da Dama Vermelha. Não demora muito, e a Dama Vermelha mata novamente. Dessa vez, a vítima é Lulu Palmer, que descobriu a identidade da pessoa por trás dos crimes e morreu quando tentou chantageá-la.




A seguir, a suposta Dama Vermelha liga para Kitty, falando que tem de conversar com ela, e marca o encontro no lugar onde está o corpo de Lulu. Kitty vai ao encontro e, lá chegando, tem de fugir da polícia. Então, encaixando as peças, Kitty segue rumo ao verdadeiro culpado, num final surpreendente.




Desde o início, La Dama Rossa Uccide Sette Volte demonstra ser um giallo diferente. Teoricamente, os elementos que caracterizam o gênero estão presentes no filme; porém, o diretor Emilio Miraglia, seguindo o exemplo de sua experiência anterior nos gialli, La Notte Che Evelyn Usci dalla Tomba (1971), inova em certos aspectos. O principal deles é dar um tom sobrenatural à fita, que lembra qualquer história clássica de Terror. Além disso, o diretor (ele também escreveu o roteiro, contando com a colaboração de Fabio Pitorru) descartou a tradicional aparência do responsável pelos crimes – uma pessoa vestindo sobretudo, chapéu e óculos escuros –, praticamente uma marca registrada do gênero. Dessa vez, a(o) assassina(o) é uma suposta mulher de longos cabelos negros e uma capa vermelha.
Algo que merece ser destacado no filme é a trilha sonora, composta por um dos maiores compositores que o cinema italiano já teve: Bruno Nicolai. Ele, mais uma vez, criou uma música cativante, que se encaixou perfeitamente com o clima sobrenatural do filme, alternando uma melodia suave (ela lembra cantigas infantis) com acordes tensos e acelerados. É uma música que envolve o espectador, fazendo-o sentir aquilo que os personagens sentem, sobretudo nos momentos de maior tensão ou durante os flashbacks.
Também merece ser destacado o elenco, repleto de beldades, começando com a louríssima Barbara Bouchet (ela, junto com a morena Edwige Fenech, foi uma das musas do Giallo), a protagonista da história, passando por Marina Malfatti e as moças que trabalham na agência de modelos (dentre as modelos, destaca-se a sensual Sybil Danning).




Infelizmente, como a maior parte dos gialli, La Dama Rossa Uccide Sette Volte continua inédito em DVD no Brasil. Mas se você é fã do cinema italiano de Suspense e Terror, essa fita é uma boa opção para assistir, se tiver oportunidade.

 

La Dama Rossa Uccide Sette Volte
Direção e Roteiro: Emilio P. Miraglia
Elenco: Barbara Bouchet, Ugo Pagliai, Marina Malfatti, Nino Korda, Marino Masè, Maria Pia Giancaro, Sybil Danning, Rudolf Schindler, Bruno Bertocci

 

Ivan Fabricio Gagliardi é advogado