Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

VELHO EQUÍVOCO
Menalton Braff



Os filmes, em geral, necessitam de um roteiro. E, para isso, criou-se, no século XX, o roteirista, uma profissão até então inexistente. E por motivos óbvios. Os grandes roteiristas criam a história e redigem o roteiro. E é claro que, ao imaginarem suas histórias, eles têm em vista tudo aquilo que é específico da estética cinematográfica, como cortes, planos, ritmo, imagens. O roteiro, segundo Marçal Aquino, um dos expoentes da função no Brasil, é “apenas a indicação sucinta das ações e do cenário”, aquilo que no texto dramático chama-se didascália.
Comparar um filme ao romance em que ele (filme) se baseou é velho equívoco que continua sendo cometido por muita gente boa. É o mesmo que comparar a peça “Quadros de uma Exposição” (1874), uma suíte sinfônica do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881), com os quadros – do pintor e arquiteto Victor Hartmann, um amigo de Mussorgsky – que inspiraram sua composição.
Nunca é demais lembrar que as artes destinam-se a áreas específicas de nossa sensibilidade. A Música está para a audição assim como a Pintura para a visão. A Literatura, mesmo quando intensamente sensorial, não pretende estimular nenhum de nossos sentidos. É uma arte dirigida à razão, a despeito do Simbolismo, a estética literária que mais exigia sonoridade da poesia. A palavra não tem como ser apenas seu significante, como há não muito tempo se propôs. Ela se carrega de significado, que até pode ser dinamizado pelo som, mas jamais será apenas sonoridade.
O assunto me ocorre depois de uma exibição de Abril Despedaçado (2001), filme dirigido por Walter Salles (o mesmo diretor de A Grande Arte, Terra Estrangeira e Central do Brasil) e estrelado por José Dumont e Rodrigo Santoro, entre outros. O roteiro, escrito por Walter Salles, Sérgio Machado e Karim Aïnouz, é baseado em livro do escritor albanês Ismail Kadaré; mas não é nem poderia ser o livro.

Abril Despedaçado - Poster

Entre o livro e o filme (indicado em 2002 ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e ganhador de um Prêmio Especial no Festival de Veneza) existem diferenças intransponíveis. O sertão nordestino não tem a mesma carga de arcaísmo das montanhas da Albânia, as tradições são outras, as razões dos atos humanos nem se podem comparar. Uma camisa pendurada enquanto seca pode significar alguma coisa para aquele povo isolado das montanhas, no Nordeste brasileiro soa falso. Não faz parte de nossa cultura. As leis da hospitalidade não chegam a ser semelhantes; a tradição milenar descrita por Kadaré, com seus rituais, com sua simbologia, não tem correspondência entre nós. O filme é um belo filme (segundo crítica publicada na revista Isto É, suas “imagens não saem da memória”), mas é outra obra; e não tem os mesmos significados que encontramos no livro. Um exemplo: é crença dos montanheses da Albânia que um morto por assassinato não pode ficar com o rosto voltado para o chão (o assassino será amaldiçoado, se não virar o rosto da vítima para o céu). Mas essa é uma crença que se mistura à religião, ao misticismo local. No filme, depois do tiro certeiro, que abate sua vítima, que cai de borco (o rosto voltado para o chão), o assassino empurra o corpo com a ponta da bota. Mas como se pode entender isso, aqui no Brasil? Ora, o mais lógico é pensar que o assassino quis conferir se era o “seu morto” e se ele estava realmente morto.
O livro é todo carregado de valores estranhos para nós, valores que o filme não teria como passar. E não passou.
Um grande romance dificilmente – ou raramente – serve de base para um grande filme. A especificidade estética do filme é a imagem em movimento. Pode-se imaginar um filme sem som, sem diálogos; mas não se pode pensar em um filme sem imagem. A especificidade estética de um romance é seu discurso. Imagine-se, como exemplo, fazer uma paráfrase resumitiva do Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa (1908-1967).
Livros, portanto, devem ser comparados a livros, filmes só devem ser comparados a outros filmes.
O roteiro, ainda segundo Marçal Aquino, “não tem preocupação com a linguagem, porque é apenas um meio para se chegar ao fim”. O romance tem a linguagem como fim em si, como seu objetivo estético final.

 

Menalton Braff é professor e escritor