Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

BARBARA BOUCHET
Marco Aurélio Lucchetti



Em 2004, durante o Festival de Cinema de Veneza, foi apresentada uma mostra de cerca de vinte filmes italianos produzidos entre 1959 e 1974. Mas não pense o leitor que foram exibidas fitas de cineastas como Alberto Lattuada, Antonioni, Dino Risi, Fellini, Mario Monicelli, Pasolini, Pietro Germi, Rossellini, Vittorio De Sica e Valerio Zurlini. Foi, sim, uma retrospectiva de filmes (de terror, eróticos, gialli e spaghetti westerns) que os críticos (sobretudo os críticos brasileiros, que são, em sua maioria, intelectualóides pseudo-esquerdistas ou meros garotos-propaganda das grandes companhias cinematográficas norte-americanas) consideram menores.
Essa retrospectiva, que prestou homenagem a diretores como Fernando Di Leo, Sergio Sollima e Tinto Brass, fez parte de um projeto – financiado pela poderosa Fundação Prada e previsto para durar quatro anos (portanto, já deve ter sido concluído) – mais amplo: o de restauração e preservação das fitas B italianas. E, para prestigiar o evento, estava presente uma das estrelas desses filmes, Barbara Bouchet, que, ao ser entrevistada, falou:

“Na época, os filmes em que trabalhei eram considerados filmes de segunda categoria; mas isso não me incomodava, eu gostava deles. O fato de que sou ícone é uma coisa que só agora fui descobrir.”

Realmente, Barbara Bouchet foi – ao lado de atrizes como a argelina Edwige Fenech e a austríaca Marisa Mell (1939-1992), que nunca tiveram vergonha de se mostrarem (nos filmes e nas páginas das revistas masculinas) nuas ou seminuas – um dos ícones, uma das musas dos gialli e dos filmes eróticos italianos produzidos na década de 1970. Para provar isso, basta o seguinte trecho de “Barbara Bouchet – A Estrela do Terror”, um artigo escrito por Naomi Stein e publicado em 1973 no jornal O Globo:

“Barbara Bouchet (...) é o símbolo do ‘suspense à italiana’ que está invadindo o mundo. Faz sete filmes por ano, todos de terror; (...) e, quando um diretor quer fazer sucesso e dar arrepios na platéia, não tem a menor dúvida e chama Barbara Bouchet. (...) cartazes enormes dos seus inúmeros filmes invadem Roma. Seu rosto de boneca assustada já faz parte do cenário da cidade e combina perfeitamente com os muros velhos e os monumentos antigos. (...) Uma estrela (...) confeccionada sob medida para os anos setenta.”

E a história de Barbara Bouchet, cujo verdadeiro nome é Barbara Goutscher, iniciou-se em 15 de agosto de 1943. Foi nesse dia que ela nasceu, no seio de uma família alemã, na cidade tcheca de Liberec, que, então, estava ocupada pelos nazistas.
Barbara não viveu muito tempo em sua terra natal: sua família mudaria-se para a América, aproveitando-se de uma lei aprovada em 1948 pelo Congresso norte-americano, que permitia a imigração para os Estados Unidos de pessoas sem lugar para ficar, vítimas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Já na América, a família Goutscher fixou residência em San Francisco, na Califórnia, onde Barbara cresceu e educou-se.
Foi aos dezesseis anos de idade que Barbara teve oportunidade de iniciar sua carreira artística, participando de um concurso aberto a todas as jovens da área da Baía de San Francisco. Porém, antes de falar do concurso, é necessário falar do filme que o originou: Maldosamente Ingênua (Gidget, 1959).
Baseado no romance que Frederick Kohner escreveu sobre sua própria filha e dirigido por Paul Wendkos, Maldosamente Ingênua conta a história de uma típica garota californiana, Gidget (interpretada pela virginal Sandra Dee), que é o sucesso das praias durante o verão e que acaba se apaixonando por dois surfistas. A fita agradou ao público (principalmente os adolescentes), dando origem a duas seqüências – Férias no Havaí (Gidget Goes Hawaiian, 1961) e Roma, Convite ao Amor (Gidget Goes to Rome, 1963), ambas também dirigidas por Paul Wendkos – e duas séries de televisão. E motivou que a KPIX-TV, uma estação de televisão que cobria toda a área da Baía de San Francisco, realizasse num de seus programas, o Dick Stewart Television Show, um concurso para escolher entre as jovens locais a Miss Gidget, ou seja, uma garota que fosse uma combinação de beleza e talento.
Barbara participou do concurso e terminou sendo a Miss Gidget. Como prêmio, a KPIX-TV convidou-a para ser integrante do corpo de dançarinas do programa The KPIX Dance Party, que mostrava adolescentes dançando ao vivo, ao som de sucessos da época. Barbara aceitou o convite e, entre 1959 e 1962, foi uma das dançarinas do programa, aparecendo na tela dos televisores de San Francisco e adjacências seis dias por semana.




Em 1962, Barbara decidiu mudar-se para Hollywood e tentar ser uma atriz de Cinema. Foi nessa época que trocou o áspero Goutscher (por demais alemão) pelo suave Bouchet, que é como os franceses chamam uma bebida feita com água, açúcar e canela (vale destacar que Bouchet também lembra a palavra bouche, que significa boca em Francês). Então, desaparecia Barbara Goutscher e nascia para o mundo Barbara Bouchet, uma jovem desejosa de brilhar nas telas cinematográficas. Mas ela não iniciou imediatamente sua carreira na Sétima Arte – primeiramente, foi modelo (apareceu em capas de revistas e comerciais de televisão). E sua estréia no Cinema ocorreu em 1964, na comédia de humor negro A Senhora e Seus Maridos (What a Way to Go!), num pequeno papel.
Ainda em 1964, Barbara Bouchet teve oportunidade de aparecer, também em pequenos papéis, nas comédias Um Assunto Internacional (A Global Affair), Dois Farristas Irresistíveis (Bedtime Story), Um Amor de Vizinho (Good Neighbor Sam) e Médica, Bonita e Solteira (Sex and the Single Girl). A seguir, participou de três filmes em que sua beleza foi valorizada: O Harém das Encrencas (John Goldfarb, Please Come Home, 1965), uma grande tolice (a fita, a meu ver, tem apenas um único mérito: mostrar Barbara Bouchet trajando sedutoras roupas de seda); A Primeira Vitória (In Harm’s Way, 1965), uma superprodução sobre a primeira vitória dos Estados Unidos no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial (uma das seqüências memoráveis do filme é a que mostra Barbara Bouchet e o ator Hugh O’Brian se amando numa praia deserta, à noite; e o clímax da cena apresenta a atriz inteiramente nua da cintura para cima) e Agente do SS, Serviço de Segurança (Agent for H.A.R.M., 1966), uma aventura de espionagem (no filme, Barbara Bouchet é mostrada a maior parte do tempo usando um sensual biquíni).
Depois, Barbara Bouchet interpretou uma adorável miss Moneypenny em Cassino Royale (Casino Royale, 1967), uma sátira às fitas do agente secreto 007; e ganhou um dos principais papéis femininos da produção inglesa A Rota do Perigo (Danger Route, 1968).
Entre 1964 e 1968, paralelamente a seu trabalho nos filmes, Barbara Bouchet apareceu, sempre em participações especiais, em algumas séries da tevê norte-americana: The Rogues, Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea), O Agente da U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E.), O Homem de Virgínia (The Virginian), Tarzan e Jornada nas Estrelas (Star Trek).
E, em 1969, Barbara Bouchet participou de Surabaya Conspiracy (trata-se de uma fita totalmente obscura, que possivelmente nem foi exibida no Brasil) e da versão cinematográfica do musical Sweet Charity (Charity, Meu Amor), que marcou a estréia do coreógrafo Bob Fosse (1927-1987) como cineasta. E, em seguida, mudou-se para a Itália, onde imediatamente estrelou o policial Asfalto em Chamas (Colpo Rovente), cuja história pode ser assim resumida: jovem estudante fica cega devido ao uso abusivo de drogas. Para evitar que se descubra a verdade, os traficantes a seqüestram. Um detetive particular consegue localizá-la e toma conhecimento de organização criminosa que construiu um império financeiro com o tráfico de entorpecentes.



BARBARA BOUCHET – FILMOGRAFIA (ANOS 1960)

A Senhora e Seus Maridos
Direção: J. Lee Thompson
Roteiro: Betty Comden & Adolph Green, baseando-se numa história de Gwen Davis
Elenco: Shirley MacLaine, Paul Newman, Robert Mitchum, Dean Martin, Gene Kelly, Bob Cummings, Dick Van Dyke, Reginald Gardiner, Margaret Dumont, Fifi D’Orsay, Lou Nova, Maurice Marsac, Wally Vernon, Jane Wald, Lenny Kent, Barbara Bouchet
Um Assunto Internacional
Direção: Jack Arnold
Roteiro: Bob Fisher & Charles Lederer
Elenco: Bob Hope, Yvonne De Carlo, Robert Sterling, John McGiver, Lilo Pulver, Barbara Bouchet

Dois Farristas Irresistíveis
Direção: Ralph Levy
Roteiro: Stanley Shapiro & Paul Henning
Elenco: Marlon Brando, David Niven, Shirley Jones, Dody Goodman, Aram Stephen, Parley Baer, Marie Windsor, Rebecca Sand, Frances Robinson, Henry Slate, Norman Alden, Susanne Cramer, Cynthia Lynn, Ilse Taurins, Francine York, Barbara Bouchet
Observação: Este filme foi refilmado em 1988, com o título de Os Safados (Dirty Rotten Scoundrels), apresentando Michel Caine, o insuportável Steve Martin e Glenne Headly nos principais papéis.

Um Amor de Vizinho
Direção: David Swift
Roteiro: James Fritzell, Everett Greenbaum & David Swift, baseando-se no romance homônimo de Jack Finney
Elenco: Jack Lemmon, Romy Schneider, Dorothy Provine, Michael Connors, Edward G. Robinson, Linda Watkins, Louis Nye, Robert Q. Lewis, Joyce Jameson, Anne Seymour, Charles Lane, Neil Hamilton, Barbara Bouchet

Médica, Bonita e Solteira
Direção: Richard Quine
Roteiro: Joseph Heller & David R. Schwartz, baseando-se em história escrita por Joseph Hoffman a partir do livro de Helen Gurley Brown
Elenco: Natalie Wood, Tony Curtis, Lauren Bacall, Henry Fonda, Mel Ferrer, Fran Jeffries, Leslie Parrish, Edward Everett Horton, Larry Storch, Stubby Kaye, Howard St. John, Otto Kruger, Max Showalter, William Lanteau, Helen Kleeb, Curly Klein, Barbara Bouchet, Count Basie & Orquestra

O Harém das Encrencas
Direção: J. Lee Thompson
Roteiro: William Peter Blatty
Elenco: Shirley MacLaine, Peter Ustinov, Richard Crenna, Scott Brady, Jim Backus, Charles Lane, Jerome Cowan, Wilfrind Hyde-White, Fred Clark, Harry Morgan, Telly Savalas, Richard Deacon, Jackie Coogan, Jerome (Jerry) Orbach, Barbara Bouchet


A Primeira Vitória
Direção: Otto Preminger
Roteiro: Wendell Mayes, baseando-se em romance de James Bassett
Elenco: John Wayne, Kirk Douglas, Patricia Neal, Tom Tryon, Paula Prentiss, Jill Haworth, Brandon de Wilde, Dana Andrews, Stanley Holloway, Burgess Meredith, Franchot Tone, Henry Fonda, Patrick O’Neal, Carroll O’Connor, Slim Pickens, James Mitchum, George Kennedy, Bruce Cabot, Barbara Bouchet, Hugh O’Brian


Agente do SS, Serviço de Segurança
Direção: Gerd Oswald
Roteiro: Blair Robertson
Elenco: Mark Richman, Wendell Corey, Carl Esmond, Barbara Bouchet, Martin Kosleck, Rafael Campos, Alizia Gur



Cassino Royale
Direção: John Huston, Ken Hughes, Val Guest, Robert Parrish, Joe McGrath, Richard Talmadge & Anthony Squire
Roteiro: Wolf Mankowitz, John Law & Michael Sayers, baseando-se no romance homônimo de Ian Fleming
Música: Burt Bacharach
Elenco: Peter Sellers, Ursula Andress, David Niven, Orson Welles, Joanna Pettet, Daliah Lavi, Woody Allen, Deborah Kerr, William Holden, Charles Boyer, John Huston, Barbara Bouchet, Georg Raft, Jean-Paul Belmondo, Terence Cooper


A Rota do Perigo
Direção: Seth Holt
Roteiro: Mead Roberts, baseando-se no romance The Eliminator, de Andrew York
Elenco: Richard Johnson, Carol Lynley, Barbara Bouchet, Sylvia Sims, Diana Dors, Harry Andrews, Gordon Jackson, Sam Wanamaker


Surabaya Conspiracy
Direção: Wray Davis
Roteiro: Walter Anton White
Elenco: Michael (Mike) Preston, Barbara Bouchet, Michael Rennie, Richard Jaeckel, Leopoldo Salcedo, Pancho Magalona, Vic Diaz


Charity, Meu Amor
Direção: Bob Fosse
Roteiro: Peter Stone, baseando-se na peça musical de Neil Simon (libreto), Cy Coleman (música) e Dorothy Fields (letra), adaptada do roteiro do filme As Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria, 1957), escrito por Federico Fellini, Ennio Flaiano e Tullio Pinelli
Coreografia: Bob Fosse
Elenco: Shirley MacLaine, Sammy Davis Jr., Ricardo Montalban, John McMartin, Chita Rivera, Paula Kelly, Stubby Kaye, Barbara Bouchet, Alan Hewitt, Dee Carroll


Asfalto em Chamas
Direção: Pietro Zuffi
Roteiro: Pietro Zuffi & Ennio Flaiano
Elenco: Michael Reardon, Barbara Bouchet, Carmelo Bene, Suzana Martinková, David Groh, Victor Duncan, John MacDouglas, Benny Stevens, Isa Miranda, Eduardo Ciannelli
Observação: Este filme, baseado em fatos extraídos da crônica policial, marcou a estréia de Barbara Bouchet no cinema italiano.


 


BARBARA BOUCHET – PARTICIPAÇÕES NA TELEVISÃO (ANOS 1960)

The Rogues (um episódio, 1964)

Viagem ao Fundo do Mar (episódio “The Left-Handed Man”, 1965)

O Agente da U.N.C.L.E. (um episódio, 1966)

The Virginian (um episódio, 1967)

Tarzan (um episódio, 1968)

Jornada nas Estrelas (episódio “By Any Other Name”, 1968)