Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

ZÉ DO CAIXÃO E OS QUADRINHOS
Marco Aurélio Lucchetti



No artigo “Um Dark Muito Antes dos Darks” (O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Porto Alegre, L&PM, verão de 1987, p. 3), o cineasta Ivan Cardoso afirmou:

“Fui leitor assíduo de O Estranho Mundo de Zé do Caixão, cuja coleção ainda guardo até hoje. (...) Foi com grande surpresa que, um dia, descobri em um jornaleiro este inesquecível álbum, que misturava história em quadrinhos com fotonovela dos filmes. Para os leitores de quadrinhos era o máximo; e para os aficcionados no Terror nem se fala... a dupla Lucchetti-Rosso, famosa por várias outras revistas no gênero, era a certeza de uma boa aventura.”

Inovação e renovação. Eis as palavras que Rubens Francisco Lucchetti e Nico Rosso (1910-1981) tinham em mente, quando, no segundo semestre de 1968, imaginaram e realizaram a revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Os dois já estavam cansados de produzir o gibi A Cripta (1968-1969), cuja principal atração eram as histórias em quadrinhos do vampiro Nosferatu – histórias em quadrinhos essas passadas na Europa. A dupla queria conceber algo novo em matéria de Horror quadrinhístico, e a oportunidade nesse sentido surgiu ao poderem adaptar para os quadrinhos o terror caboclo de José Mojica Marins. De Nosferatu a Zé do Caixão. Do Horror ao Terror. Das aldeias, castelos e bosques europeus às cidades, morros e cemitérios brasileiros. Dos vampiros e monstros das lendas e tradições européias às feiticeiras desdentadas e demônios mulatos das crenças brasileiras. Com O Estranho Mundo de Zé do Caixão, a obra de Lucchetti & Rosso sofreu uma transformação radical.

Certamente, quando decidiram lançar O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Armando Augusto Lopes (1914-1978) e Arlindo Pinto de Souza, proprietários da Editora Prelúdio, não tinham idéia de que a revista seria a responsável por uma série de inovações nas publicações nacionais dedicadas aos quadrinhos de Horror/Terror. E O Estranho Mundo de Zé do Caixão inovou porque foi a primeira revista que:
1 – estampou em suas páginas histórias em quadrinhos e fotonovelas;
2 – teve suas histórias narradas por um personagem oriundo do Cinema e da Televisão – a exemplo do que acontecia nos episódios da série de televisão O Estranho Mundo de Zé do Caixão, no início, no final e nos momentos de maior emoção de cada história, Zé do Caixão aparecia (ele era mostrado sempre por meio de fotografias, num trabalho perfeito de integrar fotos a desenhos);
3 – mostrou um terror genuinamente brasileiro (o professor de Semiologia e pesquisador Moacy Cirne fez o seguinte comentário sobre a história Noite Negra, publicada no primeiro número de O Estranho Mundo de Zé do Caixão: “É um quadrinho brasileiro até a medula de sua essência. Será preciso dizer mais alguma coisa?”) – até então, as histórias em quadrinhos de Horror/Terror produzidas no Brasil eram protagonizadas por personagens estrangeiros e ambientadas em outros países.
Quando falei que O Estranho Mundo de Zé do Caixão mostrou um terror genuinamente brasileiro, deve ser ressaltado que reside nesse aspecto a principal renovação efetuada nos quadrinhos produzidos por Lucchetti & Rosso. Nessa revista e posteriormente em Zé do Caixão no Reino do Terror, a dupla criou um universo terrorífico autenticamente nacional. Revelou para o público o terror do cotidiano e de conteúdo social; expôs, em algumas histórias, problemas e verdades que, naquele período, um dos mais repressivos do governo militar brasileiro pós-golpe de 1964, não podiam ser mostrados. Entretanto, não foi nada fácil adaptar para as histórias em quadrinhos o universo de Zé do Caixão, conforme atestam estas palavras de Rubens Francisco Lucchetti:

“Quando tive a idéia de realizar uma revista de história em quadrinhos com o Zé do Caixão, imaginei o personagem como ele aparece na abertura do filme O Estranho Mundo de Zé do Caixão e nos episódios das séries de televisão: um contador de histórias. Na minha concepção, ele seria um conhecedor de muitas histórias estranhas e sobrenaturais, ‘acontecimentos verídicos dos anais secretos de Zé do Caixão’. Tão logo imaginei isso, fui falar com o Nico Rosso, com o qual produzia a revista A Cripta, que vinha alcançando relativo sucesso junto ao público, por fugir do padrão dos gibis de Terror da época (A Cripta era em grande formato, 23x29 cm, com desenhos em meio-tom). O Nico, um assíduo espectador do programa do Mojica, entusiasmou-se com a idéia. Em seguida, levei a proposta para o Mojica, um fã de quadrinhos e inveterado colecionador de gibis. Ele, de imediato, prontificou-se a financiar o projeto. Comecei, então, a escrever os roteiros das histórias, baseando-me em meus textos do programa Além, Muito Além do Além, da TV Bandeirantes. Confesso que não foi nada fácil adaptar os scripts televisivos para as histórias em quadrinhos, pois eu queria conservar o estilo primitivista, que é a marca do Mojica. Sem ele, as histórias estariam descaracterizadas por completo, como aconteceu no programa da TV Tupi, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, que ficou sofisticado demais. Também nos deparamos com outro problema: como o Zé do Caixão iria aparecer nos recordatórios? O Nico fez inúmeros esboços, que mostravam o personagem nas mais variadas posições e situações. Embora o Nico tivesse um estilo muito pessoal, a idéia de mostrar o personagem por meio de desenhos não tinha nada de original, já que diversos gibis norte-americanos baseados em séries da televisão adotavam esse recurso. Foi aí que pensamos: ‘Por que não mostrar o  personagem por intermédio de fotos?’ Imediatamente procurei o fotógrafo oficial do Mojica, o Luiz Fidélis Barreira, em seu estúdio, na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, e encomendei-lhe uma série de fotografias do Zé do Caixão. Algumas fotos foram aproveitadas do próprio arquivo do Fidélis; outras, principalmente aquelas que seriam utilizadas nas aberturas das histórias e deveriam ter poses especiais, tiveram de ser feitas. Com relação ao título da revista, não foi por acaso que foi escolhido O Estranho Mundo de Zé do Caixão, porque ele era uma referência direta ao nosso filme e ao nosso programa de televisão, formando, assim, uma trilogia tendo Zé do Caixão como narrador. Para finalizar, é importante destacar que, apesar de formarem uma trilogia, o filme, o programa e as histórias em quadrinhos do Zé do Caixão foram realizados segundo a linguagem de cada veículo para o qual se destinavam: o cinema, a televisão e a revista, respectivamente.”