Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

AMINA
(extraído de As Mil e Uma Noites)
tradução: T. G. Novais



Comendador dos Crentes, não vos falo do meu nascimento; ele não tem bastante esplendor para merecer da vossa parte alguma atenção. Quanto à minha fortuna, os meus antepassados, pela sua economia, deixaram-me quanto eu podia desejar para viver como homem honrado, sem ambição e sem depender de ninguém.
Com tais vantagens, a única coisa que faltava para completar a minha felicidade era uma mulher amável que, amando-me de verdade, partilhasse comigo a minha sorte; mas quis Deus que eu não a encontrasse. Pelo contrário, deu-me uma que, desde o dia que se seguiu às nossas núpcias, começou a abusar da minha paciência de uma maneira que não podeis imaginar.
Como é costume que o casamento se realize sem que vejamos e conheçamos aquelas com quem devemos casar, não ignorais que um marido não se pode queixar quando verifica que a mulher que lhe coube não é feia e que os bons costumes, o bom senso e o bom procedimento corrigem qualquer imperfeição que ela possa ter no corpo.
A primeira vez que vi minha mulher com o rosto descoberto, depois de terem-na trazido à minha casa, alegrei-me por ver que não me haviam enganado quanto à sua beleza.
No dia seguinte às nossas núpcias, ao sentar-me à mesa para comer, não vi minha mulher. Mandei, então, chamá-la. Depois de esperá-la muito tempo, ela chegou. Dissimulei a minha impaciência, e sentamo-nos à mesa.
Principiei pelo arroz, que tirei com uma colher, como é o nosso costume. Minha mulher, porém, em vez de servir-se de uma colher, tirou de um estojo, que trazia no bolso, uma espécie de palito e usou-o para levar o arroz, grão por grão, à boca.
Surpreso com aquele modo de comer, eu disse-lhe:
– Amina, aprendeste com a tua família a comer dessa maneira o arroz? Comes assim porque és uma fraca comedora ou porque queres contar os grãos para comer sempre o mesmo número? Se assim procedes por economia e para ensinar-me a não ser esbanjador, não temas. Asseguro-te que jamais nos arruinaremos. Temos, graças a Deus, o bastante para viver comodamente e não temos necessidade de privarmo-nos de nada.
O ar afável com que lhe fiz essas observações deveria merecer alguma resposta; entretanto, sem dizer uma única palavra, Amina continuou a comer do mesmo modo e, para aumentar o meu desespero, engoliu menos arroz ainda. Depois, em vez de comer dos outros pratos comigo, contentou-se em levar à boca, de quando em quando, um pouco de pão migado.
Indignou-me a sua teimosia. Imaginei, no entanto, que não estava acostumada a comer com homens... e menos ainda com o marido. Pensei também que já tivesse comido ou pretendesse comer sozinha. Tais considerações me impediram de dizer-lhe mais alguma coisa, algo que pudesse ofendê-la ou dar-lhe sinal de desprazer. E, após comer, retirei-me com o mesmo ar, como se nada tivesse me dado motivo de descontentamento; e deixei-a sozinha.
À noite, ao jantar, foi a mesma coisa. No dia seguinte e em todas as vezes que comíamos juntos, portava-se da mesma maneira. Percebi que não era possível que uma mulher pudesse viver com tão pouco alimento e que atrás daquilo se ocultava algum mistério. Resolvi, então, fingir. Fingi que não reparava nas suas ações, na esperança de que, com o tempo, ela se acostumasse a viver comigo como eu desejava; mas minha esperança foi em vão, e não demorou muito para convencer-me disso.
Certa noite, supondo que eu dormia profundamente, Amina levantou-se devagar. Observei que se vestia com todas as precauções para não me acordar. Não pude compreender por qual razão ela interrompia assim o repouso, e a curiosidade de saber o que faria me fez fingir um sono profundo. Amina acabou de vestir-se e, no momento seguinte, saiu do quarto sem fazer o menor ruído.
Imediatamente, levantei-me e vesti-me. Tive tempo de ver, através de uma janela que dava para o pátio, Amina abrir a porta da rua e sair.
Corri logo à porta, que ficara entreaberta; e, graças ao luar, segui Amina até que a vi entrar num cemitério perto de casa. Alcancei, então, o fim de um muro que terminava no cemitério e, após tomar todas as precauções para não ser visto, vi minha mulher com uma goule.
Bem sabeis que as goules de ambos os sexos são demônios que erram pelos campos. Habitam geralmente edifícios em ruínas, de onde se lançam de surpresa sobre os viandantes, a quem matam e cuja carne devoram. Na falta de viandantes, vão de noite aos cemitérios e saciam-se com a carne de cadáveres.
Fiquei terrivelmente assustado, quando vi Amina com a goule. Desenterraram um morto que tinha sido sepultado naquele dia, e a goule cortou diversos pedaços de carne do cadáver. Sentadas à beira da cova, as duas comeram os pedaços de carne e conversaram tranqüilamente; como eu estava distante, não me foi possível ouvir o que diziam.
Quando terminaram, lançaram o resto do cadáver na cova, que tornaram a encher com a mesma terra que haviam tirado. Voltei apressado para casa. Entrei e deixei a porta da rua entreaberta, como a achara. Em seguida, fui para o quarto, deitei-me e fingi dormir.
Pouco tempo depois, Amina entrou, despiu-se e deitou-se, alegre.
Dominado pela repugnância de ver-me deitado ao lado daquela criatura que cometera um ato tão bárbaro e abominável, demorei para conciliar o sono. Consegui, por fim, adormecer; mas foi um sono tão leve, que acordei à primeira voz que se fez ouvir para chamar à prece pública da manhã. Vesti-me e fui à mesquita.
Depois da oração, saí da cidade e passei a manhã passeando pelos jardins e pensando nas medidas que tomaria para obrigar minha mulher a mudar o seu modo de vida. Repeli todos os meios violentos que me vieram à mente e decidi valer-me apenas de brandura para afastá-la da sua mórbida inclinação. Com esses pensamentos, cheguei à minha casa, onde entrei justamente na hora do almoço.
Logo que me viu, Amina mandou servir o almoço; e pusemo-nos à mesa. Como vi que continuava comendo arroz de grão em grão, disse-lhe calmamente:
– Amina, sabes o quanto estranhei quando te vi, no dia seguinte ao das nossas núpcias, comer arroz em tão pouca porção e de uma maneira que teria ofendido qualquer outro marido. Sabes também que me contentei em dar-te a conhecer a pena que isso me causava, pedindo-te que provasses as carnes que nos serviam. Desde então, viste a nossa mesa sempre assim servida, mudando-se às vezes alguns pratos para que não comamos continuamente as mesmas coisas. Mas as minhas observações foram inúteis; e, até hoje, para meu desgosto, não cessaste de fazer a mesma coisa. Guardei silêncio, a fim de não te causar aborrecimentos... Amina, as carnes que nos servem à mesa não têm o mesmo gosto das carnes dos mortos?
Mal pronunciei as últimas palavras, Amina, compreendendo que eu a seguira na véspera, enfureceu-se de tal forma que o rosto ficou muito vermelho e os olhos quase lhe saltaram das órbitas.
O estado horroroso em que eu a vi encheu-me de espanto. Fiquei imóvel e sem poder defender-me da terrível maldade que ela premeditava contra mim. No auge da cólera, agarrou um vaso de água, mergulhou dentro dele os dedos e, balbuciando algumas palavras que não entendi, borrifou-me o rosto. Então, num tom furioso, disse-me:
– Desgraçado, recebe o castigo da tua curiosidade e transforma-te em cão!
Tão logo Amina, que eu não sabia que era feiticeira, pronunciou essas palavras diabólicas, vi-me transformado em cão.
Para encurtar a minha história, devo dizer que foi uma jovem senhora, grande conhecedora de artes mágicas, que me transformou novamente em ser humano...

 

Este texto foi traduzido da versão francesa (de Antoine Galland) de As Mil e Uma Noites