Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

A ARTE DA SEDUÇÃO
por Louise Brooks



A mulher que deseja realmente seduzir não ignora que vale mais deixar adivinhar do que mostrar.
As minhas roupas podem ter, por vezes, causado espanto, em Hollywood; mas não creio que houvesse nunca impressionado alguém, por me haver vestido de maneira indecente.
De resto, vou dizer-lhes uma coisa: não acredito nem um pouco na veracidade das digressões líricas dos poetas, nem dos pensadores, quando celebram a beleza do nu. Talvez a imobilidade de um corpo nu possa inspirar um quadro ou uma estátua, porque nesse caso a arte toma conta dele e como que lhe dá uma nova vida. Entretanto, são poucas de nós, mulheres, que poderiam servir de modelo a qualquer pintor ou figurar, com vantagem, num baixo-relevo antigo. Além do mais, levamos uma vida inclemente; e as nossas roupas, que constituem os nossos melhores agentes de sedução, tornam-se para nós indispensáveis, porque é sobretudo com sua imaginação que os homens nos devem ver. Recordam-se dos véus da perturbadora Salomé? Eram sete! Sete! E, quando o último caiu, ela imobilizou-se um segundo; depois, desapareceu.
É por isso que acho o traje de banho a roupa menos favorecedora que a mulher pode usar, porque revela todas as nossas pequeninas imperfeições. E qual é a mulher que pode esperar não ter uma imperfeição?
O maiô satisfaz a curiosidade que os homens quase sempre sentem a nosso respeito; mas não será essa satisfação justamente a que não temos desejo de lhes dar? Acreditem-me: para nos mostrarmos sob o nosso mais sedutor aspecto, não há nada que chegue à graciosidade de um vestido de noite ou à naturalidade de um penhoar. Que homem será capaz de resistir à harmonia desses tecidos flexíveis, aos movimentos das suas longas mangas aladas e à sugestão de intimidade que deles se exala?
Querem saber a cor que devemos escolher? Sim, ela também tem muita importância. Antes, a vamp vestia-se sempre de preto. Isso já está completamente fora de moda. Na minha opinião, a cor de carne é a mais sexual. Mas não considero cor de carne essa cor de rosa que nos querem impingir as caixeiras dos magazines. Entendo que deva ser a cor da nossa própria carne. Se a mulher for loura, um tom de rosa misturado de creme; se for morena, um tom açafroado. Cada uma deve escolher a cor que lhe fica melhor. Nesta estação, o meu vestido de noite mais bonito é de cetim rosa pálido, sem decote na frente e extremamente decotado atrás. Os reflexos do cetim são o suficiente para tornar difícil saber em que ponto o vestido acaba e começa a pele. Dá a idéia de que é muito indiscreto; e, no entanto, só mostro a pontinha dos sapatos. Eis mais um acessório que não convém dispensar, já que os homens são muito sensíveis à graça de um lindo par de sapatinhos.
Agora, não abusem dos perfumes. O mais discreto deve ser sempre o preferido.
E, para terminar, aconselho que desconfiem das jóias. São, por vezes, muito linguarudas; e a sua abundância pode indicar demasiada... experiência. Disse-me, um dia, um homem que os diamantes lhe pareciam ser os marcos quilométricos da vida de uma mulher e que só lhe inspiravam desconfiança. Será possível seduzir alguém que desconfie?

 

Este texto foi publicado originalmente no número de 5 de abril de 1930 da revista portuguesa Cinéfilo