Ano 2 - nº 6 - março/junho de 2010

LENORE
Gottfried August Bürger
tradução: Alexande Herculano
tradução revista por Marco Aurélio Lucchetti



Atormentada por sonhos ruins,
         Já desperta está Lenore;
         E inda agora os céus do Oriente
         Tinge a aurora.
“Wilhelm, és morto?”, ela pergunta.
         “Ou traíste a pobre amante?
         Se vives, por que retardas
         De eu te ver feliz instante?”
Nas tropas de Friedrich
         Tempo havia que partira
         Para a batalha de Praga,
         E as cartas dele quem vira?
Mas a imperatriz e o rei,
         De guerra enfim cansados,
         Depondo os ânimos encarniçados,
         De paz fizeram tratados.
Já aos seus lares tornam
         Ambas as hostes folgando.
         Cingem as frontes com ramos verdes,
         Vêm atabaques rufando.
E por montes e por vales
         Velhos e moços chegam,
         Dando brados de alegria,
         A encontrar os que voltam.
“Boas-vindas!”, dizem
         Filhas, noivas e esposas.
         E Lenore? Nenhum dos vindos
         Faz-lhe carícias saudosas.
Por Wilhelm ela pergunta.
         Por qual estrada virá?
         Vão trabalho, vãs perguntas.
         Novas dele quem saberá?
Não o vê. Passaram todos...
         Em furioso devaneio,
         Ela arranca as negras tranças
         E fere forte o lindo seio.
Corre em seu socorro a mãe.
         “Valha-me, Deus!”, brada a casta senhora.
         “Minha filha, que é isso?!”
         E entre os braços a aperta.
“Minha mãe, perdeu-se tudo!
         Tudo perdi, enfim.
         De nada Deus se condói...
         Oh, dor! Oh, pobre de mim!”
“Vinde, Senhor, em nosso auxílio!
         Filha, um pai-nosso reza.
         Deus é pai. Sempre nos ouve:
         Nunca a humana dor despreza.”
“Minha mãe, inútil crença!
         Que bem me tem feito Deus?
         Pais-nossos!... Pais-nossos!...
         Que importam rezas aos céus?”
“Vinde, Senhor, em nosso auxílio!
         Pois não é quem reza ouvido?
         Busca nos sacramentos o consolo,
         Verás teu pesar vencido.”
“Mãe, esta amargura
         Sacramento algum adoça.
         Não sei de nenhum sacramento
         Que aos mortos dar vida possa.”
“Filha, quem sabe se, ingrato,
         Ele às promessas faltou;
         E lá na remota Hungria
         Novo amor o cativou?
Se, volúvel, te abandona,
         Do crime o prêmio terá!
         Do último transe na angústia
         O remorso o punirá.”
“Morreu-me, ó mãe, a esperança.
         Perdido... Tudo é perdido!
         Morrer, também, só me resta!
         Quisera eu nunca haver nascido!
Foge, ó sol resplandecente!
         Manda a noite e os teus terrores...
         Deus, ó Deus, que nunca escutas
         O gemer das humanas dores!”
“Meu Senhor! A desditosa
         Não pensa o que a língua exprime.
         Não julgueis a vossa filha
         Nem vos lembreis do seu crime.   
Esquece as vãs paixões, filha.
         Pensa no gozo eterno,
         Só assim tua alma pode
         Escapar dos tormentos do inferno.”
“Que é gozo eterno, ó mãe?
         E o inferno em que consiste?
         Com Wilhelm há gozo eterno,
         Sem Wilhelm o inferno existe.
Sem ele, que a luz, fugindo,
         Se troque em noturno horror;
         Sem ele, no céu, na terra,
         Só conheço cruel dor.”
Assim, no sangue e na mente
         Fúria insana lhe ferve.
         Contra o Senhor
         Mil blasfêmias repete.
Desde o nascer da aurora
         Até que o céu se estrela,
         As mãos, louca, retorce
         E os brandos e níveos seios lacera.



Porém ouçamos!... A terra
         Pisa um cavalo lá fora!...
         E pelos degraus da escada
         Tinem sons de espada e espora...
Ouçamos! Batem na argola
         Bem de leve, devagar...
         E, através das portas,
         Claro se ouve assim falar:
“Olá, querida, abre a porta!
         Dormes? Estás acordada?
         Ris? Choras?
         De mim és inda lembrada?”
“Wilhelm, tu?! Na alta noite?
         Tenho velado e gemido.
         Quanto padeci!... Mas donde
         Até aqui tens tu corrido?!”
“Nós montamos à meia-noite.
         Da Boêmia acabo de vir;
         Saí tarde, mas comigo
         Sem demora irás partir.”
“Ó meu querido Wilhelm,
         Vem depressa. Aqui te abriga,
         Entre os meus braços. Porque o vento
         Do bosque as crinas fustiga.”
“Deixa-o rugir no mato.
         Deixa-o sibilar, ora!
         Não paro... que o meu ginete
         Escava o chão... tine a espora...
Nosso leito nupcial
         Dista cem milhas daqui.
         Sobraça as roupas... vem... salta
         À garupa, atrás de mim... aqui.”
“Ao leito nupcial
         Ainda hoje queres me guiar?
         Ouve... As horas dá o relógio:
         Doze acabam de soar.”
“Olha em volta! O luar é claro.
         Nós e os mortos bem corremos.
         Aposto eu que num instante
         Ao leito nupcial chegaremos.”
“Mas dize-me: onde é que habitas?
         Como é o leito do noivado?”
         “Longe, tranqüilo, fresco, estreito.
         De oito tábuas é formado.”
“Para dois?”
         “Para nós dois. Vem cá.
         Os convidados esperam,
         O quarto patente está.”
Sobraçada a roupa, a bela
         Para o ginete salta
         E, com as alvas mãos,
         Ao seu fiel cavaleiro se laça.
Começa a corrida.
         À fula, lá vão!
         Ginete e guerreiro arquejam,
         Saltam pedras; faísca o chão!
Lá vão! À direita e à esquerda,
         Prado, campo e monte se escoam.
         E do galope
         Sob a ponte os sons ecoam!
“Tremes, minha querida?
         Depressa correm os mortos.
         Tens medo dos mortos?”
         “Não. Mas deixa os mortos.”
“Que sons e cantos são estes?
         Que anda o corvo a farejar?
         Sons de sino? Hinos de morte?
         Um morto vão a enterrar.”
É de fato um funeral,
         E um caixão leva.
         Aos silvos de cobra em pego
         Seu canto se assemelha.
“Um enterro à meia-noite,
         Com salmos e com lamento;
         E eu a minha noiva levo
         Ao sarau do casamento?
Vinde, ó sacristão, ó coro,
         O epitalâmio entoai-nos!
         Vinde, ó abade, e, antes que entremos
         No leito, a bênção lançai-nos!”
Cessa o canto. A tumba some-se.
         Finda o clamor,
         A mando do cavaleiro; e o ginete
         Voa na pista do corredor.
E a corrida aumenta sempre!
         À fula, lá vão!
         Ginete e guerreiro arquejam,
         Saltam pedras; faísca o chão!
À direita e à esquerda fogem
         Montes, bosques, valados!
         À direita e à esquerda fogem
         Cidades, vilas, povoados!
“Tremes, minha querida?
         Depressa correm os mortos.
         Tens medo dos mortos?”
         “Ai! Deixa-os repousar!”
“Olha! Ao redor de uma forca
         Dançar em tropel não vês
         Aéreos corpos, que alvejam
         Da luz da lua através?
Aqui, patifes!
         Patifes, me acompanhai!
         Vinde. A dança do noivado
         Junto ao leito meu dançai!”
E os vultos vêm logo atrás,
         Ruído imenso fazendo,
         Como o furacão nas folhas
         Secas do jardim rangendo.
E a corrida aumenta sempre!
         À fula, lá vão!
         Ginete e guerreiro arquejam,
         Saltam pedras; faísca o chão!
Para trás sumir parece
         Quanto o luar alumia,
         Para trás o estrelado céu
         Sumir parece.
“Tremes, minha querida?
         Depressa correm os mortos.
         Tens medo dos mortos?”
         “Que horror! Esquece os mortos!”
“Avante! Creio o galo ouvir!
         Breve a areia há-de correr...
         Avante! Voa,
         Que sinto o ar do amanhecer...
Nossa jornada está finda.
         Ao leito nupcial chegamos.
         Ligeiro os mortos caminham.
         À meta final chegamos.”
A um portão de férreas grades
         À rédea solta chegam.
         E de frágil vara ao toque
         Ferrolho e chave saltam.
Piando as aves fogem
         Sobre campas mortuárias.
         Ao fim chega a corrida! Alvejam
         Frias lousas funerárias.
Eis que logo...
         Quadro horrível de se ver!
         Peça por peça a armadura
         Do cavaleiro começa a se desfazer.
Sua cabeça torna-se um crânio
         Branco-pálido, descarnado;
         Nas mãos tem foice e ampulheta,
         Triste adorno do finado.
Alça-se e arqueja o ginete,
         Ígneas faíscas lança;
         Debaixo de seus pés,
         A terra abre-se e o traga.
Dos covais surgem fantasmas.
         Feio urrar os ares corta.
         Bate incerto o coração
         De Lenore já semimorta.
Ao redor danças de espectros
         Em remoinho passam.
         Canto de medonhas vozes
         É o canto que cantam:
“Afliges-te, Lenore? Oh, tem paciência!
         Teu corpo não vai ao encontro dos céus.
         Teu corpo pertence à terra,
         Dê paz à tua alma Deus!”